OPINIÃO
10/02/2014 11:27 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

É a floresta dos BRICS, estúpido!

Sasha Mordovets via Getty Images
DURBAN, SOUTH AFRICA - MARCH 27: (L-R) Indian Prime Minister Manmohan Singh, Chinese President Xi Jinping, South Africa President Jacob Zuma, Brazil's President Dilma Rousseff and Russian President Vladimir Putin pose for photographers during the BRICS Summit on March, 27,2013 in Durban, South Africa. In the fifth summit of the BRICS nations leaders, they talked about forming a development bank to aid developing nations. (Photo by Sasha Mordovets/Getty Images)

Funerais proliferam em coberturas jornalísticas. Pode ser nas páginas de necrologia, em sangrentas editorias policiais, em relatos de catástrofes naturais ou de desastres aéreos. A tanatologia contamina redações e analistas apressados, empenhados em enterrar movimentos e rótulos com a mesma sofreguidão com que os criaram. Hoje, pululam esforços com intuito de cravar atestado de óbito para a ascensão dos BRICS. Melhor olhar a floresta do que a árvore.

Indicadores econômicos sinalizam a desidratação do crescimento econômico dos países-emergentes reunidos na sigla criada há mais de uma década pelo banco de investimentos Goldman Sachs. Naquela época, ainda não havia a letra "S", acrescentada com a adesão da África do Sul (South Africa) depois do convite capitaneado pela China, em 2011. Pequim convidou parceiro africano numa lógica geopolítica, em detrimento da origem econômica do acrônimo, a fim de fincar mais um pé no continente em que aposta boa parte de seu cacife diplomático.

Os dados mais modestos sobre expansão do PIB, agitados como atestado de óbito da onda dos BRICS, iluminam cenários conjunturais. Mudanças estruturais já ocorreram e, não há como colocar esse gênio de volta na garrafa. Os cinco países, com o crescimento econômico das últimas décadas, tiraram da pobreza parcelas expressivas de suas populações, antes marginalizadas do processo de consumo e, agora, transformadas em classe média de diversos padrões. As estratégias convergem em um fenômeno: mudanças no tecido social de países que respondem por mais de 40% da população do planeta.

A China começa a emagrecer pujantes índices de crescimento econômico. Depois de uma média anual de quase 10% nas últimas três décadas, quer desacelerar para o patamar, mais sustentável no médio prazo, de 7%. A freada, por exemplo, já estimula avaliações apressadas sobre o fim da relevância dos BRICS.

Nada é mais diferente da China de 2012 do que a China de 1978, quando o patriarca Deng Xiaoping deslanchou as reformas responsáveis por remodelar a face econômica e social do país mais populoso do planeta. Nesse período, mais de 400 milhões de chineses deixaram o campo, para viver em áreas urbanas, onde o vírus trepidante da economia de mercado contagia gradativamente um sistema político ainda modorrento e amarrado nas mãos pesadas do Partido Comunista.

Na Rússia, a classe média, numa definição elástica e mais com ares sociológicos do que econômicos, já engloba 20% da população. Tende a aumentar nos próximos anos, segundo diversos estudos.

Fenômenos semelhantes são detectados nos outros integrantes do BRICS: Brasil, Índia e África do Sul. Naturalmente, cada país guarda suas peculiaridades e diferenças muitas vezes astronômicas. No entanto, subsiste um ponto de convergência responsável por redesenhar o cenário global no século 21: protagonizam a chamada "universalização da classe média", criando novas fronteiras para o capitalismo e redesenhando seu perfil social e econômico.

O trem das mudanças sociais dos BRICS partiu da estação. Quem olhar a árvore, ou apenas os indicadores econômicos conjunturais, vai perder o pé do processo. Quem olhar a floresta, e entender o impacto de mudanças estruturais nessas sociedades, verá um novo tabuleiro. E as alterações representam oportunidades e armadilhas dos mais diversos matizes. Aumentaram, de maneira histórica, o peso relativo desses países no cenário global. O jogo econômico e social também se altera, com reflexo inevitável na dinâmica política doméstica. Em cada país, o processo apresenta inevitáveis peculiaridades, mas, reunidos num de seus encontros anuais, líderes do BRICS compartilham ao menos um questionamento: como lidar com a ascendente classe média quando voltar para casa?