OPINIÃO
30/03/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Uma longa viagem

Escrever este texto é tão importante quanto difícil, exatamente pelas mesma razões: porque tanto tempo já se passou, e tantas coisas mudaram, até em nossas vidas pessoais, e porque aqueles tempos foram tão duros e tão mal compreendidos.

Para Marcos Arruda e Marco Antônio Meyer, pela coragem.

Para Ione, Raul e Fernando, pelas conversas, as frutas e as caronas.

(Prólogo)

Escrever este texto é tão importante quanto difícil, exatamente pelas mesma razões: porque tanto tempo já se passou, e tantas coisas mudaram, até em nossas vidas pessoais, e porque aqueles tempos foram tão duros e tão mal compreendidos. E, principalmente, porque o povo brasileiro, a maioria do povo brasileiro, até hoje não sabe o que foram aqueles tempos, como e por que nós vivemos aqueles tempos, como militantes e como pessoas

Para mim e para meu filho Daniel, foram 15 anos - de 1964 a 1979 - desde o dia em que saí do Rio até nossa volta, depois da anistia. São muitas histórias para contar num espaço muito pequeno, por isso escolho uma viagem, a que nos levou de São Paulo a Santiago do Chile, e que durou 28 dias. Além da passagem que ela representou, e do círculo que ela fechou, abrindo outro, acredito que ela pode mostrar o que vivíamos, silenciosamente, com nossos filhos, sob a repressão da ditadura. Não é uma história de violência e sofrimento físico, como tantos companheiros sofreram: eu fui presa em 66 e nunca fui torturada.

Também não é uma história de agonia, derrota e morte, e sim o contrário: nossas vidas foram o prêmio pela nossa vitória, pois essa viagem teve um final feliz.

Durante aqueles 28 dias, assim como em todo o meu tempo de militância, mesmo quando a guerra estava perdida, eu era uma guerreira, jamais uma vítima. Talvez por haver começado esta militância antes do golpe, eu sabia que cada dia significava um passo numa direção que, a partir de determinado momento, não havia mais volta. Não, eu não tinha consciência do que enfrentaríamos depois de 1969, mas certamente não teria desistido se soubesse. Pois para isso éramos jovens, poetas e loucos, fascinados com uma imagem do que o Brasil poderia - e ainda pode! - ser. A ditadura interpôs-se entre nós e nosso sonho, e cobrou o que quis, porque tinha a força bruta para isso. Eu e tantos outros pagamos o preço pelas ideias e pelas ações que atemorizavam nossos militares e os amigos deles.

É interessante observar que Pinochet está quase morto, mas aquelas ideias estão vivas no mundo inteiro, e acredito que sempre estarão. Neste momento não me refiro a Marx, Lenin, Mao ou Fidel, que representam os caminhos e não os objetivos. Eu me refiro à ideia da justiça, da igualdade entre as pessoas e os povos.

Acredito que a Humanidade quer crescer, material e espiritualmente, quer ver o futuro ser mais bonito, quer ser feliz, como no fim de um filme de Chaplin. O que pensávamos, fazíamos e vivíamos, até nossas mortes, eram os passos milimétricos que algumas pessoas davam, neste país e naquele tempo, no sentido de alcançar esses objetivos.

Eu vivi aquele tempo, o meu tempo, e sinto um imenso orgulho disso.

Sei que fizemos o melhor que podíamos, e isto não era muito, e o preço foi muito alto. No entanto, ninguém quis com tanta força um futuro melhor para o Brasil como aquela geração que, infelizmente, não deixou herdeiros.

Eu viveria tudo de novo, certamente de outras formas. Pelos mesmos objetivos, que parecem mais distantes ainda, assim como as pessoas parecem mais infelizes do que nunca. Apesar da globalização que, dizem, nos salvará...

Trinta anos depois desta viagem, eu agradeço a Deus por estar viva, agradeço aos companheiros e aos amigos, vivos e mortos, que compartiram aqueles tempos comigo, e ao povo brasileiro, que sempre me inspirou por ter as mãos limpas, a coragem para resistir e caminhar e um inexplicável sorriso sempre pronto para saudar a alegria... que virá!

