OPINIÃO
12/06/2014 10:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Noventa minutos

Talvez essa coletividade seja a melhor carta da manga do esporte. Ninguém pode explicar como, ao passar dos anos, nos tornamos a ser assim, mas arrepia. Inebria. Fazer parte de algo que todos fazem parte.

NILTON FUKUDA/ESTADÃO CONTEÚDO

É quando a televisão ligada se pinta das cores da bandeira que, por noventa minutos, nada mais é tão interessante, tão estimulante quanto vinte e duas pernas lutando contra vinte e duas outras por uma mísera bola, que deve encontrar, assim, o lugar certo para arrancar os mais primitivos berros de quem se dispôs a ficar ali, na frente daquela tal televisão.

O futebol, o esporte em si, é uma alegria que não discrimina, que não divide, que não subtrai ninguém, mesmo que uns e outros tentem colocar certas barreiras nesta tal alegria. Para tudo, dá-se um jeito. Portanto, não faltam maneiras de sintonizar esse romance em um só lugar, canalizando sonhos ou apenas a necessidade de escapar de qualquer outro problema para despejar todos os desejos em um, que é coletivo.

Talvez essa coletividade seja a melhor carta da manga do esporte. Ninguém pode explicar como, ao passar dos anos, nos tornamos a ser assim, mas arrepia. Inebria. Sentimentos positivos dos quais ninguém deveria abdicar. Fazer parte de algo que todos fazem parte. É verdade: é quando somos um só.

Um gol é como música, seja ele meio Beatles ou Rolling Stones, arquitetado por um passe de Michelangelo ou de Duchamp. E a vitória? Uma vitória é um amor correspondido digno de estampar o final da novela das oito. O torcedor tem na seleção a sua musa. Uma espécie de amor platônico e tonto que conquista o mundo a qualquer sinal de retribuição mínima.

Tem gente que pode fingir que não, mas todas essas cores também estão em nós. Um país que nos construiu enquanto nós. Seja lá quais forem as nossas inquietações. Estampado não só em campo, mas em cada centímetro da nossa existência. Sejamos contra ou a favor do Mundial, como podemos querer criminalizar uma tradição tão enraizada?

É por aquele momento após o apito, no qual a televisão é ignorada e esquecida para dar lugar às comemorações e às buzinas que devemos ansiar nos próximos dias. A felicidade é tão rara que, quando se experimenta de uma alta dose desta, chega a ser enlouquecedor. Poucas coisas nos trarão um sentimento bom em tanta intensidade.

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