OPINIÃO
27/07/2015 10:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Não, Recife não é o Vale do Silício brasileiro... mas talvez esteja no caminho

Não existe centro inovador que dure e floresça com qualidade, se as remunerações - afinal, ninguém trabalha de graça - não condizem com o que é entregue e com os números de negócios gerados a partir do seu trabalho.

Esta semana bombou na minha timeline - acredito que por causa da estreia de mais uma Campus Party Recife - uma postagem aqui do Brasil Post sugerindo que a minha querida capital é o Vale do Silício brasileiro. A reportagem baseou-se em vários dados e fatos históricos para afirmar que a capital Pernambucana é de fato o espelho do seu par americano.

Vista da Ponte do Limoeiro x Vista do Por do Sol na Golden Gate.

Sillicon Valley

Lar das maiores empresas de tecnologia do mundo (Apple, Google, Facebook etc) e um celeiro de inovação sem fim, a origem do Vale do Silício remonta ao final da década de 30 e início da década de 40, a partir de um esforço do governo americano para superar tecnologicamente os radares alemães durante a 2ª Guerra. Por isso, foram investidos milhões de dólares na criação de um laboratório secreto em Harvard, o Radio Research LAB, chefiado por Fredrick Terman, da Universidade de Stanford, na Califórnia.

Quando retornou à sua universidade, Terman convenceu os gestores de que era preciso criar um centro de ponta em Engenharia e receber mais financiamento do governo para desenvolvimento de tecnologia. Além disto, outros dois fatores foram fundamentais para o surgimento do Vale do Silício como o conhecemos hoje. O primeiro deles foi facilitar o licenciamento de propriedade, no início da década de 60; e o segundo foi uma redução de impostos sobre ganhos de capital, no final da década de 70, que ampliou a disponibilidade de crédito e permitiu a abertura de empresas como Apple, Google e Facebook.

Realidade x Discurso

Falando agora sobre o ponto de vista insider (sou pernambucano, morei em Recife e já convivi durante muito tempo com o mercado de lá), queria colocar aqui alguns contrapontos: Tudo o que a Luiza falou, de fato, é verdade. O polo criado pelo Porto Digital, C.E.S.A.R. e a criação do curso de Ciência da Computação na UFPE fomentam e fomentaram durante décadas o nosso "pequeno Vale do Silício", mas nem tudo são rosas e estamos bem longe de um ambiente promissor pintado pelo texto e vou explicar três pontos que comprovam isso:

1. Remuneração

Aqui é uma percepção geral de quem vive e trabalha no Recife, ou para quem, como eu, teve que sair do Recife para receber dividendos maiores e melhores. Fala-se muito sobre o custo de vida na cidade, que é "menor" do que em outros locais do Brasil, mas isso é uma pequena falácia. A verdade é que como qualquer outro lugar no Brasil nos últimos anos, Recife sofreu com a hipervalorização dos aluguéis (e parcelas da casa própria também), impossibilidade dos deslocamentos (com qualidade duvidosa em se tratando de serviços públicos) e alimentação.

Fale com qualquer profissional da iniciativa privada da cidade, que não esteja em cargo de chefia, e pergunte: o que ele acha da remuneração que recebe? Mesmo aqueles que trabalham em empresas de tecnologia ou encubadas pelo Porto Digital. Se esse fator estivesse resolvido e fosse de fato uma preponderante balizadora do mercado, eu (e muitos outros) não moraria há mais de sete anos em São Paulo.

Não existe centro inovador que dure e floresça com qualidade, se as remunerações - afinal, ninguém trabalha de graça - não condizem com o que é entregue e com os números de negócios gerados a partir do seu trabalho.

2. Infraestrutura

Essa parte não condiz com a verdade mesmo. A cidade pode ter sim um bom cabeamento, ter iniciativas públicas que incentivem, mas falta muita coisa. Vamos nos ater apenas a mobilidade urbana (afinal, as pessoas precisam sair de suas casas para ir trabalhar): Recife tem o pior trânsito do Brasil. Se em horários de pico, 46% das ruas de SP estão engarrafadas, em Recife esse número é de 60%. Sessenta porcento!

Os recifenses são vítimas de um sistema viário sem reformulação, da falta de planejamento e investimento e ainda do cartel criado pelas companhias de transporte alinhado a vista grossa das autoridades. E isso que eu não vou citar as obras mal geridas e inacabadas do Túnel da Abolição (construíram um túnel viário em uma região que SEMPRE alaga e alagou), do BRT, a questão do ocupe estelita, os gargalos na cobertura celular (3G e 4G) etc.

3. A participação efetiva e conhecimento da população sobre o polo de inovação e tecnologia.

Diferente do que acontece com as cidades do Vale do Silício, que vivem e giram em torno do ambiente da inovação e das empresas de tecnologia (vejam os casos de São Francisco, Mountain View, Palo Alto etc) e se beneficiam como nunca da produção intelectual e dos ganhos gerados pelas empresas ali instaladas, é difícil encontrar entre a população da cidade e do estado (que não está ligada diretamente à área) quem saiba o que é o Porto Digital, ou saiba sobre as iniciativas geradas ali.

Basta lembrar que o maior empregador do estado ainda é o governo (seja em âmbito federal, estadual ou municipal) e que são inúmeros os jovens (força de trabalho que mais condiz com o mercado de inovação) que deixam de se engajar em ambientes inovadores, de empreendorismo ou mercado de trabalho mesmo, em busca de salários melhores conseguidos através do serviço público. São milhares "parados", estudando para concurso ou esperando serem chamados por aqueles em que já foram aprovados.

Além do que, não é tátil para as pessoas que ali vivem, ou de percepção real no dia a dia das mesmas, os ganhos alardeados e conseguidos pelos polos de inovação instalados na cidade... (eu sei que eles existem, mas as pessoas não se sentem fazendo parte...).

No entanto...

Não estou querendo diminuir os feitos do C.E.S.A.R., Porto Digital ou o trabalho de milhares de pessoas nas iniciativas de inovação, ou mesmo ainda os esforços do Governo local no que tange e é referente as iniciativas... mas os fatos são fatos e não dá pra esconder o sol com a peneira.

No fim das contas, ao ler a primeira matéria lembrei do slogan da Rádio Jornal do Commercio do Recife, nos anos 50: "É Pernambuco falando para o Mundo", slogan criado em uma época que não existia transmissão via satélite... naquele momento o ufanismo pernambucano (que todos nós nascidos e criados lá temos) tentava vender um protagonismo desmedido para o estado. O diferencial é que hoje em dia a gente conseguiria apontar que, e ser ouvido, a história não era bem por aí...

VEJA TAMBÉM:

Galeria de Fotos Looks da Campus Party 2015 Veja Fotos