OPINIÃO
19/02/2016 15:17 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Dois anos depois, a crise na Ucrânia está LONGE de ter um fim

Na próxima terça-feira (23), completam-se dois anos desde a deposição do ex-presidente ucraniano, Victor Yanukovych, que ficará conhecido pelas páginas da história como um dos governantes mais intolerantes da Europa recente. Na mesma semana, celebra-se a 88ª Cerimônia de Entrega dos Oscars em Los Angeles. Parecem eventos desconectados, não fosse a importância de um indicado: Winter on Fire: Ukraine Fight for Freedom (Inverno sob Fogo: Ucrânia luta por Liberdade), que concorre com boas chances na categoria de Melhor Documentário.

MarcoResidori/Flickr
Presidente della Repubblica, Leader del Partito delle Regioni.

Na próxima terça-feira (23), faz dois anos desde a deposição do ex-presidente ucraniano, Victor Yanukovych, que ficará conhecido pelas páginas da história como um dos governantes mais intolerantes da Europa recente. Na mesma semana, celebra-se a 88ª Cerimônia de Entrega dos Oscars em Los Angeles. Parecem eventos desconectados, não fosse a importância de um indicado: Winter on Fire: Ukraine Fight for Freedom (Inverno sob Fogo: Ucrânia luta por Liberdade), que concorre com boas chances na categoria de Melhor Documentário.

Dirigido pelo russo Evgeny Afineevsky, o longa é uma corajosa experiência em documentar desde o início da crise no país até o impeachment presidencial. Comprado com exclusividade pela Netflix, Winter on Fire contém cenas fortes sobre a repressão policial e o banho de sangue perpetrado por Yanukovych na tentativa de se aproximar da Rússia e se manter no poder.

Contextualizo: Yanukovych já era dono de uma biografia controversa - incluindo aqui condenações por roubo, por lesão corporal de gravidade média e a deposição em 2004, quando venceu as eleições, mas deixou o cargo por denúncias de fraude - quando subiu à Presidência em 2010, derrotando a primeira-ministra Yulia Tymoshenko.

Enquanto presidente, deu início à uma perseguição ferrenha à oposição, personificada em torno da figura de Tymoshenko. Dois dias depois de uma visita do então presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, em maio, pressionou a Procuradoria Geral pela reabertura de um caso encerrado pela Suprema Corte em que ela era acusada de subornar juízes. Em dezembro do mesmo ano, Tymoshenko foi indiciada por supostamente ter utilizado de forma leviana, fundos financeiros obtidos pela Ucrânia depois do Protocolo de Quioto.

A deputada ainda seria investigada por utilizar 1000 ambulâncias durante as eleições presidenciais e, por fim, por abuso de poder na crise diplomática com a Rússia em 2009, quando a estatal Gazprom cortou o abastecimento de gás à Ucrânia. Por este último crime foi condenada a sete anos de prisão. Todas as acusações se provariam falsas e o julgamento foi considerado inválido pela comunidade internacional, mas a parlamentar continuou presa. Ao encarcerar Tymoshenko - uma poderosa voz contrária à intervenções do Kremlin em Kiev -, o presidente dava sinais claros de aproximação com o governo russo.

Yuna Tymoshenko é presa logo após julgamento em 2011. Foto: Lofter/Reprodução

Quatro anos depois, o início da confusão.

Prestes a viajar para a Lituânia e assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia, o presidente encerra as negociações e se volta para a Rússia. Revoltada, a população inicia uma onda de protestos que durou mais de três meses e culminou com Yanukovych fugindo da Ucrânia e se asilando na Rússia.

Um governo interino assume o poder, mas parlamentares da Crimeia - região ao sul do país - não reconhecem sua autoridade e iniciam um processo de aproximação com Putin. A crise está instalada. Confira, abaixo, o passo a passo da revolução.

Timeline traduzida e adaptada a partir da original disponível aqui.

