OPINIÃO
17/03/2014 09:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

O valor do sorriso embutido

Por causa de uma matéria criticando a Lei Rouanet, um poderoso produtor de musicais ligou para o editor de um dos mais importantes jornais do país. Se sentindo ofendido, disse que não gastaria mais com anúncios de suas peças e shows naquele jornal. Ao que o editor respondeu: "Pode cancelar todos os anúncios. O seu dinheiro não compra minha credibilidade."

Óbvio. Credibilidade é construída e não se conquista da noite para o dia. E é também um valor de mercado. Credibilidade é cara. Sustenta a indústria da comunicação. Só que, moralmente, é um monstro de muitas cabeças.

Há quem tenha vergonha de que o Brasil seja culturalmente tão corrupto. Há quem se orgulhe de dar uma carteirada. No meio disso, todos estamos expostos à compra e venda de credibilidade, sem nos darmos conta de que esse comércio, como qualquer outro, pode ser tão nocivo para a sociedade quanto, por exemplo, o tráfico humano.

O que separa eticamente o comércio legal daquele que é ilegal? Somente a lei? Então, antes da abolição da escravatura deveríamos aceitar moralmente a exploração de escravos?

A campanha da CNBB desta quaresma... Desculpe. Explico: quaresma é a aquele período em que se encerram as vendas de fantasias e se preparam as vendas de ovos de chocolate, quando os bispos aproveitam para fazer a campanha da fraternidade.

Então... Retomando. Coincidiu com o lançamento da campanha da Igreja Brasileira contra o tráfico humano, a fala do Papa Francisco assumindo ter roubado um crucifixo. Eu, que não gosto de padres desde a infância - nada a ver com assédios - até dei um voto de confiança ao sumo pontífice, que fugiu ao dogma católico de se crer na infalibilidade de seu líder.

Francisco humanizou sua personagem. Sabe que isso lhe garante maior credibilidade. Já outras celebridades caem na cilada, para faturar mais com sua exposição, de tropeçar no orgulho que têm de sua popularidade sem se dar conta que estão visivelmente mentindo.

Sabemos que Ellen Degeneres fez merchandising de Samsung, mas que usa iPhone. Podemos até duvidar que o ex-vegetariano Roberto Carlos coma bifes, mas sabemos que jamais cometeria a deselegância de perguntar se a carne é Friboi. Temos dúvidas que Fátima Bernardes vá pessoalmente ao supermercado e, ainda mais, que no balcão exija tudo da marca Seara.

Ao aceitarmos que uma celebridade fale mentiras em troca de dinheiro, estamos aceitando que a moralidade é relativa conforme o interesse econômico e que a mentira só é socialmente condenável para quem não é bem-sucedido.

Fátima saiu do jornalismo da Globo e passou ao setor de entretenimento, com direito contratual a fazer comerciais. Mas, ao fazer publicidade, seu personagem parece se esvaziar daquilo que talvez fosse seu melhor atributo. Devemos acreditar que Fátima, no milagre matinal de fazer algo novo, saboreie mortadela junto aos seus midiáticos trigêmeos? Será que, na bancada do café da manhã, Bonner dará um sorriso atestando a importância do embutido na vida dos brasileiros?

Desde que o comércio é comércio, jogar com mentiras e ilusões tem o objetivo de faturar. No entanto, essas celebridades estão glorificando, no jogo de ilusões que é a publicidade, um vale-tudo por grana. Isento de qualquer noção ética, esse mesmo pensamento pode justificar roubos, tráfico de pessoas, de drogas ou até a corrupção.

Não! Não estou colocando essas celebridades no mesmo patamar de um traficante. Isso seria injusto! São profissionais que apenas estão ganhando algum dinheiro a mais, afinal é a regra do mercado. Porém, convém lembrar que, ao mentir tão descaradamente, estão traindo sua própria credibilidade.

As exigências publicitárias dão de ombros e expõem as celebridades em sua total falta de consciência sobre o que estão falando em um comercial. Afinal, não duvidamos que Neymar seja capaz de zoar um gringo para que o mundo aprecie o nacionalista Guaraná Antártica. Está em seu espírito moleque, em seu jeito brasileiro de ser malandro e simpático. No mínimo ingênuo, o craque reproduz a boa e velha lei de Gérson, na qual temos que levar vantagem em tudo, certo? O moleque Neymar acredita nisso? Ou ele é fruto do meio? E o pai dele? Levou vantagem em sua contratação antecipada pelo Barcelona?

Não raro, a publicidade transborda a ética motivada por mais grana, como se a que tem não bastasse. E esse valor maior, de topar tudo por dinheiro, corrompe o sentido da vida. Que importa? Estão vendendo horrores. E o grande público está seduzido ao consumo. Maravilha, a economia precisa funcionar!

Será que, ao alugar sua credibilidade, essas celebridades sabem que estão gerando valores morais? Precisam mentir tão descaradamente ou é melhor que seja assim para que o jogo seja mais limpo? E serão esses os mesmos valores que sustentam tão bondosamente em seus programas, em suas novelas, em suas músicas e em seus comportamentos sempre tão exemplares?

Ironicamente, diria que não sei as respostas, afinal uma pergunta se sobressai, latejando há tempos em minha mente e entalada na minha garganta: essa gente precisa desse dinheiro?

Tudo bem, tenho amigos famosos e ricos que usaram cachês assim para presentear suas empregadas domésticas com apartamentos ou que doaram esse dinheiro para instituições de caridade. Isso é tão justo quanto colocar a bufunfa no bolso e gastar como bem entender. É um cachê que ele ganhou sem explorar o trabalho de outro. Somente alugou seu corpo, seu talento, seu carisma, sua fama e sua credibilidade. E esse "somente" que me dói. É como se não houvesse compromisso com mais nada.

Um traficante, sim, não tem compromisso com nada. No entanto, um traficante já está condenando moralmente pela sociedade. Quem vende mentiras, ao contrário, faz sucesso e é adorado. Glorificado, se perguntará se vale a pena?

Já atuei em comerciais de tevê. Poucos, felizmente. Hoje, em condições financeiras bem abaixo de qualquer celebridade dessas e bem melhor do que quando passava o chapéu na rua para sobreviver, posso dizer não para publicidade. E isso não é nenhum atestado de pureza moral. Tenho peças teatrais patrocinadas e faço parte desse jogo de ilusões, comércio de almas e de alegria. Avalio minhas contradições a cada segundo para não corromper minha credibilidade. E sempre tenho medo de cair na mesma cilada.