OPINIÃO
10/05/2016 18:20 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Como o maior festival de música do mundo pode trazer a questão LGBT à tona na Rússia

Conforme o concurso cresceu em número de países (começou com 7 países e neste ano, concorrem 42), cresceu também sua audiência e relevância. Tornou-se a maior audiência de um evento não-esportivo no mundo e, só no ano passado, atraiu 197 milhões de espectadores. Era previsível: mesmo proibidos, os países começaram a usar a transmissão do festival como uma ferramenta de capitalização política.

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A gay parade participant is waving the rainbow flag, which has become a strong symbol for the worldwide LGBT community. Denmark

No próximo sábado (14), a Europa inicia mais uma final do Eurovision Song Contest. Será a 61ª desde que o festival foi criado, em 1956. Na época, a ideia foi reunir o continente em torno de um campeonato musical em que cada país enviaria uma canção para representá-lo. O vencedor ganharia o direito de sediar o evento no ano seguinte.

Mas conforme o concurso cresceu em número de países (começou com 7 países e neste ano, concorrem 42), cresceu também sua audiência e relevância. Tornou-se a maior audiência de um evento não-esportivo no mundo e, só no ano passado, atraiu 197 milhões de espectadores. Era previsível: mesmo proibidos, os países começaram a usar a transmissão do festival como uma ferramenta de capitalização política.

Em 2016 não vai ser diferente. Temos a Grécia que, em tempos de refugiados aportando em sua costa, canta sobre a chegada à terra de Utopia. A Sérvia - um dos países com altos índices de violência doméstica, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (PNUD) - vem com uma música sobre abuso.

De volta ao festival depois de se ausentar em 2015 para concentrar esforços contra as ocupações russas na Crimeia, a Ucrânia também não deixou barato. Traz esse ano uma música sobre a deportação dos tártaros crimeios pelos russos para a Ásia Central. A letra é carregada de simbolismos. Jamala canta: "Quando estranhos estão chegando / Eles vêm para a sua casa / Eles matam todos vocês / E dizem / Nós não somos culpados / Inocentes". A própria final nacional para escolher o representante ucraniano foi carregada de discussão política (confira legendado aqui).

Ironicamente ou não, as preocupações políticas em torno das canções enviadas em 2016 não fala de política. Ao contrário, trata-se de um pop genérico, vazio e com letra melosa. "You're the only one", entrada que pode dar a vitória à Rússia e causar uma ruptura dentro do festival famoso por abraçar a comunidade LGBT.

Os vencedores mais populares do Eurovision. Fonte: EBU/The Independent

A Rússia como centro das atenções

Desde que instituiu a lei que proíbe "propaganda homossexual" no País, a Rússia é constantemente vaiada no Eurovision, largamente adorado por gays de toda a Europa. Em 2014, as gêmeas Tomalchev sofreram com gritos da plateia que acompanhava a votação em Copenhague.

Depois de serem registradas chorando, a organizadora do festival - a União Europeia de Radiofusão (EBU) - instituiu um sistema de aplausos pré-gravados para abafar os apupos contra o País em 2015. Foi necessário que as apresentadoras interrompessem a apuração dos votos e pediram que os espectadores "deixassem questões políticas de lado e se preocupassem a construir pontes entre os povos". Criticada, a instituição e a SVT, emissora pública sueca responsável por realizar a edição de 2016 - já declararam que não vão usar o sistema anti-vaia.

Mas, depois de finalizar em 2º lugar no ano passado com uma música que clamava por paz, a Rússia veio com toda a intenção de ganhar. Para isso, conseguiu, depois de quatro anos de negociações, levar sua maior estrela pop da atualidade para Estocolmo.

Sergey Lazarev é largamente conhecido nas ex-repúblicas sovitéticas e se disse convencido a competir ao ouvir a música composta para ele, "You're the only one". Além do fator "celebridade", o país investiu pesadamente na apresentação: contratou compositores conhecidos no mundo eurovisivo, bailarinos caros, vários cenografistas e coreógrafos, além de desenvolver uma performance em um telão tecnológico que se adapta aos movimentos do intérprete.

População LGBT vulnerável no País

O maior medo é que a vitória russa ocasione em violência para gays, lésbicas e trans quando o país sediasse o evento em 2017. Não seria a primeira vez: em 2009, quando a Rússia foi anfitriã, 800 pessoas foram detidas por se terem manifestado a favor da homossexualidade nas ruas de Moscou, no mesmo dia em que acontecia a final do festival. Bem antes da lei anti-propaganda gay ser instituída.

Os incidentes já começaram. A caminho de uma pré-festa eurovisiva em Moscou, utilizada pelos artistas para promoverem suas músicas antes do festival, o representante de Israel enfrentou problemas com a imigração. Andrógino e gay, Hovi Star teve o passaporte arrancado das mãos e rasgado em uma das páginas pelos oficiais do aeroporto. A situação foi denunciada pela representante espanhola Barei a um jornal. À época, Barei declarou achar "difícil uma vitória [da Rússia] por causa disso, boa parte do público votante do festival é homossexual, e, se eu fosse gay, não votaria na Rússia, por uma questão humana".

Foto divulgada no Twitter mostra passaporte de cantor israelense danificado. Fonte: Twitter/Reprodução

Fã do concurso desde de 2010 e dono do ESC Brasil, o maior site do gênero por aqui, Eduardo Lobo está em Estocolmo para acompanhar o festival ao vivo pela segunda vez. Ele diz que não acredita em boicotes ao festival caso a Rússia saia mesmo campeã e que a vitória poderia trazer um efeito contrário: os países participantes enviariam artistas defensores da causa LGBT para competir. "Eles querem essa oportunidade justamente para afirmar que podem sim sediar o evento tranquilamente e amenizar a imagem que ficou das Olimpíadas em Sochi", diz Lobo sobre as prisões de ativistas durante as competições de inverno em 2014.

Eduardo disse ainda que não se intimidaria a ir em uma edição sediada pela Rússia e que acredita que os eurofãs serão protegidos por um forte esquema de segurança, como manda a EBU. A resposta para tanta controvérsia será conferida no sábado, à partir das 16h no horário de Brasília. A final pode ser acompanhada ao vivo pela internet neste link ou pela TV a cabo, através dos canais RTPi (com comentários em português) ou TVE (comentários em espanhol).

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