OPINIÃO
29/10/2018 16:21 -03 | Atualizado 10/01/2019 18:17 -02

Aceno democrático de Bolsonaro pós-eleição precisará ser constante

50,1% dos eleitores não votaram no presidente eleito; Ele terá que governar para todos

Reuters

Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito com 57,79 milhões de votos. O número de brasileiros que o escolheu, ante Fernando Haddad (PT), é maior do que o que quis Dilma Rousseff no poder em 2010 ou sua reeleição em 2014.

Em proporção ao universo de todos os que votaram, os eleitores de Bolsonaro também são mais numerosos que os de Dilma na última eleição: ele teve 55,13% dos votos válidos, a ex-presidente, 51,64%.

Os números, num processo eleitoral cuja lisura o vencedor não se preocupou em seguir colocando em dúvida após a vitória, são a evidência inquestionável de que Bolsonaro foi a escolha democrática dos brasileiros para os próximos quatro anos.

No entanto, é preciso ter em conta uma outra mensagem, igualmente importante, que as urnas enviaram: Bolsonaro teve ao seu lado menos da metade do total de eleitores que saíram de suas casas no último domingo para votar. Quase 10% deles anularam ou optaram pelo voto em branco —o maior índice em 20 anos.

Isso significa que, no total de eleitores presentes às urnas, 50,1% não votaram no capitão reformado do Exército. Muitos optaram pelo nulo como voto de protesto frente às duas opções com altos índices de rejeição.

Isso nem de longe põe em xeque sua legitimidade como presidente eleito, mas escancara a verdade que, desde o início, deveria ter sido de fácil compreensão: ele precisará, ao longo de todo o mandato, governar para todos.

Na noite de domingo, após eleito, Bolsonaro afirmou que vai pacificar e unir o país, "sem essa história de eles contra nós". Uma semana antes, contudo, em discurso a manifestantes que ocupavam a Avenida Paulista, em São Paulo, ele prometeu "banir os marginais vermelhos" do país, sugerindo o exílio ou a prisão para opositores que não se colocarem "sob a lei de todos nós".

Antes do primeiro turno, ele já havia conclamado, em comício, que seus apoiadores "fuzilassem a petralhada" no Acre. Nos dias que se seguiram, sua assessoria disse se tratar de mais uma "brincadeira" do candidato.

Só que agora, mais do que nunca, não pode haver espaço para esse tipo de "brincadeira".

Assim como Bolsonaro, como presidente eleito, não pode mais lavar as mãos sobre casos de violência com motivação política após incendiar a campanha com declarações de "eles contra nós". É preciso que condene tais atos duramente, exija a apuração dos fatos, e, principalmente, que os desestimule de forma clara.

Também não é aceitável que, agora eleito presidente, se silencie sobre casos como o assassinato de uma vereadora do espectro político oposto porque sua declaração seria "polêmica demais". Ou que não condene energicamente eventuais episódios de violência contra integrantes de minorias.

A declaração sobre a defesa da democracia e da Constituição feita logo após sua eleição, no domingo, era mais do que necessária diante de tantas outras dadas ao longo da campanha e de sua carreira - e recentemente por seu vice, general Mourão, e seu filho Eduardo, deputado reeleito - que atentam contra as duas.

O que se espera é que esse compromisso seja reiterado quantas vezes for necessário, e se expresse não só em palavras, mas em atos.

Neste ponto, a preservação do livre exercício da imprensa é fundamental. Bolsonaro já declarou que não irá censurar o trabalho dos jornalistas, o que é esperado de um presidente democraticamente eleito.

Mas não se trata apenas disso. Sua retórica inflamada contra veículos que apresentam o contraditório -- algo que, é preciso ressaltar, teve início com o ex-presidente Lula -- é claramente interpretada por parte de seus eleitores como carta branca a ataques e ameaças a jornalistas.

É imperativo que o presidente eleito entenda a barreira que não pode cruzar aqui e também deixe claro isso a seus apoiadores. Com imprensa sob ameaça, a democracia inexiste.

Respeito aos eleitores, a todos os eleitores

Os eleitores de Bolsonaro foram às urnas motivados por diversas razões. Uma grande maioria votou cansada dos escândalos de corrupção e esperançosa de que, com o deputado, que não teve o nome respingado pela Lava Jato, tudo pode ser diferente.

Um outro grupo, cuja intersecção com o primeiro é quase total, votou contra o PT, partido cujo DNA foi manchado por esquemas de corrupção revelados nos últimos anos e cuja principal liderança, o ex-presidente Lula, foi condenado e preso (e ainda assim insistiu em se candidatar novamente ao Planalto).

Há grupos que votaram em Bolsonaro com medo da ameaça comunista e muitos que veem nele a solução para o grave problema da segurança pública. Parte de seu eleitorado não queria ver o País cometer os mesmos erros que nos levaram a uma grave crise econômica, mas há também aqueles que temem o que se batizou de "ideologia de gênero" nas escolas.

Todos exerceram seu direito de voto, democraticamente, e devem ser reconhecidos também pela oposição.

A principal responsabilidade, porém, é de Bolsonaro e seu entorno, que devem não só honrar os seus 57,79 milhões de votos, mas, principalmente, respeitar os 58,13 milhões que eles não receberam.