OPINIÃO
13/05/2014 11:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Levantando a bandeira contra o machismo no futebol

O resultado da partida parecia nem ser tão importante. O erro de Fernanda Colombo gerou a ira da diretoria cruzeirense que não poupou comentários extremamente machistas e desrespeitosos.

DOUGLAS MAGNO/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO

Geralmente na segunda-feira, procuramos nas manchetes dos jornais e dos sites de notícias informações de como foi a rodada do futebol no final de semana. Os resultados das partidas e a crônica do jogo seriam o esperado pelo leitor.

No entanto, nessa segunda-feira, 12/05, a assistente Fernanda Colombo, aspirante Fifa, que atuou no clássico mineiro Atlético e Cruzeiro foi o alvo de todas as atenções. A catarinense, aos 23 anos, apareceu em galerias de fotos, sendo clicada em todos os seus movimentos.

O resultado da partida parecia nem ser tão importante. Apesar disso, o erro de Fernanda Colombo ao assinalar um impedimento de Allison que, partindo de uma posição legal, ia entrando livre na frente do gol atleticano, gerou a ira da diretoria cruzeirense que não poupou comentários extremamente machistas e desrespeitosos.

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Alexandre Mattos, diretor de futebol do Cruzeiro disparou para quem quisesse ouvir a infeliz declaração: "Se é bonitinha, que vá posar para a Playboy, não trabalhar com futebol". No meio da semana passada, Muricy Ramalho, técnico do São Paulo, já havia comentado sobre a beleza da moça: "É bonita mesmo, mas tem de bandeirar melhor". A torcida atleticana, também deu a sua contribuição ao entoar gritos de "gostosa! gostosa!".

Todos esses comentários ofendem, não somente Fernanda Colombo, mas todas as mulheres envolvidas no espetáculo (jogadoras, jornalistas, gandulas, torcedoras...). No Brasil há uma insistência em desqualificar o trabalho da mulher no futebol. Galerias de foto destacando a roupa íntima da assistente reafirmam o estereótipo que o homem faz das mulheres no futebol: musas e objetos de desejo dos machões desse esporte.

Será que todos esses homens envolvidos no futebol tratariam da mesma forma suas esposas, filhas e mães? A discussão deveria ser sobre os constantes erros da arbitragem brasileira, que já passou da hora de ser profissionalizada. Independente de gênero. A cada partida, árbitros e assistentes falham, e o alarde não toma tantas proporções. Pesa o fato do erro ser cometido por uma mulher.

Inclusive os jornalistas esportivos deveriam escutar as asneiras que andam soltando nos microfones. Devido ao meu trabalho, estive no Estádio Independência no último domingo, para entrevistar a assistente, pois estou produzindo exatamente uma reportagem para TV sobre o machismo no futebol. Por coincidência a escala de arbitragem do clássico tinha uma mulher.

Poderia ser Fernanda, Mariana, Juliana, tanto faz. A entrevista foi realizada antes da partida, sob olhares de jornalistas que pareciam bem interessados e curiosos em analisar se a bandeirinha era realmente "boa".

Um deles, já estava com um texto pronto para agredir a assistente, sem mesmo ela ter pisado no gramado. Ao afirmar que é "a bandeirinha bonitinha" já estava virando celebridade e dando entrevista para a televisão. Deveria ter se informado antes sobre o conteúdo da pauta. De forma indelicada me pediu esclarecimentos sobre a entrevista. Ao vivo eu expliquei: Estou produzindo uma reportagem sobre o machismo no futebol, e hoje temos uma mulher no trio de arbitragem. Se é bonita não importa, estamos discutindo o preconceito contra a mulher que reina nesse esporte. Decepcionado, ele virou as costas e continuou bradando ao microfone.

O presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, Antonio Pereira da Silva, deve afastar Fernanda Colombo, por um tempo. Deveriam também punir o assistente que validou o gol do Gabriel, do Santos, contra o Criciúma, em impedimento. E o bandeira que não viu o jogador Lúcio, do Palmeiras impedido, marcar contra o Goiás. Alguém sabe ao menos o nome deles?