OPINIÃO
09/07/2018 19:04 -03 | Atualizado 09/07/2018 21:32 -03

Presidenciáveis enfrentarão pesquisadores e divulgadores em debate sobre Ciência

Entenda por que considerar o que um candidato pensa sobre Ciência na hora de votar.

Divulgação/Conhecer

Pré-candidatos à Presidência estarão frente a frente com sabatinadores no dia 29 de julho, em São Paulo, no evento "Conhecer - Eleições Presidenciais 2018". O tema será um só: Ciência! Específico demais? Longe da sua realidade? Não mesmo. Entenda porque esse será um dos debates mais importantes que você deve acompanhar antes de decidir seu voto.

Em 2015, Joana sofria de um câncer de mama de difícil tratamento. Convenceram-a de que um composto químico sintetizado e distribuído clandestinamente, que nunca obteve qualquer comprovação científica, poderia curá-la. Naquele ano, parte da sociedade civil e alguns políticos pressionaram o Estado a liberar R$ 10 milhões para financiar pesquisas sobre esse composto, que nunca serviu para absolutamente nada relacionado ao câncer.

Ao mesmo tempo, cortes avassaladores no orçamento atingiam todos os setores da Ciência e Tecnologia no Brasil, incluindo a Fiocruz, que desenvolve pesquisas sérias com tamoxifeno, um composto realmente promissor contra o melanoma. Investimentos nesses estudos podem trazer patentes e commodities importantes para o Brasil. Com isso, dependeríamos menos de importação de medicamento. Mas não! Os cortes continuam e Joanas continuam morrendo.

Em 2016, Francisca não sabia porque seu bebê havia nascido com microcefalia, uma doença que atingia índices alarmantes no Brasil desde o ano anterior, sobretudo na região Nordeste. A tia de Francisca, "informada" através de uma corrente viral de WhatsApp, afirmou que o menino nasceu com a má formação cerebral por conta da vacina que a mãe havia tomado contra rubéola, oferecida pelo Governo. Francisca recomendou à irmã, Emanuela, para que não tomasse nenhuma vacina. O filho de Emanoela nasceu com deficiências auditivas por ter sido exposto ao vírus da rubéola.

O que ambas ainda não sabiam é que, em maio daquele ano, um estudo científico liderado por pesquisadores brasileiros do Departamento de Imunologia da USP concluía que o aumento dos casos de microcefalia no Brasil estava relacionado à epidemia do vírus da Zika.

Até hoje, as ações públicas contra a disseminação do mosquito Aedes aegypti, vetor do vírus, estão longe de serem efetivas na cidade onde Francisca mora e bebês continuam nascendo com microcefalia, trazendo gastos públicos dezenas de vezes maiores do que os necessários para a prevenção do problema.

O que Francisca - e a maioria da população brasileira - também não sabe é que a maior parte das pesquisas científicas que permitiram resultados como esses é realizada por pós-graduandos como o Rodrigo, que não consegue pagar suas contas com uma bolsa de Mestrado congelada há anos ou por jovens doutores como a Lúcia, que agora está desempregada depois de 10 anos de vida acadêmica, sem perspectiva de trabalho e desprovida de qualquer direito trabalhista, fatos que a motivaram a sair do país.

Francisca, Emanuela, Joana, Rodrigo e Lúcia são personagens fictícios de um Brasil infelizmente real. Esses exemplos ilustram diversos fatores para esse grave cenário ao qual a Ciência do nosso país está submetida:

  1. O analfabetismo científico faz com que pessoas de todas as classes sociais acreditem e repassem informações conspiracionistas das mais descabidas possíveis, muitas vezes tratando a Ciência como algo maléfico. Movimentos anti-vacina e investimentos em compostos ineficazes são o reflexo mais sombrio desse panorama. Afinal, o negacionismo mata;

  2. A alienação do Poder Público em relação ao conhecimento gerado pelas pesquisas desenvolvidas no País. Mesmo quando a Ciência promove respostas rápidas e precisas sobre um determinado problema, o engessamento burocrático e a falta de vontade política não só dificultam a execução de ações efetivas, como muitas vezes atuam em uma direção completamente oposta ao que apontam os dados científicos;

  3. A produção científica brasileira é suportada de forma majoritária por estudantes de Pós-graduação. Nossos cientistas recebem mal, possuem pouca ou nenhuma abertura para realizar atividades de complemento de renda, passam por vezes mais de 10 anos atuando como profissionais sem recolher qualquer direito trabalhista e hoje enfrentam falta de perspectiva de trabalho e índices alarmantes de depressão e ansiedade;

  4. O mais importante dos fatores, o grave sucateamento da Ciência brasileira pelo Governo Federal. O orçamento do então Ministério da Ciência e Tecnologia já foi de R$ 8,4 bilhões em 2010 (o equivalente a atuais R$ 10 bi, corrigidos pela inflação). Após sucessivos cortes, despencou para R$ 4,1 bilhões em 2018, já contando com a pasta de Telecomunicações, que consome mais de R$ 700 milhões desse montante.

Estamos em um mundo cada vez mais dependente de tecnologia em todos os setores da sociedade. Se investimos pouco para produzir, vendemos menos e ainda gastamos mais para importar produtos cada vez mais avançados. Mesmo o perfil agrário que nos caracteriza há mais de 500 anos também é fortemente dependente de Ciência e Tecnologia. Lucros poderiam ser muito maiores e os impactos socioambientais muito menores, se houvesse bons investimentos para isso.

A história de diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento mostra que investir em Ciência é o caminho para a solução diante da crise. Israel, por exemplo, investe mais de 4% do PIB em C&T. China atingirá 2,5% em 2020 e cerca de 40% desse suporte é para a Ciência Básica. Ruanda investe 3% de um PIB que é 150 vezes menor que o nosso e assiste um crescimento econômico anual de 7%. O Brasil, com apenas 1,05% dessa proporção, está na exata contramão do que o mundo constata como efetivo.

Mesmo diante de todos esses pontos, mesmo mergulhados em um poço que parece não ter fundo, não podemos nos esquecer que quem tenta puxar a corda dessa caçamba são pessoas que ainda tem força para lutar e apontar soluções: cientistas brasileiras e brasileiros.

Os casos do início do texto mostram não só o grave cenário, mas também o quanto podemos e devemos confiar na qualidade de milhares de profissionais que ainda acreditam em um país cujo crescimento econômico pautado por desenvolvimento tecnológico, justiça social e sustentabilidade ambiental só pode ser alcançado se houver investimentos vigorosos em Ciência e Tecnologia.

Os candidatos à Presidência do Brasil que não estiverem prontos para discutir e apresentar boas propostas nessa pasta, certamente não estarão aptos a assumir a missão de retomar o crescimento econômico e social de que o país tanto precisa.

Conhecer - Eleições Presidenciais 2018

Data: 29 de julho

Transmissão: Science Vlogs Brasil (Youtube), Dispersciencia (Facebook) e HuffPost Brasil

Local: Casa de Portugal. Avenida da Liberdade, 602

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.