*

Uma longa viagem

Eu acordava sempre muito cedo, ouvia os pássaros e os caminhões, engrenando a marcha para iniciar a subida da Rua Angélica. O silêncio e a chegada da luz traziam sempre uma dose de alegria, de reafirmação da vida, e disso eu me alimentava, escapando, a cada dia, de todas as mortes que me rondavam. Naquelas madrugadas, eu pensava e repensava o que fazer, buscando um caminho que não fosse o da fuga.

Além dos ruídos da rua, eu escutava a respiração de Daniel, 5 anos, meu filho e meu pequeno amigo, companheiro nas casas abandonadas, nas viagens clandestinas e nas fugas. Logo ele também não iria mais querer fugir, quando entendesse que nossas andanças não eram passeios mirabolantes como eu contava, fazendo gestos e ruídos, fantasiando o feio e inventando o bonito para que ele sorrisse, e aquela sombra desaparecesse do seu olhar, que me pedia uma resposta, agudamente. Minhas histórias tinham cachorros, gatos, aviões, sorvetes, os avós, a praia, tudo que nós iríamos encontrar, no fim da viagem, e mais as coisas que eu pudesse contar, sem revelar os lugares para onde iríamos.

Aos poucos, eu aceitava que teríamos que ir para o Chile. Mas eu não queria, tinha saudades do Rio e da casa de meu pai, que simbolizavam uma liberdade há muito tempo inatingível, como se estivessem - minha cidade e minha família - em outro planeta. Além disso, cada viagem clandestina significava mais confissões a fazer à polícia, se nos pegassem, significava mais tempo e mais motivo, mais assunto para as sessões de tortura.

E, acima de tudo, quem - que tivesse vivido e compreendido a essência das ditaduras latino-americanas - acreditaria que o Chile seria, por muito tempo, "el abrigo contra la opresión?" Eu não acreditava, e sabia que, apesar da consciência, da energia, e da maravilhosa experiência que o povo chileno estava atravessando, a esquerda chilena - ou qualquer outra - não seria capaz de sobreviver à oposição insidiosa e violenta da direita em pé de guerra, desde o primeiro momento do governo Allende, cercando o Chile, de dentro e de fora, aquela feroz direita latino-americana, bem nutrida pelas intrigas e pela enxurrada de dinheiro dos americanos. Não era difícil prever o momento em que eles surgiriam diante de nós, de novo: os militares, os dedos-duros e os torturadores.

No entanto... para onde ir? Não tínhamos passaportes legais e não conseguiríamos os falsos, quando quase nada mais restava da nossa organização, nem das bases, nem das direções. Somente os países do Cone Sul não exigiam passaportes, e somente o Chile não era uma ditadura...

A decisão da minha organização, a Ação Popular, era a de que eu saísse já, com o Daniel, e que não contasse com muita ajuda nem apoio para a viagem, não havia mais estrutura para isso. Pedi um documento, os meus já não serviam, e informações sobre os pontos de saída nas fronteiras.

Sozinha e confusa, eu tentava tomar minhas decisões, sabendo que delas dependiam minha vida e a do Daniel. Tudo naquele momento era imenso, maior do que eu: certezas e dúvidas, coragem e medo, razão e emoção, e agora a consciência, fria e espessa como uma névoa que se impunha, transformando a frágil realidade na qual eu e tantos outros havíamos vivido nos últimos anos: nós havíamos perdido aquela batalha. E tudo, toda a energia, os sonhos, o amor e os imensos sacrifícios tinham sido engolidos pela força bruta, pelo poder da violência pura, da crueldade, do assassinato.

Tudo estava errado, e me espantava o silêncio do mundo. Ninguém ouvia, via ou falava nada.

Naquelas madrugadas, eu lembrava os mortos, os que estavam presos, os torturados, os poucos que ainda lutavam. Lembrava nosso trabalho nos bairros operários, os rostos dos companheiros, das companheiras, dos vizinhos, os jovens e os velhos, as crianças! Sorrisos, lágrimas, a dor e a generosidade - até a inacreditável alegria! - da vida dos que não tem nada a perder, e vivem de coragem e dignidade.

