OPINIÃO
18/02/2016 12:38 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

A mulher na passarela NÃO representa a mulher da arquibancada

As atleticanas da arquibancada, que compram os produtos do time, que vestem a camisa em dia de jogo, quando estão torcendo, não estão preocupadas em ficarem bonitas com a camisa do clube. Elas colocam porque amam o Atlético. E isso não as faz menos femininas, menos atraentes e, menos 'mulher'.

Divulgação

Durante boa parte da minha vida, principalmente na infância, ouvi de pessoas próximas e, em sua maioria de estranhos, que eu não era uma menina normal. Tudo porque eu gostava de jogar futebol com os meninos na rua. A fama "ruim" não cessava nem mesmo quando eu pulava corda ou jogava vôlei com outras meninas. Eu não brincava "de coisas de menina" para que as pessoas parassem de ter uma impressão "errada" minha, mas porque eu gostava de brincar disso tanto quanto eu gostava do futebol. A diferença é que eu era infinitamente melhor com a bola nos pés.

Foi difícil achar uma escolinha de futebol com uma turma de meninas. Como a demanda é pequena, na única que encontrei tinham meninas de todas as idades e muito maiores que eu. Eu devia ter lá os meus 12 anos quando acordava cedo todos os sábados e ia até a escolinha do Corinthians, "Chute Inicial", na divisa de Diadema com São Bernardo do Campo, em São Paulo. Meus pais me levavam. Eu voltava a pé e nem ligava para a distância porque pós-treino a adrenalina estava lá em cima.

Voltava de chuteira e meião mesmo. Caneleira em uma das mãos, na outra uma garrafinha d'água. Lembro que em um sábado qualquer um homem passou por mim, mas, antes, fez questão de se aproximar e disse: você parece um homem, sabia? E seguiu andando. Fiquei chateada. Eu era uma criança ainda e não consegui esboçar um xingamento que fosse ou ignorar completamente. Aquilo ficou na minha cabeça um bom tempo. Os vizinhos lá da rua me chamavam de "maria macho", "sapatão" e, embora aquelas palavras daquele desconhecido tivessem o mesmo sentido que essas alcunhas, aquele homem fez um pequeno estrago em uma cabeça que ainda estava em desenvolvimento.

Afinal, eu não entendia por que não podia jogar futebol. Por que era errado. Por que eu não podia vestir a minha chuteira. Eu gostava tanto dela. Gostava do calção e da camisa também. Meu cabelo não era liso. Minhas unhas não eram grandes. Não tinha um corpão, com seios e bumbum grandes. Mas dentro de mim eu tinha minha opção sexual definida. Gostava de garotos. Era isso que eles insinuavam né? Que por eu gostar de futebol iria me relacionar com mulheres?

Como diria Albert Eistein:

"Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito".

Vocês devem ter visto o rolo que deu a apresentação da nova camisa do Atlético-MG. Em um evento voltado para a maioria dos torcedores, o público masculino, resolve-se agradá-lo mostrando a camisa modelo feminino (que legal que o Galo tem modelos femininos!) de uma forma que desagrada não só as mulheres em geral, mas, principalmente, as que gostam de futebol, compram este produto e vão aos estádios.

Paira a dúvida: as modelos eram para agradar o público masculino ou para mostrar que existe mulher bonita e gostosa que gosta de futebol? Não vestiram as modelos com calção para não "parecerem homens"?

Suponhamos que as modelos - contratadas, claro - desfilassem usando um calção ou, até mesmo, um short legging. Para os olhos masculinos não ficaria atraente; mas, o importante não é a camisa nova que está sendo mostrada e não o corpo de uma mulher?

No ano passado, o coordenador de futebol feminino da CBF, Marco Aurélio Cunha, em entrevista ao jornal canadense Globe and Mail, disse que o futebol feminino tem pouca visibilidade porque falta uma "reforma estética". Segundo ele:

"Agora, as mulheres estão ficando mais bonitas, passando maquiagem. Elas entram em campo mais elegantes. O futebol feminino costumava copiar o futebol masculino. Mesmo o modelo do uniforme era mais masculino. Costumávamos vestir as garotas como homens. Então, faltava ao time um espírito de elegância, feminilidade. Agora, os shorts estão mais curtos, os penteados estão mais bem-feitos. Não é uma mulher vestida como homem".

O meio do futebol até abre espaço para a mulher, mas quando faz algo é pensando no público masculino porque ainda acredita que o esporte é destinado somente aos homens. E porque é comandado por homens, não havendo diálogo com uma minoria, sim, mas não menos importante e que vem crescendo cada vez mais.

É fácil repreender a mulher que critica o comportamento machista, porque esses nunca se sentiram inferiores no ramo do futebol. Talvez o que eu tenha passado na infância tenha me feito perceber que as diferenças entre as pessoas existem, mas elas não definem o que cada um é.

Aquelas modelos não representam as mulheres que compram a camisa do Atlético Mineiro. Não são as que vão ao Horto. As atleticanas se sentiram ofendidas porque foram tratadas como um objeto: foram a expressão da objetificação do corpo feminino, com a finalidade de agradar o público masculino presente naquele evento.

As atleticanas da arquibancada, que compram os produtos do time, que vestem a camisa em dia de jogo, quando estão torcendo, não estão preocupadas em ficarem bonitas com a camisa do clube. Elas colocam porque amam o Atlético. E isso não as faz menos femininas, menos atraentes e, nenhum pouco menos 'mulher'.

LEIA MAIS:

- Do caráter do orador e das paixões do ouvinte

- Por que todas as classes sociais deveriam assistir 'Que Horas Ela Volta?'

Também no HuffPost Brasil:

Galeria de Fotos 5 mulheres que enfrentaram o machismos nos esportes Veja Fotos

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: