OPINIÃO
01/09/2014 14:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Redes sociais como motores para mudanças de comportamento

É muito difícil ser 'diferente' sozinho, mas ser alguém diferente dentro de um grupo de pessoas que também se sentem diferentes passa uma sensação de pertencimento.

Andando pela capital paulista há alguns dias, fiquei muito feliz com um detalhe singelo: vi muitos, muitos, muitos cabelos cacheados. Desde os ondulados leves até os crespos e black powers, eu senti que, finalmente, as pessoas estavam tendo direito à expressão do seu próprio estilo e identidade, e não a supressão de características físicas para não ~chocar~ a sociedade.

E por que isso estaria acontecendo justo agora, com procedimentos químicos e produtos cosméticos cada vez mais baratos e acessíveis para o público? Eu tenho uma teoria particular sobre o que teria tornado isso possível: a internet e as redes sociais.

Isso porque é muito difícil ser 'diferente' sozinho, mas ser alguém diferente dentro de um grupo de pessoas que também se sentem diferentes passa uma sensação de pertencimento, e ajuda a superar pequenos problemas do dia a dia, ou a tentar observar a situação de um ângulo diferente. E, nesse sentido, comunidades, grupos de discussão e redes digitais focadas em um aspecto específico podem ser uma importante ferramenta no processo de aceitação de si mesmo, superação de problemas ou até de grandes alterações sociais.

Há um ano atrás, eu mesma decidi suspender o uso de produtos químicos para alisar meus cabelos. Eu cuidava para mantê-los o mais liso possíveis, com uma rotina que incluía visitas bimestrais ao cabeleireiro para um processo nada agradável de passar uma química, esticar o cabelo, queimar os fios com uma chapinha e não lavá-los por um determinado número de dias. Depois disso, o cabelo passava alguns meses bem liso, mas em breve era preciso novamente agendar um 'retoque das raízes', que cresciam do seu jeito natural, nada lisas.

A decisão de suspender aconteceu depois que uma amiga de faculdade compartilhou sua leitura do momento: um livro chamado Curly Girl Handbook ("Manual da Garota Cacheada", em tradução livre), que explicava quais os cuidados que um cabelo cacheado merecia, e que eram ignorados por boa parte das meninas com cabelos encaracolados, que ao não saberem cuidar dos próprios fios, acabavam cedendo a processos de alisamento.

Acredito que parte dessa "ignorância" sobre os cuidados advém da nossa miscigenação. Minha mãe tem um cabelo bem liso, e portanto não sabia nada sobre as particularidades do cuidado com um cabelo que tende a ser mais ressecado, e que precisa de muito mais hidratação. Quem tem cabelo cacheado na minha casa é o meu pai, e ele mantém o corte curto básico masculino, sem ter que se preocupar muito com o quanto o cabelo dele poderia ficar sem forma, cheio de frizz e ressecado. Ninguém nessa história tinha culpa, nem mesmo eu, e a verdade é que tudo não passava de falta de informação. Informação essa, inclusive, que o Manual das Cacheadas transbordava.

Ao passar pelas páginas do Curly Girl Handbook, eu fui ficando pasma. Existia uma enorme variedade de cabelos cacheados, desde os leves ondulados (que normalmente são colocados ~na linha~ com uma rápida escova com secador) até os cachos mais fechados ou em zig-zag. Cada um deles tem uma particularidade, e com o devido cuidado, ganham brilho, forma e beleza.

Depois da leitura, comecei a pensar em como inserir aqueles tipos de cuidado na minha rotina capilar. Será que o meu cabelo poderia ficar tão bonito quanto o daquelas meninas da foto?

O problema é que eu já tinha anos e anos de química nos fios, e nem lembrava como é que eles se comportavam originalmente. Minhas memórias datavam de um tempo onde os fios vivam presos, quando eu dormia com o cabelo molhado e esticado, para que quando acordasse ele estivesse "no lugar", e que sofria ao ter que pentear ou escovar o cabelo pela manhã, sob a supervisão da minha mãe - afinal, não dá pra sair de casa sem pentear o cabelo, ela me dizia. Só que acontece que o cabelo da minha mãe permitia o penteado a seco, e o meu não.

Além dos ensinamentos do livro, busquei também por informações na internet, onde encontrei uma variedade enorme de blogs, páginas, comunidades e grupos de discussão focados na valorização dos cabelos cacheados e crespos, em ensinar técnicas para cuidar dos cachos e como finalizá-los para manter o formato, ou até fotos de meninas que ficavam lindíssimas com seus cabelos bem frisados, sem nenhum finalizador, apenas os cuidados de limpeza e hidratação.

Foi com essas meninas das redes sociais que aprendi que não preciso gastar tubos de dinheiro com produtos caríssimos, mas que um bom óleo de coco comprado em casa de produtos naturais pode ajudar muito; que existem produtos antiquíssimos, da época da vovó, como o Yamasterol, que são perfeitos para quem quer evitar agentes ressecastes como os sulfatos, parabenos e petrolatos dos shampoos tradicionais; e que, principalmente, o processo é demorado, mas altamente gratificante - e elas se certificavam de empolgar todas as que estavam iniciando a chamada "transição" de lisas progressivadas para cacheadas e onduladas.

Esses grupos são ambientes focados em exaltar a beleza dos cachos, de lembrar que não é preciso alisar para que o cabelo fique bonito e bem cuidado, e que não é preciso ceder à pressão social quando houverem críticas ao volume ou "liberdade" dos seus cabelos. Era um porto seguro para garotas que precisavam conhecer novamente os próprios fios e, às vezes, a própria identidade, e não ceder ao bullying das pessoas da sua família, namorados e amigos, que por vezes insistem em fazer piadinhas. Eu mesma tive que aprender a lidar com brincadeiras como "não tem pente na sua casa?" ou "branca do cabelo duro" enquanto eu tentava aprender a lidar novamente com meus fios naturais.

Ainda que dentre o meu círculo de amigos poucas meninas e meninos tenham os cabelos cacheados, eu consigo me sentir 'parte' de um grupo maior quando acompanho as discussões das 'Cacheadas em Transição', das 'Amigas Onduladas' ou quando passa pelo meu feed uma foto linda de uma garota com cabelos cacheados ou ondulados, uma curadoria de uma das centenas de páginas feitas para destacar a beleza dos fios que não são lisos. Se eu acordar num bad hair day daqueles, eu posso pedir ajuda das meninas das rotinas de low poo, no poo e elas certamente vão sugerir alguma coisa, indicar uma leitura, um vídeo, um blog, um site, uma loja virtual que possa me ajudar.

Ser diferente quando se pode encontrar (mesmo que online) gente tão diferente quanto você faz a vida ser mais fácil.

Obrigada, internet, por me ajudar a cultivar (de novo) meus cachos.

ps: esse post é uma homenagem à Fabi Marsaro, que despretenciosamente compartilhou uma imagem sobre o Curly Girl Handbook e fez eu me dedicar a manter o cabelo cacheadinho

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