Eu sentia, então, uma grande dor no peito, tristeza e raiva, porque ali estavam os dias em que eu vivi pelo que eu acreditava: que a comida de cada um seria melhor se todos comessem, a casa de cada um seria mais alegre se todos tivessem casa, e a vida, a vida seria mais feliz, se todos se sentissem felizes por estar vivos.

Muitos, antes de mim, transformaram estes sentimentos em teorias, programas e discursos, mas, na verdade, eu sentia - e ainda sinto - que justiça, solidariedade, fraternidade, igualdade são, na verdade, os componentes da harmonia de que os indivíduos necessitam mas não podem obter em sociedades tão irracionais, tão feias, tão atrasadas e tão doentes como as nossas - naquele tempo tanto quanto agora.

A certeza da derrota era difícil de aceitar, era o fim de um sonho vivido, durante vários anos, com poucas alegrias e pequenas vitórias, mas com a certeza da coerência. Tudo foi tão grande, e tão pequeno! Mergulháramos tão fundo, nem podíamos mais respirar, e no entanto não havíamos movido sequer a superfície daquele imenso mar... O que restara, para os que ainda estavam vivos? Diante dos meus olhos, eu via o bairro operário, as pessoas caminhando, a estação do trem fervilhando às 6 da manhã, as tardes quietas, as noites curtas e o silêncio dos domingos, quebrado somente por sinos, músicas e gritos de gol. Não, nada havia sido tocado pela nossa presença, e no entanto, como os profetas que anunciam outras vidas, nós tínhamos nas mãos e nas palavras uma verdade brilhante - muito maior que nós mesmos - que era necessária como água para os que nos ouviam e assustadora para a máquina de morte que foi criada para nos "deter", nos matar.

Gastei algum tempo mergulhada nas minhas dúvidas, com medo de ficar, com medo de ir embora. Era o fim de 1971, meu casamento que começou em 1964 havia terminado um ano antes. Minha mãe havia morrido, e eu não pude ir ao enterro porque a polícia estava lá e prenderam meu irmão, que tinha 15 anos. Meu pai, velho comunista, me pedia que não deixasse que "eles" nos matassem.

Querida filha,

recebi sua cartinha. Não se preocupe comigo, vá embora, leve meu neto. Um dia, você volta, eu sei que vocês voltam, porque eles não vão durar eternamente. Foi assim antes, você sabe. Estes aí são piores, mas vão desaparecer também.

Conte comigo, um beijo para você e o Daniel.

Do seu pai e amigo de sempre,

Onélio

Uma certidão de nascimento fria. Dela sairia tudo o mais, inclusive para o Daniel. Eu não queria que ele fosse registrado de novo por nenhum companheiro, que seria preso se nós fôssemos apanhados durante o caminho. O pai dele já havia saído do Brasil, e eu me tornara - de fato - uma orgulhosa mãe solteira.

Decretaram minha prisão preventiva, lá estava meu nome (que é ruim para aprender, e pior para esquecer) com todas as letras, nos jornais. Meu advogado, apesar da coragem (eram poucos, na época!), tinha apenas fiapos da lei em que se apoiar e sabia, como todos, que a justiça terminava quando a polícia ou a Oban chegavam para buscar as confissões. A partir daí, nem as sentenças, nem as defesas, me livrariam da prisão na porta do tribunal, nem do que viria depois.

O dr. João Carlos Dias tinha aquela maravilhosa objetividade paulista, olhava e escutava minha história atentamente, acho que entendeu minha confusão e concordou com meu "plano" desesperado: vou para o Chile, fico lá algum tempo, depois volto para "encarar a situação". Assim ficamos combinados, fizemos que acreditamos no combinado, e eu, tendo salvado o que me restava da liberdade de querer, comecei a preparar nossa ida para o Chile.

Criei a história para contar ao Daniel: uma tia que morava em Buenos Aires, uma estrada enorme, cavalos e emas, carne na brasa, e no final, o pai, os sorvetes, e um cachorro. "Lá também tem muitos soldados, mãe?" "Tem, mas lá eles não nos conhecem." Fiz o Chile parecer-se com a Argentina, os olhos dele estavam contentes, e eu sabia que, apesar das tristezas e dos generais, nós iríamos continuar vivos. Mais difícil era explicar a terceira mudança do meu nome. Mas, se tudo desse certo, no Chile ele iria aprender, pela primeira vez e para sempre, o meu verdadeiro nome.

