OPINIÃO
30/10/2014 13:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Chega! O México está a ponto de explodir

Hoje, o México inteiro ressoa com o grito de "Eles foram levados vivos, que voltem vivos". Se os 43 forem achados mortos (e por que e onde estariam sendo mantidos vivos por seus sequestradores?), tudo pode acontecer.

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CIDADE DO MÉXICO - O México foi profundamente atingido pelas atrocidades e pela corrupção no governo de Guerrero. O epicentro do terremoto é Iguala, a terceira maior cidade do Estado.

Uma passeata de 50 000 pessoas tomou as ruas da capital na última quarta-feira, e houve outros protestos em todo o país. Mais de 80 delegados da Assembleia Inter-Universidades querem uma paralisação das atividades escolares no dia 5 de novembro e pedem o apoio de outros movimentos sociais. Manifestantes atearam fogo na sede do governo de Guerrero, em Chilpancingo, a capital do Estado, e estão saqueando supermercados e shopping centers.

Eis os eventos que levaram ao terremoto:

Em 26 de setembro, María de los Ángeles Pineda Villa, mulher do prefeito de Iguala, José Luis Abarca, do esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD), estava discursando na praça central da cidade sobre suas conquistas à frente da agência de serviços sociais do município. Rumores davam conta de que ela anunciaria sua candidatura para suceder o marido, pois ela também pertence ao PRD. As eleições acontecem em junho.

Quando ela estava começando a falar, dois ônibus de estudantes da notoriamente radical faculdade de professores de Ayotzinapa, uma cidade próxima, chegaram ao local. Eles queriam pedir contribuições para suplementar as diárias de 50 pesos, um valor muito baixo. Segundo a Procuradoria Geral do governo federal, o prefeito ordenou que a polícia impedisse o avanço dos estudantes. Depois de um pequeno enfrentamento com a polícia, os estudantes "tomaram emprestados" três ônibus da estação central para voltar a Ayotzinapa e depois rumar para a Cidade do México, onde participariam de um evento para lembrar o massacre de Tlatelolco, em 2 de outubro de 1968 (http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=97546687). Na saída da cidade, os ônibus foram metralhados pela polícia e por atiradores do cartel Guerreros Unidos.

Três estudantes morreram, além de um jogador de futebol num ônibus que transportava uma equipe da terceira divisão e um taxista e sua passageira. Um estudante entrou em pânico e fugiu quando seus colegas eram presos. Mais tarde, ele foi encontrado morto. Seus olhos tinham sido arrancados e seu rosto retalhado com um estilete, um ato de violência gratuita. Quarenta e três estudantes foram colocados em carros da polícia e desapareceram.

A família de Pineda vinha trabalhando havia anos com os carteis Beltrán Leyva, Sinaloa e Guerreros Unidos. Dois de seus irmãos foram assassinados em guerras de gangues, e outro cumpriu pena de prisão. Um líder dos Guerreros Unidos recém-capturado a descreveu como

"operadora-chave" das atividades criminosas na região de Iguala. O prefeito e sua mulher não foram vistos desde que ele pediu uma licença de urgência, e talvez já estejam enterrados em valas comuns.

Declarações oficiais de que os 38 corpos encontrados em 10 valas improvisadas não são dos estudantes desaparecidos exacerbaram os ânimos da população, em vez de acalmá-los. Agora a questão é: de quem são esses corpos amarrados, torturados, queimados ou decapitados? Haverá investigação para encontrar os culpados? Ou vão esperar a indignação pública passar, para que o caso seja mais um dos cerca de 98% de homicídios não-resolvidos no país? Em 27 de outubro, informações dadas por quatro pessoas presas naquele dia levaram à descoberta de outra vala clandestina com restos humanos, desta vez num aterro sanitário de Cocula. O prefeito e o chefe de polícia da cidade foram presos duas semanas atrás.

Um mês depois das atrocidades de Iguala, as autoridades estão presas num atoleiro de informações contraditórias. Não há punição para os responsáveis pelo desaparecimento e morte dos 43 estudantes.

Leia mais: Milhares de manifestantes tomam as ruas do México em protesto contra massacre de estudantes

O colapso do PRD é nacional. Angel Aguirre, governador que pertencia ao Partido da Revolução Institucional (PRI) e que se mudou para o PRD em tempo de ser eleito para liderar o Estado de Guerrero, foi forçado a tirar licença por tempo indeterminado. Irregularidades multimilionárias foram constatadas na construção de uma nova linha do metrô na Cidade do México durante a administração de Marcelo Erbrard, ex-prefeito da capital e integrante do PRD. E a onda de violência continua a atingir o Estado de Morelos, também sob administração do partido - a capital Cuernavaca e outras cidades vivem sob clima de tensão permanente por causa dos sequestros e execuções perpetrados pelos carteis de Beltran Leyva e Guerrero Unido.

