OPINIÃO
28/05/2015 19:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

O legado esportivo não-intencional do Qatar: limpeza na FIFA, exposição da corrupção política e uma reavaliação dos patrocínios corporativos

A Copa de 2022 no Qatar promete ser um raro exemplo de um megaevento esportivo que deixa um legado de mudanças sociais, políticas e econômicas - mas não as que a família que governa o país do Golfo Pérsico tinha imaginado.

VANDERLEI ALMEIDA via Getty Images
The facade of the headquarters of the Brazilian Football Confederation (CBF) at Barra da Tijuca neighbourhood in Rio de Janeiro, Brazil, on May 28, 2015. The CBF's headquarters is named after the CBF's former president and current member of the FIFA's organizing committee for the Olympic football tournaments, Jose Maria Marin, who was arrested today in Switzerland along with other FIFA officials, accused of corruption. Swiss police detained several FIFA leaders in a dawn raid Wednesday as part of a twin corruption inquiry that rocked world football's governing body two days before its leader Sepp Blatter seeks a new term. All now face deportation to the United States on charges of accepting more than $150 million in bribes. This morning the leaders of the CBF removed the name of Jose Maria Marin from its headquarters. AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

A Copa de 2022 no Qatar promete ser um raro exemplo de um megaevento esportivo que deixa um legado de mudanças sociais, políticas e econômicas - mas não as que a família que governa o país do Golfo Pérsico tinha imaginado.

As controvérsias sobre a candidatura do Qatar, somadas à incapacidade da FIFA de lidar seriamente com o problema da corrupção dentro de casa e nas suas federações regionais, incluindo a Confederação Asiática de Futebol (CAF), levaram ao anúncio do indiciamento de 14 altos executivos e ex-executivos da FIFA, além de empresários envolvidos com o esporte.

O escândalo atinge o coração não só da corrupção financeira, mas também do ambiente de corrupção política cujas raízes estão no jogo de influências de forças políticas muitas vezes alinhadas com a FIFA, a CAF, o Conselho Olímpico da Ásia e com governos autocráticos, como os do Oriente Médio.

O escândalo também envolve as críticas crescentes ao regime trabalhista do Qatar e ao fato de que o país do Golfo não cumpriu as promessas grandiosas de reforma. Isso não só levou as corporações globais a se manifestar como também gerou discussões sobre a responsabilidade ética de patrocinadores corporativos, constrangidos com o que o jornalista investigativo Andrew Jennings chamou de organização criminosa.

Dada a resistência a mudanças dentro da FIFA e dos órgãos regionais, como a CAF, apenas três partes interessadas têm o potencial de provocar mudanças: o judiciário, os torcedores e os patrocinadores corporativos. Os promotores dos Estados Unidos e da Suíça saíram na frente esta semana.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos tinha bases legais para a investigação, com a presença da Concacaf (a federação que reúne América do Norte, América Central e Caribe) em Miami - virtualmente todos os indiciados são das Américas --, com o envolvimento de um americano de destaque, com o fato de que pagamentos ilícitos em dólares foram processados por intermédio de bancos americanos, e com a infra-estrutura legislativa e judicial do país, capaz de assumir uma investigação global.

Em contraste, os torcedores, com a exceção de alguns protestos e declarações primordialmente na Inglaterra e na Escócia, estão em grande parte apáticos. Os patrocinadores corporativos saíram na frente, com declarações fortes criticando as condições de trabalho no Qatar.

Esta semana, jogadores em atividade e aposentados se juntaram às corporações. Em uma carta, eles exigiram do Qatar a abolição do sistema kafala, um sistema de patrocínio segundo o qual os trabalhadores ficam à mercê dos empregadores. A carta afirma que os funcionários das obras da Copa de 2022 são "mantidos como reféns no maior canteiro de obras do mundo".

Os processos nos Estados Unidos e na Suíça, combinados com insatisfação corporativa, deveriam preocupar as autoridades do Qatar. A ameaça de que o país perca o direito de sediar a Copa tem várias facetas, e o risco aumentou muito com o início das ações judiciais. Essas ações também colocam o foco nas empresas de direitos esportivos e suas relações próximas com os órgãos que governam o futebol - as várias federações regionais, especialmente a CAF, tentam manter essas relações a qualquer custo.

A investigação americana parece inicialmente concentrada nos eventos nas Américas e na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, e também olha para a eleição presidencial da FIFA de 2011, que levou à queda de Bin Hammam. Essa eleição, associada à candidatura do Qatar, é o foco da investigação criminal suíça, junto com o voto favorável à candidatura da Rússia.

O ex-integrante do comitê executivo da FIFA Chuck Blazer, que já confessou culpa e coopera com as autoridades americanas, teve papel importante na queda de Bin Hammam. Blazer teria se sentado ao lado de Bin Hammam na reunião do comitê executivo de 2 de dezembro de 2010, quando houve o voto a favor do Qatar. Blazer teria visto Hammam ticando em uma lista de nomes dos membros do comitê que votaram a favor do país do Golfo. A suspeita é que a lista de Hammam incluísse os nomes dos delegados que ele havia comprado.