Paulo Wright trouxe a certidão, não entrou, só teve tempo de me olhar com aqueles olhos claros e mansos, e sorrir meio de lado, com a ironia que todos usávamos para fingir que controlávamos nossa situação:

-- Bom dia, companheira! Está na hora de ensinar ao Daniel seu novo nome e ir embora, depressa! Avise assim que sair de São Paulo. A situação é muito grave. Eu? Não sei quando vou, breve, se possível, há coisas a terminar.

Sorriu de novo, pensei que talvez nunca mais o visse, senti vontade de chorar, mas sorri também:

-- Quando você chegar, vou preparar as almôndegas que você comia lá em casa, em Perdizes, lembra?

Ele enrubesceu como sempre fazia, e me olhou de novo, os olhos alegres.

-- Faça o que for preciso, e vá embora, companheira, e tenha cuidado. Você precisa chegar lá, vai ser bom para o Daniel.

Nunca mais o vi, ele morreu torturado algum tempo depois, é um dos desaparecidos. Paulo Wright, companheiro Antonio, um "alemão" grande, gentil, tímido e teimoso. Quando eu o vi na porta não queria pensar na morte dele, mas senti que ela já estava ali, seguiu com ele, pelo corredor do edifício, como uma sombra.

Com essa certidão, consegui o título de eleitor e a carteira de identidade, falsas mas legais. Fui ao Juizado de Menores registrar Daniel como filho de mãe solteira, e pedi ao juiz, "na falta do pai", uma autorização para que meu filho, sendo menor, saísse do Brasil. Tive que escutar, fazendo cara de boba, o discurso insensível do juiz, numa sala cheia de gente:

-- Vocês mulheres são muito burras, pensam que são Cinderelas, esperar 5 anos para registrar o filho! A senhora poderia ser presa por isso, sabia? Estava esperando o quê? Que seu namorado voltasse para registrar a criança? Que ingenuidade!...

Ele continuava a falar, assinou e empurrou os papéis para mim, com desprezo, o queixo levantado por causa da raiva e dos óculos bifocais.

Saí de lá feliz da vida, e sentindo pena daquele juiz, incapaz de compreender os corações maternos e o romantismo feminino, coisas viscerais que não se resolvem com carimbadas...

Agora faltava apenas a carteira de identidade do Daniel. Para isso, voltamos ao mesmo lugar sinistro, perto do centro de São Paulo, onde tirei minha identidade. Desta vez o Daniel foi junto, para imprimir as digitais, eu sentia muito mais medo, o que eu faria se pegassem meu filho? O prédio tinha um pátio e colunas, ouvi chamarem meu nome falso em voz alta, era difícil caminhar e sorrir, disfarçar o medo, falar:

-- Ele precisa da identidade porque vamos para a Argentina, visitar uma tia, passar o Natal lá...

-- Mas este menino não tem pai? Foi a senhora que registrou?

Meu discurso estava afiado, o homem olhava para mim e para Daniel, buscando uma palavra fora do lugar. Expliquei que eu era mãe solteira, ouvi mais uma piadinhas, carimbadas, e eu dava as costas, agradecendo e sorrindo:

"Agradeça ao moço, meu filho", o coração na boca. Daniel ofereceu um desenho que tinha feito enquanto esperávamos, aquela mão acariciou a cabeça do meu filho. "Minha filha também gosta de desenhar..." É verdade, eles têm filhos. "Boa viagem", "Muito obrigada". Mas não têm, certamente, esses medos.

Saímos, e o sol iluminava a rua, meu vestido claro, as árvores. Tomamos um sorvete, Daniel estava feliz, porque sentia minha alegria. Quietamente, enquanto conversava com ele, dediquei aquele momento, aquele sorvete, e nossos documentos novos ao general Médici.

Os poucos amigos ajudaram, com palavras de coragem, abraços apertados, companhia, dinheiro. Foram poucos dias, atarefados demais para serem tristes, em que falei com todos, chorei as saudades, e pensei em todos os detalhes do caminho, por mais que soubesse que nestas viagens a sorte vale tanto quanto a previsão, e que a própria sorte, imprevisível, é coisa de Deus...