O Partido da Ação Nacional (PAN) ainda não se recuperou do estigma adquirido durante a administração do presidente Felipe Calderon.

Dez dias depois de assumir a presidência, em 1º de dezembro de 2006, Calderon lançou uma guerra contra as drogas que custou mais de 120 000 vidas e deixou 30 000 desaparecidos, ao longo de seis anos. Autoridades afirmam que a maioria das mortes foram resultado de disputas entre os carteis narcotraficantes, ou então de forças de segurança mortas em ação. Mas houve muitas vítimas inocentes, pessoas que estavam no lugar errado, na hora errada -- como os 16 adolescentes baleados em uma festa em Ciudad Juarez por uma quadrilha de homens armados.

LEMBRANDO EL POZOLERO

Este mais recente episódio lembra a terrível brutalidade durante a presidência de Calderon, como o caso "El Pozolero" (pozole é o nome de um prato típico do país, à base de milho), que em 2009 foi acusado de dissolver os corpos de 300 membros de um cartel rival em uma solução química, a mando de seu chefe. Ou então os massacres de imigrantes ilegais da América Central e da América do Sul que estavam rumando para os Estados Unidos, mas foram abduzidos de ônibus e torturados, estuprados e assassinados em San Fernando, Estado de Tamaulipas, pelo cartel Los Zetas. Eles supostamente se recusavam a trabalhar para a facção criminosa ou a pagar resgate. Em 2010, 72 corpos foram descobertos num rancho e, um ano depois, 193 foram exumados de valas comuns.

Um assassino de aluguel de 14 anos preso em Cuernavaca - o mais jovem até agora - afirmou ter torturado e decapitado mais de 300 pessoas. Durante todo o governo Calderon corpos eram encontrados regularmente pendurados em pontes, dentro de carros abandonados, em shopping centers ou estradas. Juntos aos corpos, mensagens ameaçadoras.

Em 2011, atiradores atearam fogo num cassino de Monterrey, matando mais de 50 pessoas, a maioria jogadores de bingo, supostamente porque os donos tinham se recusado a pagar os carteis. Professores de vários Estados pararam de trabalhar depois de sofrer ameaças de homens armados. Em junho de 2011, a polícia de fronteira americana anunciou ter prendido mais de 100 de seus agentes desde 2004 por colaboração com os carteis mexicanos. O PAN ainda não se recuperou dessa mancha.

"Se (como disse Goya) o sono da razão produz monstros, a razão está em coma no México."

Dois dias depois da tragédia de Ayotzinapa, o líder do PAN em Guerrero foi assassinado num restaurante de Acapulco por dois membros insatisfeitos de seu partido - supostamente, eles não teriam conseguido os empregos que queriam.

Não só o PRD e o PAN estão no olho do furacão. O Estado de Michoacan, que faz fronteira com Guerrero e é governado pelo PRI, esteve próximo de ser comandado na prática pelos cartel Caballeros Templarios, e milícias de civis frustrados pela corrupção da polícia tomaram a justiça em suas próprias mãos.

O presidente apontou um comissário para assumir o controle. Depois que surgiu um vídeo em que o filho do governador tomava cerveja e batia papo com La Truta, líder do cartel foragido até hoje, o governador foi substituído pelo reitor da universidade estadual. As milícias foram desarmadas e canalizadas em uma espécie de patrulha rural, mas a insatisfação permanece. O Estado do México, de onde vem o presidente Enrique Peña Nieto, faz fronteira com Michoacan, Guerrero e outros cinco Estados e também sofre sérios problemas com a violência em cidades próximas da capital, como Ecatepec. O procurador geral da Justiça Militar acaba de condenar sete soldados e um general por envolvimento na execução sumária de 22 supostos traficantes.

Com eleições parlamentares previstas para 15 de junho, os três partidos políticos dominantes enfrentam problemas de reputação. Os mexicanos estão órfãos, sem alternativas para livrar o país da corrupção desenfreada. Os sete partidos menores são irrelevantes.

