OPINIÃO
16/10/2015 14:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

O poder das aulas interessantes

A dificuldade do professor, em especial o do século 21, consiste em ser o foco da atenção dos alunos em um mundo com inúmeras outras propostas de saber ofertadas pelos meios de comunicação.

por Gustavo Novalis, professor da rede pública de Minas Gerais

"Crianças aprendem melhor quando gostam de seu professor - e quando sabem que seu professor gosta delas."

- Dr. Gordon Neufeld, psicólogo do desenvolvimento

O desafio da disciplina

Os anos de prática me levam a afirmar que o grande desafio de todo professor e, certamente, o ponto central de todo trabalho docente que realizamos, consiste em ser capaz de manter a disciplina da sala de aula.

Em outros tempos, quando a palmatória ainda reinava nas escolas, a disciplina em sala de aula era fruto do medo provocado pelos castigos físicos. Prática estéril e inútil, como bem percebido e narrado por Machado de Assis em seu Conto de Escola, onde o personagem principal, um jovem aluno da escola primária, "aprontava todas" na tentativa de burlar as regras do colégio.

A palmatória saiu de cena, mas a lógica da coerção permanece impregnada na prática pedagógica de muitos professores.

Esta ideia é alimentada pela imagem do professor como detentor único do poder/saber e do aluno como "tabula rasa", passivamente a espera do conhecimento depositado por seu mestre.

O resultado desse tipo de pensamento em um mundo dinâmico e interativo, recheado de relações líquidas e descartáveis, como o século 21 é, a profusão de garotos como os do conto de Machado de Assis.

Gritar não é a solução

A escola não poder ser vista como um lugar tedioso e chato - ninguém tem vontade de aprender assim!

Portanto, cabe ao professor criar em sua rotina pedagógica um ambiente agradável ao aluno. É necessário saber ouvi-lo e aprender a se relacionar com suas angústias, frustrações e medos. Muitas vezes o professor é o único a quem aquele aluno terá para ouvi-lo!

Gritar para obter a atenção desse aluno é extremamente ineficaz. A tensão e o estresse gerados pelos gritos, reprimendas e ameaças do professor, reduz a capacidade de aprender dos jovens educandos. Pode-se até obter um silêncio momentâneo, mas será um silêncio maçante e improdutivo.

"Estudos mostram que, sob o efeito do cortisol, o hormônio do estresse, a memória e o aprendizado ficam prejudicados. Como a função primordial do cérebro é a sobrevivência, numa mente sob pressão ou ameaça, o foco da atenção é direcionado para a fonte de preocupação e a região do hipocampo, responsável pela memória, tem a atividade reduzida". MÜLLER, Michele. Crianças felizes aprendem melhor.

Os jovens e as crianças gostam de aprender - e é intrínseco a eles! A natureza do homem é curiosa e inquieta, o que se bem conduzido torna-se um enorme facilitador ao ofício pedagógico.

"As crianças são curiosas. Elas querem compreender as coisas, descobrir como é que as coisas funcionam, desenvolver capacidades e obter controle sobre si mesmas e sobre o seu ambiente - querem fazer tudo o que vêem os outros fazer. São receptivas, perspicazes e empíricas. Não se limitam a observar." HOLT, John. Como as Crianças Aprendem.

A dificuldade do professor, em especial o do século 21, consiste em ser o foco da atenção dos alunos em um mundo com inúmeras outras propostas de saber ofertadas pelos meios de comunicação - sem falar, é claro, de outros saberes, próprios da idade, extremamente atrativos e cativantes, ofertados pelos próprios colegas.

Diante desse quadro, o desafio do educador é ser capaz de estimular no educando o desejo de aprender aquilo que ele está sendo proposto, em ser escolhido pelos alunos como "mediador confiável" e alvo de seu interesse.

O caminho para que isso aconteça passa pelo afeto, confiança e respeito ao aluno, mas também na capacidade de tornar sua fala, sua aula, mais interessante e excitante ao jovem do que as muitas outras ofertas de saber que clamam por sua atenção.

Repreender com amor para formação do caráter

A repreensão em uma relação sem afeto é pura violência e, sendo assim, tem como resultado imediato e óbvio o desgaste na relação entre aluno e professor, criando entraves severos ao processo de ensino e aprendizagem.

Por outro lado, ao perceber que o professor lhe quer bem, o aluno, ainda que resignado, reconhece as razões que levaram a sua repreensão, expandindo assim os efeitos da educação para além da simples transferência de saberes, transformando-a em algo muito maior, em formação de caráter.

Como bem observou o educador Paulo Freire (1921-1997): "Não se pode falar de educação sem amor".

Logo, amar a seus alunos é parte fundamental do ofício do professor. O mestre incapaz de se relacionar de forma integral com o aprendiz realiza seu ofício pela metade, semeia sementes sofismáticas e estéreis. Quando não vê surgirem dos educandos mais do que uns poucos frutos podres de uma árvore vazia de alma, se torna um ser descartável, amargurado e frustrado. Não, não se constrói nada duradouro sobre sofismas!

Amar o aluno é reconhecer nele sua humanidade - e, portanto seus limites e suas angústias. Amar o aluno é não se conformar com os rótulos impostos e muitas vezes consolidados e criados pela família, pela sociedade e até mesmo pela própria escola. Amar o aluno é labutar para quebrar esses e outros rótulos!

Amar o aluno é jamais deixá-lo para trás, não aceitar sua derrota e estimulá-lo à superação. Amar o aluno é apesar das dificuldades reconhecer nele um ser pensante e capaz, atuando junto a/com ele no processo de construção do saber.

Citando novamente Freire: "Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo".

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