A questão Crimeia é mais complicada do que parece

A leitura da questão poderia levar a uma análise simplista: Putin é um desgraçado conquistador, que não respeita o território das ex-repúblicas soviéticas. Mas trata-se de uma análise rasa, que demanda um pouco de história (como quase tudo relacionado à URSS). Palco de sucessivas invasões ao longo dos séculos, a região era parte da União Soviética e foi anexada ao sul da Ucrânia em 1954 por uma decisão do ex-primeiro ministro soviético, Nikita Khrushchev (que trabalhou em território ucraniano e fazia assim, um agrado à Ucrânia).

À época, não parecia ser uma decisão de grande importância; afinal, a URSS só se desintegraria décadas mais tardes e, ao fim e ao cabo, as repúblicas soviéticas eram todas um mesmo Estado. A grosso modo, seria como juntar Espírito Santo e Minas Gerais ou São Paulo e Rio de Janeiro: desconsiderando arroubos bairristas da hipótese, os dois estados continuariam parte do Brasil. Mas aqui a coisa se embola.

Embora parte da Ucrânia, a maioria esmagadora da população se manteve russa. Foi esse o argumento utilizado por Putin - além, é claro, da estratégica base naval na península com saída para o Mar Negro - para motivar a intervenção militar. Segundo esta retórica, a Rússia não estava simplesmente conquistando o território vizinho, mas sim protegendo seus cidadãos de um governo anti-Moscou e retomando um pedaço do que era seu por direito.

Mais um problema, porém, se adiciona ao conflito. A Ucrânia era detentora de um grande arsenal nuclear após o fim da URSS. Em 1994, o país concordou em abrir mão de suas armas e assinou o Memorando de Budapeste com Rússia, Reino Unido e Estados Unidos, mas em troca exigiu respeito à sua soberania. Uma invasão à Crimeia, mesmo motivada por "proteção étnica", vai contra os termos do acordo.

Não, Kosovo e Crimeia não são a mesma coisa

Dias depois do resultado do referendo, Barack Obama mandou mensagens duras ao governo russo. Falando antes da reunião do G7 daquele ano - a primeira desde que a Rússia foi excluída do grupo -, o presidente americano disse que "Europa e Estados Unidos estão unidos em seu apoio ao governo e ao povo da Ucrânia, e estão unidos para fazer a Rússia pagar pelo custo de suas ações neste país". A declaração não ficou sem reações: o Kremlin acusou a comunidade internacional de hipocrisia, ao reconhecer a independência do Kosovo e não da Crimeia.

Aos perdidos, explico. Localizada nos Balcãs, o Kosovo era parte da antiga Iugoslávia. As origens dos conflitos na região são longas, mas em resumo: a Iugoslávia era constuída por maioria sérvia, enquanto o Kosovo era 90% albanês. Kossovares declaram, assim, independência em 1991 (reconhecida apenas pela Albânia). A tensão aumenta na região, dando início a uma limpeza étnica por parte dos sérvios. Tentativas de mediação nos anos posteriores falham e confrontos entre as forças sérvias e os guerrilheiros do Exército de Libertação de Kosovo (ELK) marcam o mês de janeiro de 1998 até que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) resolve atacar a Iugoslávia em 1999, desencadeando uma guerra com milhares de mortos.

Em 2008, depois de tentar mediar uma separação pacífica, o Kosovo declarou sua independência unilateralmente. O país é reconhecido por metade das Nações Unidas. Por isso, a Rússia fala em "seletismo", já que ao seu ver, a situação é análoga à da Crimeia (curiosamente, a Rússia também não reconhece o Kosovo, embora cite-o como exemplo). Mas peculiaridades do processo kossovar ajudam a entender o que a comunidade internacional considerou na decisão de reconhecimento.

