OPINIÃO
27/03/2015 14:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

No Brasil, água é poder

Na mesma velocidade que o dólar subia e o nível do sistema Cantareira baixava - mergulhando para apenas 5% de sua capacidade no início de mês de fevereiro - as concessionárias brasileiras se preparavam para uma crise energética. E o País deveria incentivar suas concessionárias de energia elétrica a fornecerem aos consumidores informação adequada sobre o seu consumo de energia.

Mof0/Flickr

Entre as várias histórias que ouvi sobre a crise hídrica enquanto eu estava no Brasil, no início deste mês, uma me chamou mais atenção: uma colega entra no elevador do seu prédio e lê um aviso de um vizinho preocupado. 'Queridos vizinhos', dizia a nota, 'como vocês sabem, estamos em uma grave crise de abastecimento. Todos devem fazer sua parte para economizar água. É por isso que eu decidi lavar o meu carro somente uma vez por mês. Espero que todos possam contribuir abrindo mão de algo semelhante'.

Eu tinha acabado de passar cinco dias em São Paulo, visitando executivos de concessionárias do setor elétrico e imaginando como a tecnologia de software poderia envolver melhor os seus consumidores para abordar uma crise que se agrava a cada dia. Vinte milhões de pessoas vivem atualmente na capital paulista e têm sofrido com a pior seca da metrópole em quase um século.

Duas semanas mais cedo, durante o Carnaval, algumas cidades da região chegaram até a cancelar desfiles de rua com medo que não houvesse água suficiente para limpar as ruas e calçadas ou até mesmo refrescar as multidões. Além disso, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, Sabesp, admitiu um racionamento.

A última vez que o Brasil enfrentou uma crise de água dessa magnitude, a primeira grande empresa privada de energia elétrica do país - a Light - ainda estava construindo o alicerce de uma moderna infraestrutura de abastecimento de água e energia. Hoje, o sistema de reservatórios e barragens não fornece apenas água potável, mas também mais de três quartos de sua capacidade de geração de energia elétrica.

Assim, na mesma velocidade que o dólar subia e o nível do sistema Cantareira baixava - mergulhando para apenas 5% de sua capacidade no início de mês de fevereiro - as concessionárias brasileiras se preparavam para uma crise energética.

As cidades e concessionárias começaram então campanhas de conscientização e conservação. A Eletropaulo - a grande empresa de energia elétrica de São Paulo, que cresceu a partir da Light - pensava em como comunicar novas bandeiras tarifárias, que ajusta o preço da eletricidade de acordo com o nível de água nos reservatórios. A Sabesp, Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, começou a identificar reservatórios adicionais que poderiam canalizar água para o sedento Sistema Cantareira.

Apesar desses esforços, há um recurso que o Brasil não pode mais ignorar: seus consumidores. Com informações corretas em mãos e engajados no momento certo, milhões de consumidores poderiam ajudar a combater a crise de água economizando de fato este recurso, além da eletricidade. Há três coisas em particular que o Brasil deveria fazer:

Primeiro, o País deveria incentivar suas concessionárias de energia elétrica a fornecerem aos consumidores informação adequada sobre o seu consumo de energia. A ciência comportamental nos diz que é mais fácil economizar quando sabemos quanto estamos usando e quanto nosso consumo se compara com o dos outros.

Pense sobre o que acontece com seu carro, por exemplo, quando você sabe qual é o consumo de combustível no painel. Empresas como a Opower são capazes de provar este princípio, em parceria com quase uma centena de empresas de energia em todo o mundo.

Sem dúvida, o Brasil também poderia aplicar este princípio com as concessionárias de água. Se o vizinho bom samaritano que havia deixado um bilhete no elevador da minha colega enxergou que a maioria dos paulistas poderia lavar seus carros com menos frequência, talvez ela também tenha se sentido menos inclinada a manter o seu carro limpo e encerado.

Em segundo lugar, os legisladores em Brasília deveriam equipar as concessionárias com os incentivos adequados para buscarem políticas inteligentes. Simplesmente porque elas também são empresas e sobrevivem por meio das receitas. Convencê-las a implantar seriamente políticas de eficiência energética requer mudar toda sua estrutura de incentivos.

Quando devidamente engajadas, com mecanismos de recuperação de custos, as concessionárias podem formar a espinha dorsal institucional de um sistema que se adapta de forma rápida e barata, e avançar com uma boa política focada no bem da sociedade.

Resultados de pesquisas e programas implementados confirmam isto: as pessoas em geral confiam em seu fornecedor de energia para obter mais informações sobre seu consumo; elas querem que seus fornecedores lhes deem mais informações sobre como elas podem economizar; e elas têm um grande apetite por informações personalizadas sobre seu próprio consumo.

Muitos órgãos reguladores na Europa e nos EUA vêm implementando políticas inovadoras com o propósito de remover as barreiras naturais que as empresas de energia enfrentam na busca da eficiência energética. Essas políticas também poderiam ser implementadas rapidamente no Brasil.

Por último, as concessionárias brasileiras deveriam aproveitar o grande sucesso da tecnologia que grandes empresas, como as dos setores bancário, de telecomunicações e transportes, já tem implantado: comunicação preventiva, pro-ativa e personalizada. Eu duvido que seja uma surpresa que as pessoas gastem pouco tempo (ou nada) pensando sobre seu consumo de energia. As pessoas estão ocupadas demais.

Energia é um assunto chato. Assim, as concessionárias elétricas deveriam aproveitar melhor a tecnologia e o conhecimento para engajar seus consumidores nos momentos que realmente importam. Por exemplo, uma concessionária poderia avisar certos clientes de que estão prestes a receber uma conta alta enquanto ainda dá tempo, isto é, antes da conta chegar e enquanto o consumidor ainda pode economizar.

A implementação dessas iniciativas seria uma forma relativamente rápida e barata de ajudar o Brasil a conservar muita água. Somente nesse ano, envolvendo milhões de consumidores em lugares onde foram realizadas essas simples práticas, a Opower já economizou mais energia elétrica do que foi gerado pela hidrelétrica do maior reservatório da cidade de São Paulo. Se o Brasil recorresse aos seus consumidores de água e energia elétrica como se fossem um recurso, talvez a capital paulista pudesse encher seus reservatórios.