OPINIÃO
15/05/2014 14:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Para quem você vai virar sua cadeira?

Ao final de qualquer um desses concursos, algumas perguntas pairam sobre o vencedor: o que o público realmente espera desse artista? Ou ainda: o público, afinal, sabe o que quer?

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THE VOICE -- 'Live Show' Episode 620B -- Pictured: (l-r) Adam Levine, Shakira, Usher, Blake Shelton -- (Photo by: Trae Patton/NBC/NBCU Photo Bank via Getty Images)

Como apaixonada por televisão e por música, acredito que a versão americana do reality show se faz quase completa por trazer fidelidade à sua proposta, com jurados competentes para trazer comentários pertinentes e, sobretudo, de presença relevante na música da década presente, lhes oferecendo o suporte necessário sem medo de críticas ou julgamentos. Tá certo que nunca precisei de muito, já que, em se tratando de concursos musicais, até os concursos de calouro do Raul Gil têm a minha atenção. Mas sempre, ao final de qualquer um desses concursos, até mesmo o The Voice US, algumas perguntas pairam sobre a aura do vencedor: o que o público realmente espera desse artista? O público quer que ele seja um simulacro dos sucessos que ele interpretou ou uma novidade? Ou ainda: o público, afinal, sabe o que quer?

Dias atrás vi Sam Alves, vencedor da segunda edição brasileira do The Voice, se apresentar no Programa do Jô com uma versão bem inferior de "When I Was Your Man", de Bruno Mars. Pesquisando sobre o que se tornou a carreira do menino desde que ele saiu de lá com todos os louros, vi que seu álbum de estreia é repleto disso: covers. Nenhuma orientação para que o cara pegasse todo aquele pop e transformasse em algo novo. Nada. Um artista enlatado que vai cair no ostracismo sem, de fato, ter saído de lá com força.

A vencedora da edição anterior, Ellen Oléria, apareceu ao programa já com uma bagagem maior que foi levada para a sua carreira pós-programa, com músicas próprias e personalidade musical definida. Mas, no fim das contas, o programa nada mais fez do que ressaltar essa tal personalidade. Foi um acerto. Um acerto que não foi celebrado nem mesmo pela emissora, que pouco investe na carreira desses artistas dentro da grade. Não era ela que deveria dar visibilidade? O ápice do mainstream não é tocar no programa do Faustão?

Acredito que não são todas as pessoas que, de fato, se concentram em música ultimamente. Os artistas que nós, jornalistas musicais, gostamos, muitas vezes são absorvidos apenas por um grupo seleto, enquanto o grande público foca nos medalhões. Talvez seja o excesso de informação, talvez a facilidade para consumir uma música e descartá-la logo depois, mas o mundo da música se encontra em uma situação complicada que, os reality shows musicais, com sua capacidade de prender a atenção do espectador, deveriam ressaltar.

O método utilizado pelo The Voice de apresentar seus artistas cantando músicas conhecidas é válido quando a música é trabalhada de forma a valorizar também o que aquele artista tem a oferecer para o público. Os técnicos da versão americana se mostram, em parte, preparados para isso. O mesmo quase nunca ocorre na versão brasileira. Em ambas as versões, o defeito máximo: o grito fala mais alto. Bonito de se ver em alguns casos (Sisaundra Lewis, eliminada injustamente da 6ª temporada do americano, é um espasmo bom), exageradamente trabalhado em outros. E tem os rostinhos bonitos. Com os rostinhos bonitos, o público acostumado com fanbases e famílias. Com isso, a vitória de um artista incompleto como Sam, algo que não ocorreria nem mesmo no show de calouros do Raul Gil.

Uma das coisas que mais incomodam no The Voice Brasil é que os técnicos se colocam nos seus lugares de celebridades. Como se fosse o máximo ser treinado pela "Claudia Leitte, maravilhosa, diva do axé" do que pela "Claudia Leitte, técnica vocal". E este fator traz uma visão errônea sobre o que, realmente, é o programa.

A versão americana não é perfeita, mas me parece um modelo mais aceitável. O The Voice é fenômeno no mundo todo porque nunca um programa de novos talentos foi tão completo. Mas o público, fator decisivo na hora de escolher quem fica e quem sai, também precisa ser cativado, nessa mesma capacidade de prender a atenção do espectador, para que a música fale mais alto. Você vai virar sua cadeira para quem?