OPINIÃO
06/05/2016 18:20 -03 | Atualizado 13/05/2019 12:11 -03

Ser mãe é querer salvar o mundo

Ser mãe é querer salvar o mundo, sentir-se impotente quando você vê imagens de crianças tomando água suja e vivendo em campos de refugiados. Mas esquecer, pressionada pelas exigências de seu cotidiano.

IMGORTHAND VIA GETTY IMAGES

Fui recentemente ao chá de bebê de um velho amigo cuja mulher jovem está grávida do primeiro filho deles. Sentada à mesa com suas amigas da faculdade, todas apenas iniciando suas vidas de casadas ou começando a ter filhos, a esposa jovem ficou espantada quando soube que eu tenho quatro filhos. "Nem consigo imaginar como é ser mãe", ela disse às suas amigas, brincando, e então se voltou a mim para perguntar: "Como é realmente? Como é ser mãe?"

"É maravilhoso", respondi. "É duro, mas compensador demais." Ela sorriu, satisfeita com a resposta, e então voltou sua atenção aos minimuffins sobre a mesa. Mas na realidade eu nem tinha respondido à pergunta dela. Mal tinha arranhado a superfície. Quando ela se voltou para o outro lado, fiquei pensando na resposta verdadeira, aquela que eu daria se houvesse tempo e palavras suficientes para dizer como é realmente ser mãe. Veja:

Ser mãe é sentir eternamente que você não está dando o suficiente, mas que você não consegue dar mais. É passar todo seu tempo e energia cuidando de outra pessoa, ficar alimentando, cuidando e levando à escola eternamente, apenas para sentir-se culpada pelas coisas que não está fazendo.

Ser mãe é ficar agoniada com as opções. É passar horas escolhendo uma mochila escolar, decidindo qual misto de ervilhas e cenouras é o melhor, qual aula de musicalização infantil será a mais bacana. É ficar mal se a maçã que você dá a seu filho não é orgânica ou o xampu dele não é totalmente natural.

É ir a três supermercados diferentes para encontrar os nuggets de franco no formato de dinossauros, porque deixar seus filhos felizes é o mais importante.

Ser mãe é ter consciência da pobreza absurda que existe no mundo, mas mesmo assim sentir-se culpada porque a cor de tênis que seu filho deseja não vem no tamanho dele. É perceber o quanto seus filhos têm, mas querer lhes dar mais. É ficar triste com as coisas que você não consegue lhes dar, apesar de eles não precisarem dessas coisas.

Ser mãe é sentir o sofrimento de outra mãe. Antes de ter filhos, eu ficava triste quando ouvia falar de uma mãe cujo filho estava muito doente. Hoje, porém, isso é insuportável. Sinto a dor da outra mãe em meu próprio corpo. Choro por ela e carrego a dor dela comigo. Deixo minha cabeça vagar por um instante para o pior lugar possível e imagino como seria se fosse meu filho naquela situação, em vez do dela. E me sinto péssima.

Ser mãe é aprender a sentir respeito tremendo pelos pais de filhos com necessidades especiais. É conviver com o medo do câncer infantil, de doenças raras, de alergias alimentares agudas - um medo soterrado em algum lugar dentro de você, mas que nunca desaparece.

Ser mãe é ter a experiência surreal de olhar nos olhos de seu filho e enxergar os seus. De reviver a infância através dele. De redescobrir como você gostava de contos de fadas e Superman, de lembrar do gostinho do chiclete Hello Kitty.

Ser mãe é voar e cair ao chão com as vitórias e derrotas de seus filhos. É pular e gritar com cada bola que eles acertam na rede, cada gol marcado.

Ser mãe é entender o que seus pais significaram. Algo que magoa seu filho realmente fere você mais que a ele.

Você pode ficar realmente furiosa com seu filho, mas ainda assim, quando ele perguntar, você responde "é claro que ainda amo você".

Seu filho sempre vai continuar a ser seu bebê, mesmo quando ele for grande.

Ser mãe é querer salvar o mundo, sentir-se impotente quando você vê imagens de crianças tomando água suja e vivendo em campos de refugiados. Mas esquecer, pressionada pelas exigências de seu cotidiano.

Ser mãe é sentir necessidade enorme de um tempinho para ficar a sós, mas morrer de saudade de seus filhos quando não estão do seu lado. É sair com suas amigas e vocês todas só falam de seus filhos. Você pode estar num bar, usando salto alto e roupa preta elegante, mas, sendo mãe, você fala de como seus filhos estão aprendendo a ficar sem fraldas. Ser mãe é mostrar fotos de seus filhos a desconhecidos, mesmo que antigamente você achasse uma chatice as pessoas que faziam isso.

Ser mãe é questionar seu ceticismo em relação à vida após a morte, porque a ideia de passar a eternidade sem seu filho é insuportável.

Ser mãe é ficar frustrada com as coisas pequenas, gritar algo demais, falar palavras negativas e depois se arrepender demais. É entender que você é capaz de funcionar depois de dormir só algumas horinhas, comer um lanchinho qualquer no almoço e tomar uma chuveirada em três minutos. Ser mãe é esforçar-se por fazer a coisa certa, mesmo quando não existe um jeito certo de fazer.

E ser mãe é entender, finalmente, aquele amor de que as pessoas falam -aquele amor abrangente, absoluto por seu filho, algo para o qual nada poderia tê-la preparado e com que nada se compara.

Mas a verdade é que eu não poderia ter respondido àquela moça como é ser mãe, porque a resposta é diferente para cada pessoa.

A experiência da maternidade é singular, diferente para cada mulher.

Então, se ela me perguntar de novo, ainda responderei apenas: "É maravilhoso".

E espero que algum dia ela tenha a sorte de descobrir a resposta verdadeira, ela mesma.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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