OPINIÃO
13/02/2015 12:36 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Campus Party Brasil: a festa da internet brasileira ainda é dos meninos

A festa evoluiu e cresceu, mas a presença feminina ainda é pequena. Por que será?

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> Foto: Marcio Hanashiro / Japa Fotografia

A edição da Campus Party Brasil de 2010 foi a primeira que eu participei como jornalista. Lembro disso em especial porque minha estreia no Blue Bus foi naquele ano, com uma notinha sobre a Campus Babes, uma iniciativa de fotógrafos que se empenhavam em registrar retratos das campuseiras daquele ano, que segundo informações da organização, somavam 25% dos acampados no terceira edição da CPBR.

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O que eu não contava no texto da época era que as fotografias surgiram da necessidade de acabar com o estereótipo de que a festa da internet era masculina, ou que as meninas que estavam ali não eram bonitas o suficiente (!!)

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Os retratos também faziam questão de destacar meninas que não faziam parte de castings publicitários. Nas primeiras edições da CPBR, era comum ver mulheres entregando panfletos nos stands, apresentando produtos e fazendo propaganda, muitas vezes vestidas com roupas provocantes. O intuito disso era, aparentemente,satisfazer o estereótipo do "nerd virgem", que era a imagem que se tinha de quem gostaria de acampar num pavilhão por uma semana para ~acessar a internet em alta velocidade~.

Cinco anos depois da Campus Babes, a presença feminina na CPBR, em números absolutos, aumentou bastante, assim como também aumentou o número de participantes do evento. Enquanto em 2008 o evento era fechado para no máximo 3 mil campuseiros, a edição de 2015 reuniu mais de 8 mil pessoas acampadas no SP Expo, quase triplicando o tamanho que o evento tinha quando acontecia na Bienal do Ibirapuera.

Naquela primeira edição brasileira, as moças eram pouco mais de 300, e em 2010 chegaram a 1500. Neste ano, o total de mulheres campuseiras chegou a 2.000, mas a parcela de presença continuou a mesma de 2010: 25%.

Isso me levou a questionar por que as meninas não estavam fazendo parte da maior festa da internet brasileira. Será que elas não se interessavam pelos assuntos de tecnologia, ciência e comunicação digital? Ou simplesmente não se sentiam bem vindas? Será que elas não se sentiam representadas naquele ambiente, e preferiam fugir de um espaço tão masculino?

Em 2012 a CPBR já discutia a necessidade de uma maior diversidade de gêneros. Na 5a edição da Campus, Adriana Gascoigne, do Girls in Tech, abordou esse tema em sua palestra. Na época, ela era uma das apenas 3 mulheres entre os 20 palestrantes que chegaram ao principal palco da CPBR5.

Neste ano, em sua 8a edição, a discussão sobre gêneros e sexismo na Campus foi ainda mais intensa.

Tive a oportunidade de conversar com Camila Achutti, do TechnovationChallenge, e a experiência dela talvez dê alguma luz sobre a dificuldade das moças em se inserirem em contextos de tecnologia e ciência.

Sendo a única formanda do curso de ciência da computação da turma de 2013 na USP, Camila se diz realizada profissionalmente ao participar de projetos de empoderamento feminino. Ela costuma palestrar sobre a importância da presença feminina no setor de tecnologia. Muitas garotas a procuram em busca de apoio - querem estudar algum ramo de ciência ou tecnologia, mas não se sentem confortáveis para isso. "Elas me dizem que a família pressiona, dizendo que 'computação não é coisa de menina', e como elas não conhecem nenhuma mulher na área, acabam se convencendo de que a família tem razão", conta Camila. Ela se tornou uma espécie de mentora para essas garotas que se interessam por assuntos de tecnologia e ciência, mas que precisam de um empurrãozinho para seguir na área.

"Em São Francisco, nos EUA, a admissão de mulheres em cursos de tecnologia ainda é muito baixa. E esses números tendem a continuar assim enquanto as mulheres não buscarem a academia", conta Ana Paula Passarelli, do Plano Feminino, sobre uma visita que ela fez à universidades da Califórnia. "As mulheres precisam se interessar mais por tecnologia e inovação. Algumas empresas no Vale do Silício oferecem formação para as meninas enquanto elas ainda são adolescentes, talvez isso possa acabar refletindo no mercado local, no futuro", pondera ela.

Giovana Penatti, contudo, lembra que esse interesse não é de responsabilidade apenas das mulheres, mas também de quem está ao redor delas. "Acredito que o desinteresse por tech e ciência é muito mais uma questão cultural construída ao longo dos anos de vida de uma garota", provoca ela, que foi jornalista de tecnologia por quase meia década.

Particularmente, concordo que o desinteresse é resultado de anos de portas fechadas, mas é preciso que pouco a pouco nós nos esmeremos em abrir mais portas, ao invés de mantê-las trancadas. Paulo H. Alkmin, que trabalha no setor de TI há mais de dez anos, ressaltou um fato curioso e bastante irônico da última edição da Campus Party Brasil.

Na área de games, houve um horário da programação especialmente reservado para um debate sobre sexismo nos jogos, com a presença de jornalistas como Henrique Sampaio, Fernanda Pineda e a gerente de marketing de games Julia Basseto. No entanto, no dia seguinte, o mesmo palco recebeu um debate sobre o jornalismo de games e... e todos os convidados eram homens. Nem uma mulher estava presente para representar a parcela feminina das jornalistas de games (!)

Será que os curadores da CPBR não atentaram para esse ~detalhe~? Bom, talvez a proporção de curadores explique essa 'falha'. Dentre os 20 curadores oficiais da CPBR8, listados no site do evento, apenas uma mulher: Bia Granja, cujo foco era mais voltado para a área de criatividade.

"Eu conferi a agenda completa de todos os anos da CPBR e posso afirmar que em 2015 houveram mais debates sobre a questão da mulher e o mundo techie do que em todas as edições anteriores, inclusive entre os magistrais", enfatiza Bia. Eu fiz um levantamento dos magistrais e a informação dela realmente bate com a realidade - veja no gráfico abaixo.

"Acho que o baixo número de mulheres na CPBR se deve ao ambiente ainda inóspito", especula Bia. Essa inospitalidade tem mudado um pouco com o passar dos anos, mas está longe de ser a ideal.

Na última CPBR, deu para perceber que os patrocinadores tiveram o cuidado de não objetificar as mulheres, como acontecia nas primeiras Campus Party brasileiras. Uma evolução e tanto, se compararmos com a época em que a Playboy colocava moças de colant, orelhas e rabinho de coelho circulando pelo pavilhão. Ou seja, o evento está mudando para melhor sim, mas a passos bem lentos.

O importante é manter essa preocupação de convidar mais moças, de incentivá-las a se engajarem com o conteúdo, a fazerem perguntas, a se enturmarem e se expressarem sobre o que se interessam. Oferecer apoio para aquelas que sofrem algum tipo de pressão ou retaliação, e espaço para as que se dispuserem a aparecer em público também é uma ótima forma de empoderar o público feminino.

O que eu realmente espero é que devagar e sempre possamos aumentar a presença feminina nas palestras, tanto no palco principal quanto nos palcos adjacentes, na salinha de imprensa, nos debates e no acampamento.

Quanto mais diversos forem os grupos, mais valiosos serão os resultados, como já demonstrou Sheryl Sandberg em uma série de artigos no The New York Times.

Que em 2016 as moças também possam fazer a festa na Campus Party Brasil.

Esse post foi originalmente publicado no Plano Feminino.