OPINIÃO
29/12/2014 10:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Retrospectiva tecnológica de 2014: o que foi pauta e continuará sendo em 2015

Já não basta uma atitude passiva de mero encantamento para que surja o poder transformador da internet sobre tudo o que ela conecta ou poderia conectar. É preciso ação.

serge segal/flickr/creative commons

Por Gabriel Aleixo

Quando o assunto é inovação, podemos enxergar 2014 como um ano pivotal. Por isso mesmo é cada vez mais importante compreender o impacto social, jurídico, cultural, econômico e político das mudanças pelas quais passaram as tecnologias de informação e comunicação nos últimos 12 meses. A perspectiva aberta é de significativo otimismo, embora devam ser compreendidos os custos e desafios envolvidos. Isso é importante para que todos - usuários, nerds, pesquisadores, geeks, ativistas, empreendedores - enxerguem que não basta uma atitude passiva de mero encantamento para que surja o poder transformador da internet sobre tudo o que ela conecta ou poderia conectar. É preciso ação.

Nessa direção, o Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio de Janeiro (ITS) vem desenvolvendo pesquisas e projetos que buscam compreender as ferramentas tecnológicas e proporcionar, a partir delas, reflexões e propostas voltadas ao diálogo democrático, à proteção dos direitos humanos e à formação e execução de políticas públicas e de práticas privadas. Igualmente comprometido com o interesse público, o instituto lançou em 2014 a série Varandas ITS, promovendo periodicamente encontros abertos para debates informais em nossa sede sobre os temas mais relevantes que emergiram no âmbito das interseções providas pela tecnologia em suas relações com política, cultura, democracia, dentre outros tópicos.

Tendo contado com a presença de pesquisadores, professores e personalidades locais e estrangeiras como convidados, os encontros foram documentados em vídeo e disponibilizados na rede com livre acesso. Hoje, o material representa uma interessante síntese do que vivemos e viveremos nos próximos anos. Fazemos uma análise de alguns dos assuntos discutidos, explicando porque foram pautas e como nos afetarão daqui em diante.

Segurança Digital

Antecipando meses antes alguns problemas que ganharam grande repercussão nas últimas semanas, como o ataque hacker sofrido pela Sony, recebemos Adam Segal (do Council on Foreign Relations) para uma conversa sobre segurança digital. O convidado destacou a relevância da questão afirmando que "existem dois tipos de companhias: aquelas que já foram hackeadas e aquelas que ainda não sabem". Foram levantados pontos como a espionagem de governos uns contra os outros, o elevado custo para que uma nação e suas empresas se defendam desse tipo de ameaça e as diferentes motivações de um ataque do tipo, como questões militares, retaliações comerciais ou referentes a segredos industriais. Ao final do debate, os presentes levantaram questões que explicitam a importância do tema, especialmente após as revelações de Edward Snowden, tratando dos riscos para a liberdade de expressão e a privacidade quando grandes projetos de monitoramento e vigilância são impostos em nome da segurança digital.

Regulação da Internet

Convidando o deputado federal Alessandro Molon, relator do Marco Civil da Internet, a fim de discutir o andamento do projeto na Câmara à época e as importantes implicações que teria sobre a sociedade, a conversa sobre regulação da internet buscou entender de que forma o Brasil poderia inaugurar o tratamento legal sobre a rede. O foco do debate foi a manutenção do complexo equilíbrio entre a proteção de direitos e a garantia de formas de responsabilização na Internet. Também se antecipando a fatos que viriam a se concretizar, o encontro aproveitou para analisar o impacto do Marco Civil sobre a liberdade de expressão, a privacidade e a neutralidade da rede, sendo esses alguns dos temas mais discutidos durante o processo legislativo e especialmente após a aprovação da lei no Congresso em abril desse ano.

Mais do que o projeto final em si, o processo que o levou a ser construído serve de exemplo às ferramentas voltadas a integrar tecnologia e participação social, tema que promete despontar em 2015. Como destacado por Kate Krontiris (pesquisadora visitante do Berkman Center de Harvard e do ITS): "uma sociedade aberta não deve se preocupar apenas em implementar questões como neutralidade da rede ou transparência pública [...] mas também em usar práticas abertas para que servidores públicos e cidadãos comuns possam conjuntamente construir legislações que atendam ao interesse público".

Bitcoin

Dentre outros fatos, 2014 entrará para história como o ano em que o mundo lançou um novo olhar sobre as moedas digitais, notadamente aquelas asseguradas pela criptografia, como a pioneira Bitcoin. Novas formas de se pensar e utilizar o dinheiro prometem ser um assunto quente nos próximos anos, especialmente diante das possibilidades abertas pela tecnologia nesse campo. Antecipando-nos a essa tendência na expectativa de usá-la da melhor forma possível, convidamos os pesquisadores Gabriel Aleixo (ITS) e Alexandre Linhares (FGV e Club of Rome) para discutir junto ao empreendedor Gustavo Chamati (Mercado Bitcoin) o que uma moeda digital, cuja rede é integralmente gerida pelos próprios usuários sem a necessidade de instituições ou de confiança nos intermediários para funcionar plenamente, tem a nos ensinar. Dentre as reflexões apresentadas, Alexandre Linhares disse que "o Bitcoin não existe num vácuo [...] Se nós tivéssemos plena confiança no sistema financeiro atual haveria pouco mercado para o Bitcoin", sendo complementado pelos outros participantes que destacaram o rápido crescimento no volume de transações realizas em Bitcoin e no número de estabelecimentos, físicos e online, que passaram a aceitar a criptomoeda como meio de pagamento. Em um momento globalmente marcado por incertezas econômicas, não resta dúvidas de que o Bitcoin e as demais criptomoedas que vieram a partir dele se tornarão alternativas cada vez maiores e mais sérias.

Realidade Virtual

Um ideal perseguido por nerds sem sucesso há tempos, a realidade virtual avançou a passos largos nos últimos anos e em 2014 atingiu um patamar nunca antes visto em termos de realismo e riqueza de conteúdo. Em boa medida, o agente responsável por impulsionar essa tecnologia globalmente foi o Oculus Rift, gadget criado por uma empresa adquirida pelo Facebook que permite a imersão do espectador em jogos, filmes e outros materiais desenvolvidos para a plataforma.

Com o intuito de entender o histórico evolutivo da realidade virtual e descobrir o que ela reserva, muito além dos games, para áreas tão diversas como educação, artes e construção civil, convidamos o designer Gabriel Brasil (Brasil VR), a artista visual Franey Nogueira e o jornalista Alexandre Roldão (LabMídia) para uma conversa que terminou numa sessão de experimentação ao vivo do Oculus Rift. Roldão pontuou que "essas tecnologias começaram a chegar ao público há 20 anos, mas talvez elas não estivessem prontas. Ou talvez nós, como audiência, não estivéssemos prontos naquele momento". A ideia de que a assimilação de tecnologias prévias, como o e-mail ou os smartphones, abre caminho para que a realidade virtual se torne cada vez mais bem-sucedida, diante de um público que é capaz de entendê-la no tempo e no espaço, faz sentido.

No evento os participantes puderam testar o Oculus Rift com diferentes conteúdos e compartilharam opiniões diante do que viram, evidenciando a repercussão que o tema deverá ganhar em 2015, quando o lançamento oficial para o público geral for iniciado (em meados de maio, especula-se), contando, inclusive, com preços acessíveis para uma tecnologia de ponta.

Os tempos, definitivamente, são outros.

*Gabriel Aleixo é coordenador de projetos, Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio de Janeiro.

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