OPINIÃO
28/04/2015 18:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Os EUA estão reconhecendo a humanidade dos gays

Larry Ysunza conheceu seu parceiro Tim Love em 1980 e contou para a mãe naquele mesmo dia que tinha conhecido o homem com quem iria se casar. Hoje, 35 anos depois, Larry e Tim estão entre os demandantes na ação de casamento diante da Suprema Corte.

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Larry Ysunza conheceu seu parceiro Tim Love em 1980 e contou para a mãe naquele mesmo dia que tinha conhecido o homem com quem iria se casar. Hoje, 35 anos depois, Larry e Tim estão entre os demandantes na ação de casamento diante da Suprema Corte. Eles estarão no tribunal ouvindo atentamente, à procura de pistas dos juízes para saber se seu longo noivado finalmente poderá acabar em casamento.

"Nunca achei que isso fosse acontecer, e com certeza não tão rápido!" Esse é Larry expressando sua surpresa sobre a velocidade com que o país está caminhando em direção à liberdade para que casais do mesmo sexo oficializem suas uniões.

Ouço esse sentimento - de que o casamento de mesmo sexo em todo o país era inimaginável - de muita gente. E também sinto o mesmo, todos os dias. Quando estava no armário, no ensino médio, em uma Long Island rural dos anos 1970, casamento simplesmente não era uma possibilidade. Não conseguia imaginar me assumir para ninguém, muito menos conceber um futuro no qual pudesse viver abertamente, com dignidade. Quão surpreso eu ficaria naquela época se soubesse que no futuro haveria um homem com quem poderia me casar, diante da minha família.

Mesmo deixando de lado o resultado do caso sendo examinado pela Suprema Corte (e nunca podemos contar com uma vitória, apesar de me sentir esperançoso), tem ocorrido uma transformação incrível na atitude do país em relação aos nossos casamento. Essa tendência virou uma bola de neve em 2013, quando a Suprema Corte derrubou o ponto central do Ato de Defesa do Casamento, na ação Estados Unidos contra Windsor.

Em resumo, os Estados Unidos estão reconhecendo a humanidade dos gays.

Passamos de 13 Estados em que o casamento gay é legal, no fim de junho de 2013, para 37, hoje. Vinte desses novos Estados entraram na lista no ano passado. Do lado cultural, as pesquisas mostram 61% de apoio à igualdade de casamentos em todo o país; as maiores empresas americanas estão nos apoiando na Suprema Corte; e até mesmo os candidatos às primárias do Partido Republicano estão se debatendo com a ideia de comparecer aos nossos casamentos e de aceitar seus filhos LGBT.

A velocidade do progresso me deixa desnorteado. E está ficando difícil lembrar como era dura a luta somente alguns poucos anos atrás. Os Estados Unidos, hoje, são um lugar muito diferente do que eram 2004, quando eleitores de 13 Estados aprovaram emendas em suas constituições estaduais para nos excluir do casamento; do verão de 2006, quando perdemos ações de casamento em Nova York, Washington e Nebraska; de 2008, quando a Proposição 8 foi derrotada nas urnas, o que nos impediu de casar na Califórnia; e até mesmo do começo de 2011, quando o Departamento de Justiça ainda defendia a constitucionalidade do Ato de Defesa do Casamento.

Eu sei que tinha uma opinião diferente em relação às nossas perspectivas de vitória na época. Tinha confiança em nossos argumentos legais, mas também achava que a mudança cultural seria lenta. Não vi a aceleração que estava a caminho. O tsunami de novas ações de casamentos protocoladas em todo o país na esteira do caso Windsor me pegou de surpresa, assim como o impressionante número de decisões a nosso favor nas cortes inferiores. Houve uma profunda mudança na maneira como país vê os gays.

Essa mudança vem da força cultural do casamento. Uma parte central da homofobia é partir do princípio de que os relacionamentos gays são diferentes dos héteros. Que nossos relacionamentos têm a ver só com sexo, não com amor. Que estamos interessados em crianças como pedófilos, não como pais. Que todos os nossos relacionamentos são curtos, furtivos e vergonhosos.

O casamento nos Estados Unidos significa o contrário desses estereótipos antigay. Casamento é amor, é ter filhos, é uma celebração pública do compromisso de duas pessoas.

Um motivador importante dessa mudança cultura em relação aos gays é a percepção crescente no país de que não somos tão diferentes dos héteros. Os relacionamentos têm o mesmo papel nas nossas vidas que nas deles. Muitos de nós vivemos o compromisso essencial do casamento e somos prejudicados quando a lei nos trata como estranhos. Em resumo, os Estados Unidos estão reconhecendo a humanidade dos gays.

E hoje, diante da Suprema Corte, apresentamos o mesmo argumento: que a humanidade dos gays é razão principal pela qual nos impedir de casar representa uma violação da Constituição. Temos o mesmo propósito que os heterossexuais em relação ao casamento, e as garantias de liberdade e igualdade da Constituição também se aplicam a nós. Quando o país e os tribunais apreciarem nosso cerne de maneira similar, os argumentos legais nessas ações não são tão complicados. A desigualdade fica muito clara e injustificável.

Foram necessários muitos anos até chegarmos a este ponto, tanto nas cortes como na cultura. Embora tenhamos chegado até aqui mais rápido que eu imaginava, também esperamos muito tempo para ter a mesma dignidade dos outros americanos. Perdemos amigos e parceiros, tivemos filhos e netos, amamos e perdemos tudo, sem as proteções legais com as quais tantos podem contar. Para Tim e Larry, para eu na época do colégio, e para milhões de outros gays, lésbicas e bissexuais de todo o país: chegou a hora de sermos reconhecidos em nossa humanidade.

Tenho otimismo de que nossa espera está perto do fim, mas, qualquer que seja a decisão da Suprema Corte, é uma hora e um lugar maravilhoso para viver.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.