AS REFORMAS DO PRESIDENTE PEÑA NIETO

Muito antes de Peña Nieto assumir a presidência, em 1º de dezembro de 2012, era de conhecimento de todos que os principais objetivos do novo governo do PRI seriam mudar a imagem do México no exterior e trazer mais investimentos estrangeiros para o país. Para evitar um impasse no Legislativo, seus operadores costuraram um "Pacto pelo México", fazendo um toma-lá-dá-cá com os líderes dos principais partidos de oposição. Um ambicioso pacote de reformas foi aprovado pelo Congresso.

Amplas reformas educacionais - precedidas pela prisão do poderoso líder do maior sindicato de professores do país, que havia desafiado o presidente publicamente - foram seguidas de novas regras para incentivar a concorrência nas telecomunicações, setor controlado por três companhias enormes. Mas a maior e mais controversa reforma foi a que abriu o setor de energia para o investimento privado e estrangeiro, um tabu desde 1938, quando o presidente Lazaro Cardenas expropriou e nacionalizou todas as reservas de petróleo e as petrolíferas estrangeiras que faziam negócios no país.

Para muitos, um dos aspectos mais preocupantes da reforma do setor de energia é a possibilidade de que terras privadas possam ser expropriadas para a exploração de gás e petróleo. A reforma pode ser contestada em um referendo exigido por milhões de cidadãos. A decisão está nas mãos da Justiça.

A euforia que se seguiu à passagem das reformas lembrou o ex-presidente José Lopez Portillo, que afirmou famosamente em 1978: "Caros mexicanos, estamos ricos!". O país havia descoberto reservas no Golfo do México, o que abriu o caminho para décadas de crescimento econômico, mas também de corrupção.

Nos últimos dois anos, um grande número de chefões do crime organizado foi preso ou assassinado, mas eles são rapidamente substituídos, ou então suas áreas passam para as mãos de outras facções. Os carteis diversificaram seus negócios, suplementando as receitas do tráfico com sequestros e extorsão de comerciantes e empresários em troca de proteção.

Peña Nieto pôs fim à prática de desfilar criminosos presos diante das câmeras de TV e baixou o tom dos relatos de violência na mídia. Forças policiais inteiras foram dissolvidas. Apesar disso, a cada dia há novas notícias de enfrentamentos, sequestros e assassinatos. Valas comuns foram encontradas nos Estados de Jalisco, Tamaulipas e Veracruz.

Há cinco anos, Ciudad Juarez, na fronteira com os Estados Unidos, era considerada a cidade mais perigosa do país. Hoje, o centro de gravidade parece ter se deslocado para Guerrero, historicamente um dos Estados mais violentos do país e uma incubadora de guerrilhas insurgentes.

Leia mais: Milhares de manifestantes tomam as ruas do México em protesto contra massacre de estudantes

Depois das recentes descobertas em Iguala, muitos suspeitam que existam inúmeras outras valas comuns espalhadas pelo país. O Ministério das Relações Exteriores inundou embaixadas e consulados com uma campanha para controlar os danos de imagem. Circula na internet uma imagem em que o presidente Peña Nieto é retratado como a morte, de foice na mão, uma paródia da capa da revista Time na qual ele foi descrito como o salvador do México.

Parece que o tão propalado Momento Mexicano não pertence às corporações multinacionais de olho numa fatia do petróleo, do gás, da energia eólica e dos grandes projetos de infra-estrutura do país. Na atual situação, se os cidadãos não tiverem opções democráticas para atacar a corrupção política, corremos o risco de viver 1968 mais uma vez. Naquele ano, os movimentos estudantis colocaram o governo contra a parede pouco antes dos Jogos Olímpicos da Cidade do México, e a culminação foi o massacre de Tlatelolco, quando um número desconhecido de manifestantes pacíficos foi abatido pelas tropas de choque, e mais de 1 300 deles foram detidos.

Hoje, o México inteiro ressoa com o grito de "Eles foram levados vivos, que voltem vivos". Se os 43 forem achados mortos (e por que e onde estariam sendo mantidos vivos por seus sequestradores?), tudo pode acontecer. Será que o presidente e seu ministério estão prontos para um levante de grandes proporções?

A polícia, os políticos e os juízes foram comprados ou colocados em seus cargos pelos carteis. Os mexicanos estão fartos de viver num estado corrupto e impune. Eles estão perdendo a esperança. Se (como disse Goya) o sono da razão produz monstros, a razão está em coma no México. O que precisamos desesperadamente de Peña Nieto é uma nova aliança, que possa ser resumida em duas palavras: honestidade e justiça.

Este artigo foi originalmente publicado pelo WordlPost e traduzido do inglês.

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