Eu tinha alguma experiência desde 1964, quando viajei para o Uruguai recém-casada por procuração com o Betinho. Voltamos ao Brasil em 65, Daniel nasceu, saímos em 67 por dois meses, voltamos, saímos de novo em 68 para Cuba, e, em todas estas idas e voltas, eu cruzava fronteiras pelo sul, por terra, sempre sozinha. Na última vez, quando desci do ônibus na rodoviária de São Paulo, uma bolsa cheia de livros "proibidos", a primeira imagem que vi foi a foto de Marighella, assassinado na véspera, na primeira página dos jornais. Desde então, eu não havia saído do Brasil.

Agora eu iniciava outra viagem clandestina, mas não encontraria contatos nem apoio pelo caminho, até o Chile. E, como nas outras vezes em que eu vivia aquele estado de alerta, sentia que me movia em dois planos, como se houvesse dois tipos de tensão: um o da realidade mesma, as passagens, as estradas, as fronteiras, os cuidados de qualquer viajante. No outro plano, eu tinha me transformado num bicho, instintivo e intuitivo, ouvindo e vendo tudo, ou melhor, percebendo tudo de uma forma involuntária e aguda. Era como se eu incorporasse a minha personagem, meu nome falso e a história que havia criado, enquanto a minha identidade real saltava para o segundo plano, e observava o que a "outra" fazia, de frente para as pessoas. Assim, minha personagem não gaguejava, porque não sentia medo. E, ao mesmo tempo, estando assim imóvel e oculto, meu eu verdadeiro voava, buscava o que vinha pela frente.

Eu sabia que chegaríamos ao Chile, mas sabia também que seria muito difícil.

Saímos de São Paulo numa excursão, e após vários dias de estrada, paisagens de um Brasil novo para Daniel, chegamos ao nosso destino. Paramos lá durante alguns dias, esperamos a excursão voltar para São Paulo e seguimos adiante, para cruzar a fronteira da Argentina.

Descobri então que não tínhamos - e eu não teria ousado pedir - um carimbo que funcionava como um visto, uma autorização, que a polícia teria que nos fornecer para sairmos. No posto da fronteira, o policial me disse que não ia me deixar passar de maneira nenhuma, que eu nem imaginava o que podia acontecer, com ele e conosco, e que eu tinha que voltar a São Paulo, onde haviam emitido nossas identidades, e pedir a tal autorização.

Fui à delegacia da cidadezinha, no meio de uma rua larga, poeirenta e silenciosa. O delegado acreditou em mim - "Eu não sabia que precisava o visto, é só uma viagem para encontrar a família, não posso voltar a São Paulo, não tenho nem dinheiro para isso, o senhor não pode ligar para São Paulo, dar o número das nossas identidades? Tenho certeza de que eles vão autorizar, nós só queremos fazer uma viagem para encontrar nossa família..."

Ele movia a cabeça devagar mas de uma forma obstinada, repetindo "Não posso, minha senhora", e nos 10 dias em que permaneci nesta cidade e fui, todos os dias, falar com ele, ouvia a mesma coisa, com variações mais ou menos irritadas.

Durante o dia, eu tentava matar o tempo passeando na cidade, lendo histórias e brincando com o Daniel, mas aquele outro eu estava imóvel, e pensava e pensava sem parar, em como sair daquela situação. Eu agia, na verdade, em obediência a esta segunda voz que me levava àquela delegacia todos os dias, e me fazia repetir o meu pedido de ajuda com toda a sincera angústia que minha personagem sentia. Era como se tudo dependesse da nossa presença naquele lugar.

Eu sentia que minha insistência terminaria por nos denunciar, e não conseguia vislumbrar de onde poderia vir nossa salvação, mas em nenhum momento duvidei de que conseguiríamos atravessar. Estava muito, muito cansada, e já não sabia o que dizer ao Daniel. Lembro da rua principal, ela me assustava, era vazia e desprotegida, batida pelo sol e pelo vento.

No décimo dia, o delegado não estava e eu me sentei, com Daniel ao lado, disposta a esperar. Havia também um senhor que trabalhava na delegacia, e quis saber minha história, parecia que por mera curiosidade, mas depois disse: "Aqui é um fim de mundo, e tudo pode acontecer. Nós vemos as pessoas passando e não sabemos quem são, elas sempre contam histórias, como a senhora."