Darry e Daryan Warner, filhos de Jack Warner, um executivo do futebol que caiu em desgraça e que era próximo de Bin Hammam, também estão colaborando com os investigadores americanos. Jack Warner, um dos 14 executivos indiciados, se entregou à polícia em Trinidad e Tobago na noite de quarta-feira.

Warner foi decisivo na campanha de Bin Hammam para a presidência da FIFA e para que o Qatar fosse escolhido como sede da Copa. Warner renunciou a seu cargo na FIFA em 2011 para evitar um processo interno do órgão máximo do futebol mundial. Na época, ele avisou que derrubaria a FIFA, depois de divulgar um email do secretário-geral da organização, Jerôme Valcke, afirmando que a Copa do Qatar havia sido comprada.

As investigações americana e suíça se concentram em corrupção financeira, mas é improvável que elas consigam atacar o problema igualmente grave da corrupção política. Ela resulta da associação próxima entre o futebol e a corrupção política, que serve como um facilitador de negociações financeiras escusas e está no coração dos escândalos do Qatar e da Rússia, do affair Bin Hammam e do escândalo da CAF.

Junto com o Malay Mail, este blog levou à suspensão do secretário-geral da CAF, Dato Alex Soosay, enquanto se investiga se ele tentou esconder ou destruir documentos relativos a múltiplos pagamentos ilegais, assim como negócios corporativos.

O presidente da CAF é o xeque Salman Bin Ebrahim Al Khalifa, membro da família que governa o Bahrain, que em 2011 reprimiu brutalmente uma revolta popular durante a qual cerca de 150 atletas e executivos esportivos foram presos. Durante a presidência do xeque Salman na Federação de Futebol do Bahrain, jogadores da seleção do país teriam sido torturados. O xeque Salman não se pronunciou a favor de seus jogadores nem falou sobre as acusações que pesam contra ele.

O xeque Salman também se esforçou para encobrir uma auditoria independente que descobriu enormes irregularidades financeiras na CAF e levantou sérias questões sobre o acordo para uma venda de direitos de 1 bilhão de dólares para a World Sports Group (WSG), uma empresa de Singapura. Em 2014, a WSG tentou forçar este autor a divulgar suas fontes, mas a Suprema Corte de Singapura rejeitou o pedido.

As ações judiciais dos Estados Unidos e da Suíça colocam a candidatura do Qatar sob os holofotes. Revelações recentes do The Sunday Times deixam poucas dúvidas em relação à corrupção envolvida na candidatura do país. Mas, para ser justo, Qatar e Rússia jogaram o jogo da FIFA. A candidatura da Inglaterra perdeu em sua tentativa de sediar o Mundial de 2018 por uma simples razão: tentou ser correta e ética e agiu dentro da lei.

Como resultado, impedir o Qatar de sediar a Copa sem também atacar o problema russo e, acima de tudo, reformar a FIFA para acabar com a cultura de corrupção política e financeira, seria transformar o país do Golfo em bode expiatório. Além disso, a questão é: qual é o resultado mais favorável das ações judiciais? Acabar com a cultura enraizada de corrupção, permitindo que os megaeventos esportivos sejam veículos de mudança? Ou castigar como forma de vingança?

O Qatar corre para controlar os potenciais danos das ações judiciais, mas é certo que o país sente a pressão para agir rapidamente em relação às condições de vida e de trabalho dos trabalhadores, incluindo aqueles envolvidos nas obras da Copa. Trabalhadores imigrantes são a maioria da população do país.

A favor do Qatar, deve-se dizer que, desde a vitória de sua candidatura para sediar a Copa, o país foi o único do Golfo a responder aos críticos - numa parte do mundo que prende ou proíbe a entrada daqueles que não seguem a linha dos autocratas. Nas últimas semanas, o Qatar tem sido acusado de não cumprir promessa grandiosas e de reprimir os críticos e a mídia estrangeira que tenta cobrir a situação dos trabalhadores.

Esse envolvimento do Qatar foi um primeiro passo no tipo de mudança que a Copa de 2022 pode provocar. O mesmo vale para os patrocinadores corporativos, que estão repensando o que significa apoiar financeiramente um megaevento.

"O que marcas como Adidas, Hyundai, Kia, McDonald's, Budweiser, Coca-Cola e Visa vão fazer a respeito das acusações sobre as condições de trabalho nas obras da Copa? ... A bússola moral das marcas está sendo testada... Como consumidores, podemos influenciar e ajudar as marcas a reconhecer e entender que, como cidadãos globais, nossa expectativa é que elas pelo menos demonstrem estar preocupadas e sirvam de exemplo:, disse David Todar, na revista Branding Magazine.

James M. Dorsey é pesquisador sênior da S. Rajaratnam School of International Studies na Nanyang Technological University em Singapura, co-diretor do Institute of Fan Culture da Universidade de Würzburg e autor do blog The Turbulent World of Middle East Soccer (o mundo turbulento do futebol do Oriente Médio), e de um livro com o mesmo título que está para ser publicado.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.
Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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