Putin compara independência kossovar à Crimeia e pede reconhecimento. Fonte: RT

No Kosovo, havia uma limpeza étnica em curso. O estado também estava há nove anos sob protetorado da ONU - o que, em teoria, invalidaria o poder da Sérvia sobre o território - quando declarou independência. Além disso, a mesma resolução do Conselho de Segurança sobre a guerra definia que a população local fosse consultada sobre seu status territorial.

O professor de História Contemporânea da USP e especialista em Rússia, Angelo Segrillo, porém, recomenda cautela. "O que acho que deve ser evitado são pesos e medidas diferentes de acordo com a cara do freguês", avalia. "A Crimeia não foi "atacada" pelos ucranianos, como estes fizeram nas regiões do leste do país de maioria russa, pois sabiam que lá havia a frota russa que a defenderia. Onde não havia a frota russa, ou seja, no Leste da Ucrania, os russos foram atacados e até hoje se encontram sitiados".

Segrillo também pontua que a mediação americana na Crimeia também acirra os ânimos. Para ele, "os dois lados precisam desinflar esse clima de 'Nova Guerra Fria' que se criou entre o Ocidente e a Rússia". O professor acredita que questão vai se tornar uma espécie de "conflito congelado", como outros que surgiram no espaço pós-soviético nas últimas décadas (caso da Ossétia do Sul e Abecásia na Geórgia, a questão da Transnístria em Moldova.

Enquanto a questão não chega ao fim, a Crimeia sofre as consequências do isolamento internacional. A inflação subiu 42,5% no último ano, e, embora tenha recebido uma enxurrada de dinheiro durante a campanha pela secessão, os recursos minguaram, os salários tiveram queda média de 8,5% e o desemprego aumentou em 4%. Sem acesso ao mercado, a região só movimenta dinheiro vivo, sem acesso a cartão de crédito por exemplo.

Crise se agravou consideravelmente na Crimeia. Fonte: #UnitedForUkraine

Ucrânia sofre para consolidar novo comando político

Na Ucrânia, a queda de Yanukovytch tampouco trouxe paz. A má relação com a Rússia trouxe consequências para sua já debilitada economia e o país entrou mais uma vez em disputa com o Kremlin. O Ministério dos Transportes russo proibiu o trânsito de caminhões ucranianos, que responderam com a mesma medida.

A perspectiva da abertura de um processo na Organização Mundial do Comércio (OMC) levou à resolução do embróglio diplomático, mas Moscou não se deu por vencida. Os russos agora querem que Kiev pague bi US$3 bi (cerca de R$12 bi no câmbio atual) em créditos concedidos quando Yanukovytch desistiu do acordo com a UE.

O primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk também enfrenta rejeição. Acusado de favorecer oligarquias locais e de ser incapaz de implementar reformas prometidas. Yatsenyuk teve de se explicar ao Parlamento em um evento que quase causou sua demissão. O próprio presidente do país, Petro Poroshenko, foi ao Twitter pedir a demissão do colega.

Herdamos um país saqueado, com o exército russo e botas russas marchando em território ucraniano. Nós não tivemos nenhum exército, nem dinheiro, nem a administração pública. Mas mantivemos este país juntos. Peço-lhes para respeitar isso. (Em sessão parlamentar no início de fevereiro)

Do outro lado da balança, os Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional (FMI) instam a Ucrânia a dar sinais mais sólidos de combate à corrupção. Um eventual congelamento das remessas internacionais ao país causaria a perda de bi (cerca de R$40 bi) em empréstimos. Desde o início da crise, Washington forneceu a mi de dólares em assistência em segurança e defesa e outros mi em treinamento e equipamentos

Oscar nenhum é capaz de dar jeito em um país que parece longe de consolidar sua revolução e estabelecer instituições fortes capazes de lidar com os desafios de mundo sem a Rússia do lado.

***

Como de costume, a entrevista completa com Ângelo Segrillo vocêconfere aqui. Também é possível escutar sua análise à "Voz da Rússia" durante o ápice do conflito na Crimeia em 2014 clicando aqui.

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