Naquele momento vi um homem alto, botas e chapéu, perto da porta, como se esperasse alguma coisa. Não respondi ao funcionário da delegacia, a sala ficou em silencio, até que ele se levantou e saiu.

Então o homem de chapéu entrou na sala, aproximou-se de nós e disse sem sorrir mas com a voz muito calma: "Qual é o seu hotel, moça? Vá para lá, pegue suas coisas e fique na porta, eu vou levar você e o menino para o outro lado."

Em alguns minutos estávamos dentro de uma caminhonete que atravessou a cidade e uma ponte pequena, sobre um rio que corria no fundo. Passamos o posto da fronteira, ele fez um sinal com a mão, o policial respondeu da mesma forma, sem olhar. Do outro lado havia um pequeno aeroporto, ele parou e disse, sem largar o volante: "Pegue o primeiro avião, não se preocupe com nada. Adeus, menino. Foi uma satisfação, moça".

Nós descemos e eu parei ao lado da porta, tentando agradecer, mas sentindo que não era possível, nem necessário, nem adequado. Dei um passo atrás, o carro foi embora.

Não lembro do rosto nem da voz daquele homem. Na verdade, é como se eu não o tivesse visto, nem ouvido, naqueles minutos em que, contra todas as normas de segurança e com a mais absoluta tranqüilidade, aceitei que um estranho nos conduzisse e nos salvasse.

Um avião nos levou a Buenos Aires. De lá seguimos de ônibus para Mendoza, perto da fronteira com o Chile.

Mas, pela segunda vez, não podíamos seguir adiante:

-- Onde está seu visto, senhora? Sua entrada na Argentina? Se a senhora não entrou, como posso permitir que saia? É absolutamente necessário o visto de entrada, e se não lhe deram o visto na fronteira, a senhora tem que ir buscá-lo em Buenos Aires. Nossas fronteiras estão cheias de comunistas depois que este governo do Allende ganhou no Chile. A senhora pode ser gente boa, mas se eu deixar a senhora passar, ó...

Fez o gesto de cortar a própria garganta, e me deu as costas.

Mendoza era uma linda cidade, no pé da cordilheira. Tinha flores, noites quentes e a presença das enormes montanhas nevadas quase ao alcance da mão. Eu estava ansiosa para partir, subir a montanha e mostrar ao Daniel o lago e os cachorros São Bernardo que guardavam o posto da fronteira em Portillo, lá no alto. Voltar a Buenos Aires parecia um absurdo, mas eu não arriscaria nada naquela fronteira tão vigiada.

Daniel me olhava, perguntava quando chegaríamos, estava tão cansado quanto eu.

"Vamos de avião?"

"Vamos de ônibus, para ver os cavalos e as emas. Vamos amanhã!"

Eu precisava pensar, tomar coragem e a decisão de ir pedir um visto de entrada à Imigração, em Buenos Aires. E se a polícia política estivesse controlando as entradas de Buenos Aires e suspeitasse de nós, pedisse informações aos brasileiros? Como explicar que não tínhamos os vistos, e por onde havíamos entrado?

Viajamos de volta a Buenos Aires, e, sem saber ainda o que fazer, fomos à Imigração. Quando chegou a minha vez, levantei-me sem pensar e falei no meu espanhol mais correto e mais arrogante que eu não compreendia como uma mulher e uma criança cruzam um posto de fronteira e os funcionários argentinos não carimbam nada, e agora eu não posso sair da Argentina, que história é essa, que bagunça, quero falar com quem manda aqui e vai resolver o meu caso, hoje ainda, etc. etc.

O funcionário me olhava e achava graça:

-- Você é brasileira, mas fala bem o espanhol! Onde aprendeu? Não se preocupe, eu lhe dou o visto. Naquela cidade por onde vocês entraram ninguém sabe trabalhar, por isso mesmo estão lá. Só fazem besteira, e a gente aqui tem que consertar. Tome seu visto, bem vinda à Argentina.

