OPINIÃO
16/06/2015 19:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

5 maneiras de ser ativista da aceitação corporal e não se abalar com os trolls

O problema, ao meu ver, é que quando elogiamos apenas UM tipo de corpo humano, como nos convencemos que temos que fazer, criam-se divisões, o ciúme se torna um efeito colateral natural, a desconfiança se multiplica e o sentimento de irmandade entre mulheres desaparece.

O mundo precisa de pessoas que defendam a aceitação corporal e o amor-próprio - muitas pessoas! Mas esse não é um trabalho fácil. Quero ajudar meus colegas, ativistas da aceitação corporal (ou "body love"), a se orientar nesta revolução global que muitas vezes pode ser exaustiva e dolorosa, já que se alastra pelo planeta principalmente através da Internet - e nem todo o mundo que está online é gentil.

Encaremos os fatos: nossa sociedade, assim como a maioria das sociedades deste nosso lindo planeta, está inconscientemente convencida de que apenas as integrantes de um grupinho humano restrito merecem ser festejadas, sentir-se empoderadas, sentir-se belas e experimentar a palavrar "perfeita" para ver qual é a sensação. Inúmeras pessoas me escrevem e dizem coisas do tipo: Como é que mulheres que não cabem no molde um-formato-uma-cor-de-pele-uma-idade-um-gênero conseguem se amar? Como é que mulheres podem ter coragem de curtir seus corpos não fotoshopados? Como temos a ousadia de festejar TODAS nós, isso mesmo, TODAS: mulheres de quadris ossudos, mulheres com celulite e coxas grossas, mulheres com habilidades diferentes ou que nasceram baixas, altas, gordas, negras ou douradas?

O problema, ao meu ver, é que quando elogiamos apenas UM tipo de corpo humano, como nos convencemos que temos que fazer, criam-se divisões, o ciúme se torna um efeito colateral natural, a desconfiança se multiplica e o sentimento de irmandade entre mulheres desaparece.

Quando fundei o A Beautiful Body Project (Projeto Corpo Bonito) e meu trabalho começou a circular pelo planeta, eu ficava acordada até tarde da noite, com os olhos cansados e meu coração e meus pulmões latejando, respondendo a centenas e então milhares de pessoas que repudiavam meu trabalho e deixavam comentários maldosos nos artigos publicados sobre ele. Eu queria que elas entendessem minhas razões, que entendessem que as mulheres com quem eu trabalhava se sentiriam muito feridas por seus comentários e que todos os corpos são divinos e merecem elogio e amor-próprio!

Então descobri que era uma perda de meu tempo precioso.

Me reuni com outras ativistas da aceitação corporal de minha cidade, especificamente minha adorada Jes, do The Militant Baker, e discutimos demoradamente como fazer nosso trabalho feminista em prol da aceitação corporal e não nos sentirmos derrotadas ou maltratadas pela maldade vinda através da Internet.

O que eu aprendi e que pratico diariamente é o seguinte:

1. Não leia os comentários nos artigos publicados sobre seu trabalho.

A energia que você desperdiça respondendo aos trolls e às pessoas que deixam comentários cruéis apenas enfraquece o entusiasmo necessário para trabalhar em prol de VOCÊ MESMA e de centenas de milhares de mulheres cujo empoderamento estamos facilitando! Precisamos usar nossa energia com sabedoria em nossas vidas ocupadíssimas, e precisamos optar por dedicar nossa atenção às pessoas que apoiam, compreendem ou têm divergências legítimas e respeitosas, que possam nos ajudar a fazer nossa compaixão crescer.

Eu leio a maioria dos comentários deixados no meu Facebook e minha conta de Instagram, porque minha assistente e eu conseguimos bloquear a maior parte dos comentários cruéis, restando as críticas construtivas de nossas seguidoras. É incrível.

2.Abrace a condição de feminista. Esse é um termo historicamente rotulado como mau. Não é.

Quando fundei o A Beautiful Body Project, as pessoas começaram a elogiar meu "trabalho feminista". Eu respondia na hora que não era feminista, era apenas uma mulher que quer mudar como nossa sociedade enxerga o que é belo e ajudar as mulheres a ficar livres dos sentimentos de vergonha por seus corpos preciosos, perfeitos e divinos.

E então entendi: era um trabalho feminista, sim! A maioria de nós associa o feminismo a uma paixão raivosa, endurecida. Não precisa ser assim. Fazer trabalho feminista é uma NECESSIDADE global e incrivelmente positiva. O feminismo levanta a mão a cada segundo da rotação da Terra: mulheres querendo ser vistas, compreendidas e sentir-se dignas. Ser feminista é simplesmente se declarar como uma tribo compassiva e determinada, enfrentando todos que nos dizem que não somos boas o bastante e que precisamos mudar para nos tornamos perfeitas e inteiras. É treinar ACREDITAR que somos boas o bastante, que nossas irmãs também o são e que temos o direito de viver exatamente como somos, neste momento.

3. Pratique cuidar de você mesma.

Faça coisas que lhe dão felicidade. Eu danço todas as sextas à noite com um grupo de mulheres doidas e maravilhosas, ao som de tambores ao vivo, e digo que isso é meu remédio. Faço longas caminhadas na natureza com meu filho e desligo meu telefone por dias a fio. Tirar períodos de folga do nosso trabalho de mudar o mundo, para que possamos retornar depois refeitas e nutridas, é OBRIGATÓRIO.

4. Cerque-se de pessoas que entendem seu trabalho.

Fazer parte de uma tribo é importantíssimo. Para mim, a tribo é minha aula semanal de dança; é passar tempo de alta qualidade com meu filho e o pai dele, que é meu melhor amigo. É conversar sobre arte com meu amor. Ficar perto de pessoas que compreendem como é difícil a gente se expor é uma coisa incrivelmente curadora. Desde que comecei a fazer este trabalho, minhas amizades mudaram. Tive que me libertar dos muitos "advogados do diabo" e identificar pessoas que enxergavam o valor de meu trabalho e me pegavam no colo quando eu estava exausta, cansada de encarar o bullying. Às vezes quem está mais perto de nós não entende o que estamos fazendo. Com o tempo, alguns começam a entender. Em última análise, cabe a nós escolher as pessoas com quem vamos passar nosso tempo. Escolha quem vai amparar e amá-la, quem vai lhe dar um lugar seguro quando você chora e vai ouvi-la quando você canta.

5. Nunca desista.

O mundo precisa que todos nós pratiquemos a bondade e acreditemos na necessidade profunda do feminismo global. Com frequência é difícil, mas, se mantivermos nossa atenção voltada às pessoas que tomam cuidado com seus comentários e buscam um diálogo respeitoso; se abraçarmos o papel de defensoras das mulheres; se cuidarmos de nós mesmas com afinco e nos cercarmos de pessoas que entendem o que fazemos, nosso trabalho será mais bem-sucedido, mais gentil, mais expansivo e, em última análise, mais útil para que TODAS possamos encarnar a transformação que queremos ver acontecer no mundo.

Jade Beall é co-fundadora do A Beautiful Body Project. Leia mais sobre o projeto aqui.

Este post saiu originalmente no ABeautifulBodyProject.org .

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.