OPINIÃO
09/01/2019 13:20 -02 | Atualizado 09/01/2019 14:48 -02

Bolsonaro já superou Trump no uso irresponsável do Twitter

Barreira parecia intransponível, mas nem o americano foi capaz de tanto.

ASSOCIATED PRESS

Se tem uma coisa em que Jair Bolsonaro já superou seu ídolo Donald Trump com apenas uma semana de governo é no uso irresponsável do Twitter como presidente. Uma marca realmente admirável.

O mundo se espantou quando, no início de 2017, Trump começou a usar sua conta pessoal no Twitter para "despachar", antecipando decisões nem sempre fechadas com todos os órgãos envolvidos no tema em questão ou gerando atritos internacionais com declarações irresponsáveis.

Desde as primeiras horas da manhã, Trump tuitava ataques a outros países, a jornalistas específicos e à imprensa em geral, além de exaltar suas decisões e discursos.

Mas aí você, leitor, se pergunta: como Bolsonaro pode ter superado tudo isso em apenas uma semana de governo? Simples: compartilhando da forma mais irresponsável perfis falsos no Twitter, que imitam perfis de jornais e jornalistas para divulgar notícias falsas. Em muitos deles, é preciso olhar com atenção para perceber a diferença no layout e no nome do perfil para identificar que não se trata do perfil verdadeiro. Coisa que, convenhamos, não é todo internauta que faz.

A última retuitada sem freio foi na terça (8), quando ele compartilhou uma postagem do perfil "Falha de S.Paulo" (@folha_sp). Mas há uma coleção de retuítes inconsequentes. No último dia 5, ele compartilhou o perfil "Trolha de S. Paulo" e o perfil "Reginaldo Azedo" (um fake do jornalista Reinaldo Azevedo). No dia anterior, o fake escolhido foi o "Estabão - Paródia".

Reprodução
Retuíte de Bolsonaro de perfil fake

No meio deles, há ainda um retuíte que ridiculariza a preocupação com os perfis falsos: "Vamos dar boa vindas aos temidos perfis de paródia (sic). Entraram no seleto grupo que 'ameaça a democracia' ao lado da tia da igreja, tiozão do churrasco, zap-zap, piadas e feique news".

No período em que fui correspondente em Washington, tinha o alerta dos tuítes do Trump ligado no meu celular. Não vi uma vez o presidente americano retuitar perfis sabidamente falsos como se fossem verdade. Até recomendou sites e canais de TV de viés mais conservador e, algumas vezes, de conteúdo duvidoso. Mas nesse quesito, aparentemente, Bolsonaro é vencedor.

O mérito, em grande parte, vai para Carlos Bolsonaro, o filho raivoso e zoeirão do presidente que também é vereador no Rio. O "pitbull" da família, que alimenta diariamente o seu próprio perfil com ataques contra jornalistas, era oficialmente o responsável por atualizar a conta do pai até o fim de novembro, quando anunciou que não tinha mais, "por iniciativa própria, qualquer ascensão às redes sociais de Jair Bolsonaro".

A linguagem, no entanto, e o tipo de postagem seguem o estilo imposto por Carlos - que, especula-se, ainda tenha influência sobre o perfil do pai.

Um decreto publicado e em vigor desde 2 de janeiro determina que as contas pessoais das mídias sociais do presidente devem ser administradas pela Assessoria Especial do Presidente da República. Se as novas regras estão sendo aplicadas como deveriam, temos mais um motivo de preocupação, porque o modus operandi já se espalhou pelo Planalto.

"Ah, mas é só brincadeira". "É paródia". "Falta senso de humor pra vocês". "A internet é assim mesmo".

Explique então para a tia da igreja e o tiozão do churrasco, que não entendem a diferença entre a paródia e a notícia real. Que não conseguem identificar que o nome do perfil tem um "a" no lugar do "o". E que é tudo uma brincadeira.

Quando todo mundo perder de vez o pudor e entrar no jogo baixo, talvez a brincadeira comece a perder a graça pra quem hoje minimiza o impacto de uma notícia falsa.