OPINIÃO
03/09/2018 11:13 -03 | Atualizado 03/09/2018 11:13 -03

Há feridos sim, no incêndio do Museu Nacional

Chamas foram controladas, mas deixaram milhares de cientistas e milhões de brasileiros órfãos de conhecimento e memória.

Montagem/Getty Images
Estudantes choram pela destruição do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

"Pelo menos, não houve feridos." Como não? O que explica essa dor? Cientistas estão chorando o sofrimento que, na realidade, é da humanidade.

Vinte milhões de itens coletados ao longo de 200 anos de História perdidos em uma hora e meia. Duzentos anos? Antes fosse só isso.

Os ossos do Maxakalisaurus topai, o primeiro grande dinossauro a ser montado no Brasil, sobreviveram a 80 milhões de anos para virarem pó em uma hora e meia de "Ciência não é prioridade".

Havia um fóssil de um dinossauro de uma espécie nova do gênero Irritator que estava prestes a ser publicado. Jamais saberemos qual era. Perdemos em uma hora e meia de "precisamos cortar os gastos da Ciência no Brasil".

Eu queria uma máquina do tempo para falar para a Luzia que ela um dia seria o mais antigo fóssil humano brasileiro, que ela seria exposta em um dos museus mais "respeitados" da América Latina, mas que sumiria na fumaça porque o ordenado anual para esse museu era menor do que o de um único juiz federal.

O que terá acontecido com o Bendengó, o maior meteorito já encontrado no Brasil? Foi descoberto por um menino baiano, em 1784. Foi transportado, por ordem de D. Pedro II, até o Rio de Janeiro, numa viagem que exigiu uma das mais complexas engenharias logísticas da época. Veio do espaço para se juntar aos escombros* provocados pelo País que desmonta a Ciência nacional em uma PEC. E em uma hora e meia.

Perdemos História. Pinturas, documentos, tratados, colunas, paredes. As mesmas que abrigaram a Família Real e o evento da assinatura da Independência do Brasil. Hoje, esse mesmo palácio assiste ao evento da Dependência do Brasil em relação a sucessivas corjas de governantes que trataram e tratam a nossa História e nossa Ciência como, no máximo, vasos exóticos no jardim de inverno. No máximo! Porque a média é tratar como se nem esterco fosse. Precisa-se de água, ao menos, para tratar esterco. Nem isso tinha quando os bombeiros chegaram à Quinta da Boa Vista.

Vinte milhões de itens. A maioria insetos coletados ao longo de séculos. Centenas de holótipos (modelos oficiais) de espécie descritas e milhares de novas espécies que ainda seriam descobertas. Além disso, estudos de dieta, declínio populacional, reprodução, taxonomia, zoonoses se esvaíram junto com as chamas. Estudos que poderiam salvar vidas humanas, inclusive, já que essa parece ser a única régua de sensibilização científica que ainda temos. Temos?

Quantificar o que perdemos até aqui dói. Centenas de pessoas perderam suas vidas ontem. Sim, porque "vida é trabalho. E sem o seu trabalho, o homem não tem honra". Perdemos a honra e, mais uma vez, estampamos as páginas do mundo como motivos de vergonha.

Triste é saber que poucos a sentem. Somos nesse momento aquela figura cafona e nojenta no meio da festa, sem perceber que todos ao redor nos reprovam. E com razão. O maior museu brasileiro queimado como se fosse um barracão é a maior representação que podemos ter da nossa sociedade hoje.

Meu primeiro texto de Divulgação Científica foi publicado em 15 de maio de 2010. Em lágrimas, relatei o dia em que a Coleção Herpetológica do Butantan foi tomada pelo fogo. Perguntei se iríamos esperar acontecer o mesmo com o Museu Nacional. Esperamos! Aquela que era a maior tragédia para a Zoologia Brasileira perdeu seu posto até ontem. Junto dessa, somam-se as maiores tragédias para a Paleontologia, Arqueologia e possivelmente para a História do país.

Para a História, só possivelmente. Tenho minhas dúvidas se essa tragédia é maior do que aquela que costuma-se fazer em urnas.

*O meteorito foi uma das poucas peças que resistiu ao incêndio, informa o G1.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.