OPINIÃO
20/02/2014 15:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Sequestrada pelo sono

Quando eu era criança, demorava horas para adormecer porque tinha medo de morrer dormindo. Resistia bravamente, desesperada, até ser finalmente seqüestrada pelo sono -- era assim que me sentia, seqüestrada, roubada da certeza de estar viva. Ao acordar no dia seguinte, pensava: ainda estou aqui. E agradecia silenciosamente a sorte de ter sobrevivido mais uma noite. Não me lembrava dos sonhos, achava que não sonhava. Eu adormecia e despertava, as horas que se passavam entre um momento e outro não existiam. Confesso que até hoje sinto um rastro do pânico infantil, ainda me sinto (um pouco) seqüestrada pelo sono. Cair no sono é cair na escuridão e na loucura da minha cabeça, na terra de ninguém que é o meu inconsciente, e acho que nunca estarei preparada para os encontros que me esperam por lá. Mas depois de um tempo comecei a sonhar, ou passei a lembrar dos sonhos, e comecei a colecioná-los com carinho. Uma prova das horas que se passaram, encontros fortuitos com pedaços de mim mesma, pequenas aventuras para recriar ao despertar.

***

Essa noite eu estava num carro, sentada no banco de trás. J estava dirigindo. No sinal, um carro encostou do nosso lado e abaixou o vidro do carona. Queria nos assaltar. J mentiu, disse que não tínhamos nada. O assaltante se irritou e atirou. Mas sua arma era diferente -- em vez de uma só bala, ela atirava várias balas minúsculas de uma vez -- como uma chuva de bolinhas de chumbo. O assaltante atirou três vezes. Fui levada para o hospital. Sentia dor, mas não muita. Sei que estou sonhando. Estava sangrando, mas os médicos não conseguiam descobrir de onde vinha o sangue, não sabiam que eu tinha sido baleada.

Caminhando na lagoa. C passa por mim. Uma velha mendiga se aproxima. Ela me diz alguma coisa que mal escuto e não entendo. Mostra que segura uma faca e corta o braço de C, que grita de dor. Eles trocam algumas palavras -- não escuto. Ela insiste e ele resiste. C pega a faca e hesita, não sabe o que fazer com ela. Num movimento preciso, C segura a ponta da faca e rasga o olho da velha. Viro as costas e sigo em frente. Quero muito chegar em casa e sei que estou perto. Ando até chegar ao fim da rua. Perdi a entrada de casa sem perceber. Não reconheci minha casa. Faço o caminho de volta. Paro em frente a um portão por alguns instantes e entro. Um porteiro me recebe e me dá uma chave. Um moça aparece e me acompanha -- subimos um lance de escadas de madeira até chegarmos a uma porta. Ela afasta uma cortina e some. Pergunto "mas onde estão as minhas coisas?" Ela aponta para um armário e abre a porta. Estamos num chalé -- amplo, com enormes janelas. Lembro que faz sol hoje. Sento no sofá. A moça senta do meu lado. Fala comigo como se me conhecesse. "Você sempre pensa o pior", diz. Concordo com ela e faço que sim com a cabeça. Vejo cabanas brancas em cima de palafitas de bambu.

Todas as luzes de casa estão acesas. O vento faz barulho. Um pote vermelho. Leite escorrendo. Formigas afogadas. Corro por causa de uma foto 3x4. Fecho os olhos e não respiro.

Alguém tira uma foto e de repente estamos o tempo todo diante de enganos. Percebo que a saudade nada mais é do que um rastro invisível de alguma coisa que sumiu da frente dos meus olhos.