OPINIÃO
21/10/2016 13:23 -02 | Atualizado 21/10/2016 13:23 -02

Duas espécies de tatu e uma de lagarto foram descobertas no Brasil em apenas um mês

Muita gente imagina que já conhecemos todos os representantes da nossa fauna. Ledo engano. Anualmente, centenas de novas espécies são descobertas por biólogos em todo o mundo e o que falta para ser descoberto está na ordem de milhões. E o Brasil, apesar de abrigar a maior biodiversidade do planeta, já estudada há séculos, ainda está muito longe de ter toda sua fauna completamente revelada.

Essa lacuna está concentrada principalmente nos grupos de invertebrados terrestres e marinhos. O que até mesmo a maioria dos biólogos desconhece é que mamíferos de médio e grande porte, considerado um grupo bastante conhecido, ainda guardam representantes que ainda não foram desvendados.

É o que demonstra os trabalhos do biólogo paraibano Anderson Feijó, doutorando em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba. Ele já havia publicado em 2013 a descrição de uma nova espécie de porco-espinho (Coendou baturitensis) e outra de cutia (Dasyprocta iacki), junto com o renomado Dr. Alfredo Langguth. Dessa vez, acaba de lançar em conjunto com o também biólogo e professor da UFPB, Dr. Pedro Cordeiro-Estrela, um artigo na revista Zootaxa, descrevendo duas espécies de tatu para a região amazônica, Dasypus pastasae e Dasypus beniensis.

2016-10-03-1475524711-3584288-kappleri.jpg Tatu-de-quinze-quilos (Foto: Vicent Rufray/Biotope)

Você acha que a descoberta foi realizada no meio da mata? Nada disso. Ambas as espécies eram anteriormente reconhecidas como Dasypus kappleri, um tatu de médio porte, chamado popularmente de "quinze-quilos" (massa aproximada do animal) e relativamente comum na Amazônia. Feijó analisou dezenas de exemplares depositados em coleções científicas do Brasil, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e Estados Unidos e encontrou diferenças morfológicas responsáveis por separar o que era uma única espécie em três. Dasypus kappleri agora está localizada apenas ao norte do Rio Amazonas até a região das Guianas. Ao sul, está Dasypus beniensis. Já Dasypus pastasae ocorre ao leste da Amazônia, entre Venezuela e Bolívia. As três são quase idênticas e as duas últimas já foram consideradas como subespécies de D. kappleri, mas podem ser diferenciadas através de características do crânio, casco e cauda.

2016-10-03-1475524850-401734-mapafummy.png Distribuição das espécies de tatu-de-quinze-quilos (Fonte: Feijó & Cordeiro-Estrela 2016)

Na edição anterior da mesma revista, os professores doutores Diva Borges-Nojosa, da Universidade Federal do Ceará; Ulisses Caramaschi, do Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro e Miguel Trefaut Rodrigues, da Universidade de São Paulo, também revelaram para a Ciência uma nova espécie de lagarto, batizada de Placosoma limaverdorum, em homenagem ao professor aposentado pela UFC, Dr. José Santiago Lima-Verde e ao agrônomo Wilson Lima-Verde, proprietário do terreno onde o holótipo (exemplar que representa oficialmente uma espécie) foi coletado.

2016-10-03-1475524942-2778996-limaverdorum.png Nova espécie de lagarto cearense (Foto: Diva Borges-Nojosa)

Na década de 90, Borges-Nojosa já havia coletado indivíduos dessa espécie na Serra de Baturité, Ceará, distante pelo menos 1700 km ao norte da distribuição original das outras populações do gênero Placosoma. Na época, a bióloga já havia notado algumas diferenças em relação às outras espécies conhecidas, mas aguardou novas evidências para comprovar. Agora, depois de coletas em outras regiões do estado e de análises morfológicas complexas comparadas com outros representantes do grupo, os pesquisadores finalmente atestaram que essas populações do Ceará representam uma única espécie, localizada até o momento apenas nas Serras de Baturité, Maranguape e Pacatuba. Chamadas de brejos de altitude, essas serras são cenários conhecidos mundialmente por abrigarem espécies endêmicas, ou seja, que só existem lá, como os anfíbios Adelophryne maranguapensis e Adelophryne baturitensis, o periquito da cara-suja Pyrrhura griseipectus e o lagarto Leposoma baturitensis.

Além da excelente notícia em sabermos que nossa lista de fauna é crescente, essas descobertas são muito mais do que isso. Perceber de que forma esses animais se distribuem no mapa hoje é fundamental para entender os processos de evolução e dispersão das espécies ao longo de milhares de anos. Quando ocorreu a separação das populações do ancestral comum? Quem foram esses ancestrais? O que pode ter motivado essa separação? Terá sido um rio? Um evento climático? Uma longa migração e isolamento? Além disso, identificar essas diferenças morfológicas e moleculares das espécies pode nos dar a resposta para inúmeras relações ecológicas. Esse padrão de interdisciplinaridade, sem dúvida, é uma das maiores belezas da Biologia.

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