Agradeci, gaguejando de espanto e cansaço, Daniel puxou minha roupa, eu lembro de ter olhado para ele, piscado o olho, descemos as escadas correndo, um táxi e um avião, direto para Santiago.

Chegamos em algumas horas, não vimos os cachorros e o lago, mas vimos as montanhas do alto. Eu sentia uma grande calma, como se eu mesma fosse uma delas, e desejei ser: para sempre observando o tempo circular das nossas vidas.

Daniel dormiu, respirava de leve, ainda apertando a minha mão.

*

No fim de 79, depois do golpe no Chile, e do exílio na Suécia e na Inglaterra, voltamos ao Rio e encontramos pessoas que eu não via há 15 anos, meu pai, irmãos, sobrinhos. Algumas o Daniel nem conhecia. Bia, que tinha sido minha babá, me abraçou chorando e me disse que havia rezado muito para que nós voltássemos vivos "e com saúde" e que agora eu devia ir agradecer a proteção que me acompanhou durante todos aqueles anos.

Eu nunca havia pensado que alguém nos protegia. Deus era algo muito distante e muito vago, eu nunca pensava em termos religiosos, desde os tempos de colégio católico, e nunca tinha tido contato com outras religiões. Expliquei isso mas ela insistia, queria que eu fosse conhecer uma pessoa especial.

Numa tarde de verão muito quente fui à roça de candomblé da Mãe Veríssima. Esperamos sentadas em um banco, embaixo de um caramanchão de pequenas rosas trepadeiras. Havia cachos e cachos de rosas perfumadas, e um grande silêncio.

Pouco a pouco, cresceu dentro de mim uma enorme vontade de chorar, como uma onda que eu não podia conter. Chorei por muito tempo, sem sofrimento, sentindo um grande alívio, uma quase alegria. Vi a Mãe Vivi chegar, alta e forte, e, antes que eu me levantasse, ela de longe me perguntou:

"Está chorando, minha filha?"

Concordei com a cabeça, envergonhada, e disse, sem pensar, que ali era tão quieto e tão bom, era como se fosse minha casa.

Então ela se sentou do meu lado e perguntou se eu lembrava de um homem "alto, branco e de chapéu, num lugar longe, com muita água, numa hora de perigo". Sem fôlego, eu lembrei do homem que nos havia levado para o outro lado da fronteira.

Ela sorriu e disse, sem espanto: "Você não acredita, mas eu lhe digo que eles existem, e hoje você chegou na casa do seu pai. Aquele homem era Xangô, o dono da Justiça. Existem doze xangôs, o meu é velho, mas o seu é um menino, Xangô Aganjú. Na igreja dos padres é João Batista".

As verdades da Mãe Vivi eram sempre tão simples e consistentes como as montanhas de pedra que representam Xangô. Ela também guerreava, guardava e protegia aquela herança de conhecimento herdado de tantas gerações, e queria fazer valer aquele passado, de sofrimento e de dor, agora já transformados nos sons e nas cores dos orixás.

E eu tive que acreditar, porque eles surgiam na minha frente, trazidos pela fé e pela música. Eu via, maravilhada, os filhos dos escravos, as faxineiras, os operários e as donas de casa se tornarem deuses e deusas, os rostos de luz e os movimentos soberanos, da água e do fogo, do vento e da paz.

Por muito tempo, aprendi estas outras coerências do nosso - humano - ser vivo. Aprendi estas dimensões que eu não imaginava existirem, antigas como o tempo, marcadas em nós.

E sob essa luz compreendi que nossas vidas, destinos e caminhos, quase sempre surpreendentes, só são inteligíveis quando compreendemos que nós também representamos as forças da natureza. E que elas são, sem dúvida, como a lua para as marés, um sopro transparente que nos levanta, nos movimenta e nos guia, tanto quanto as ideias que criamos a partir de nossos cérebros e das sociedades que construímos.

Descobri que devo meu sentido de justiça a um ser que me inspirou, e é anterior aos livros, às ideias, aos programas partidários. A filha de um negro escravo me ensinou, depois de tantas estradas, quando voltei a essa terra, e ouvi, cheirei, e enxerguei o milagre.

Aí eu senti que realmente nós havíamos chegado em casa, nós havíamos voltado ao Brasil.

Rio, 4 de outubro de 1999