OPINIÃO
30/12/2014 12:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O melhor e o pior da democracia na web em 2014: Podemos e Aécio Neves

A política é sempre uma construção coletiva de significados. Indivíduos podem fazer grandes coisas, mas é no compartilhamento, na comunicação, que podemos agir radicalmente sobre o mundo.

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Iniciativa espanhola se destaca como promessa democrática, e o senador mineiro resumiu o pior das posturas ameaçadoras para a web.

Chegado o fim do ano, hora de olhar no retrovisor e apontar o que houve de melhor e o que houve de pior para a democracia no mundo da internet.

Em 2014, não faltaram exemplos de quem usasse a internet como uma ferramenta para inclusão social ou que se mexeu para fazer dela um ambiente mais diverso. Muitos indivíduos poderiam ser citados por sua dedicação contra o vigilantismo digital ou por ideias inovadoras para ampliar a abertura e a democratização da internet. No entanto, achamos que era importante destacar uma dimensão que consideramos fundamental na política: ela é sempre uma construção coletiva de significados. Indivíduos podem fazer grandes coisas, mas é no compartilhamento, na comunicação, que podemos agir radicalmente sobre o mundo.

Vasculhando a memória e os buscadores, listamos várias iniciativas coletivas dedicadas a construir plataformas digitais que aproveitam as ferramentas que a internet proporciona para facilitar a ação política e têm a possibilidade de, no caminho, mudar a própria internet que conhecemos. No fim das contas, decidimos destacar uma que surpreendeu pelo impacto na política eleitoral do seu país e que virou inspiração pra muitos outros grupos pelo mundo, a experiência do mais novo partido espanhol Podemos.

Esse ano, o caçula no cenário político espanhol disputou as eleições para o parlamento europeu e impressionou conquistando 5 das 54 cadeiras reservadas ao país apenas quatro meses depois de sua criação. Agora, no fim do ano, o partido se destaca como favorito ao parlamento espanhol, ameaçando o bipartidarismo tradicional protagonizado por PP e PSOE.

O crescimento meteórico do Podemos é um dos desenlaces mais recentes da mobilização popular que seguiu as políticas de austeridade defendidas pelo governo espanhol como saída da crise econômica em que o país se afundou a partir de 2009. Contra o desmonte do Estado Social, milhares de espanhóis foram às ruas recusando-se a pagar a conta pelas desventuras do setor financeiro. Da massa crítica gerada nas assembleias populares dos Indignados surgiu o Podemos, um partido cuja pauta principal é construir um sentido concreto para a ideia de soberania popular.

Durante os protestos, as redes sociais foram fundamentais para organizar pautas reivindicatórias, compartilhar informações e coordenar ações. Fruto do momento, o Podemos soube aproveitar a experiência das ruas e não deixa de aperfeiçoá-la. Mais do que qualquer outro partido, ele incorpora a presença virtual da agremiação nas redes sociais a sua organização interna. Isso se reflete no numero impressionante de curtidas e seguidores que o partido tem e na multidão de diretórios locais e setoriais que se articulam entre si e com a militância usando facebook, twitter e aplicativos de mensagens instantâneas. Mais do que uma ferramenta de propaganda eleitoral, os perfis do partido nas mídias digitais são uma plataforma de interação para o eleitorado, um canal entre a liderança e as bases e um fórum aberto de debate político.

O efeito da inclusão das tecnologias digitais de comunicação na prática partidária já toma forma além dos espaços virtuais. Nas assembleias cidadãs, a utilização de aplicativos móveis de votação tem desafiado o lugar-comum da impossibilidade da participação direta. Usando métodos estatísticos para dividir grandes multidões em pequenos grupos representativos, um programa chamado Appgree permite a milhares de pessoas discutir e votar um grande número de propostas de forma ágil.

O Podemos também flerta com a ideia de Democracia Líquida, comum a outras formações políticas como os partidos piratas. Além de uma página no Reddit, o Plaza Podemos, onde as pessoas podem discutir o programa do partido, suas comunicações e sua organização interna, outras ferramentas de votação e debate têm sido experimentadas para lidar com as necessidades da vida partidária, desde a apresentação de projetos de lei de iniciativa popular até a revogação de cargos eletivos.

Ainda não é possível falar de um sucesso consolidado da legenda ou que ela represente uma mudança definitiva na forma como fazemos política. Entretanto, sua abertura ao experimentalismo e disposição em usar as redes como uma plataforma para a democratização da estrutura partidária são um ótimo exemplo de como outros coletivos podem se beneficiar das tecnologias de informação no desenho de modelos participativos próprios.

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Do lado negativo, desde as inconveniências do Facebook, passando pelo bug de segurança Heartbleed e até a suposta ameaça hacker à Sony pelo líder coreano Kim Jong-un: muitos nomes nacionais e internacionais poderiam ser escolhidos como destaque.

Mas entendemos que o candidato tucano à Presidência da República, Aécio Neves, alcançou uma inigualável proeminência negativa. Não por um fato isolado, mas pelo conjunto da obra, que começa desde antes do período eleitoral, e conta com pelo menos quatro episódios icônicos.

Em março, Aécio teve negado seu pedido, em duas ações, para que fossem removidos links de resultados de busca do Google, Yahoo e Bing, que o vinculavam a denúncias de desvio de verba e consumo de drogas ilícitas.

Em junho, mirando nas mobilizações em grande parte organizadas por meio das redes socias, foram executados mandados judiciais de busca e apreensão de equipamentos eletrônicos de seis pessoas suspeitas de difamar Aécio, que havia solicitado ao Ministério Público do Rio de Janeiro uma investigação sigilosa. Entre as pessoas que tiveram suas residências e pertences revirados pela polícia, a jornalista Rebeca Mafra, a ativista Elisa "Sininho" Quadros, a advogada Eloisa Samy e o cinegrafista Thiago Ramos.

Em setembro, Aécio pediu na Justiça de São Paulo que o Twitter divulgasse os dados de 66 perfis de usuários que ele acusava de serem pagos para espalhar "conteúdo ilícito" para afetar sua imagem na campanha eleitoral. Em dezembro, uma decisão concedeu o acesso a informações de 20 perfis.

Em outubro, o documentário Helicoca - o helicóptero de 50 milhões de reais, com denúncias contra Aécio, foi retirado do YouTube mediante uma notificação de direitos autorais. Era o terceiro caso de censura desse tipo, que já havia abatido o trabalho de conclusão do curso de jornalismo de Marcelo Baêta, intitulado Liberdade, Essa Palavra, e o filme produzido para a TV dos EUA chamado Gagged in Brazil, ambos também críticos ao ex-governador mineiro.

Mais grave a lista corrida dos feitos do senador mineiro, só mesmo reconhecer que para uma boa parte do eleitorado brasileira essa postura avessa à cultura digital não foi assim tão importante. Ainda bem que 2014 acabou.

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