OPINIÃO
05/09/2014 08:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Dilma, a criminalização da homofobia e porquê eu não quero ser o fiel da balança nestas eleições

Candidatas, discutam suas propostas. Eu não quero ser o fiel da balança desta eleição, não quero ser usado para justificar a falta de propostas em seus planos de governo e ser a fuga pela direita de ambas.

JOSE CABEZAS via Getty Images
A person holds a rainbow flag during the Gay Pride Parade in San Salvador, El Salvador, on June 28, 2014. AFP PHOTO/ Jose CABEZAS (Photo credit should read JOSE CABEZAS/AFP/Getty Images)

Antes de começar o texto propriamente dito, eu queria aqui assumir uma coisa: Tenho 30 anos, sou publicitário e gay. Sempre fui gay. Sempre me senti gay. Sempre tive atração por pessoas do mesmo sexo. Todos os meus amigos sabem disso (e convivem bem comigo) e as pessoas mais importantes da minha família para mim também. Me considero ativista LGBT e pró-direitos humanos, já estive em diversas passeatas pedindo milhares de coisas e lutando por direitos...

O que me motiva neste momento a escrever este texto são o fatos... fatos que pra mim não expressam a verdade e nem querem mudar nada. É fato que a candidata Marina Silva tem reais chances de ganhar a Presidência da República; É fato, que o partido que está há 12 anos no poder pode perder sua influência, seus cargos e principalmente sua administração sobre um orçamento de R$ 1,834 trilhão de reais.

Estamos aqui falando não apenas de dinheiro, mas principalmente sobre poder. Poder é muito maior que dinheiro. Poder decidir sobre a vida de milhões de pessoas e, de quebra, ter bilhões para nortear essas decisões atrai muito mais do que qualquer coisa no mundo... é atrás de poder que muitos se lançam nas eleições e buscam o seu, o meu, o nosso voto.

Mas antes de entrar no cerne da questão deste texto, é preciso fazer uma pequena volta no tempo e rememorar fatos que aconteceram lá em 2010. Exatos quatro anos atrás, nesta mesma época do ano tínhamos a seguinte manchete no site da Folha de São Paulo:

"Dilma nega defender aborto e diz que opinião de bispo não é uma posição da CNBB"

O então candidato do PSDB à presidência era o José Serra, que promovia uma cortina de fumaça em cima da Dilma afim diminuir a imensa popularidade transferida pelo presidente Lula para ela, falando que ela seria a favor do aborto. Os boatos se espalhavam, Dilma revidava com declarações contrárias e mesmo assim a população se horrorizava.

"Onde já se viu ser a favor do aborto?"

Pastores, cardeais, Bispos (católicos e evangélicos) foram chamados por ambos os lados para avalizar quem estava falando a verdade e quem não estava. Um assunto sério (e de saúde pública) tomava agora o centro das discussões e, ganhava quem assumia ser mais carola/cristão e convertido.

Longe dali, Marina Silva declarava ao UOL Eleições que era contra o casamento gay e queria um plebiscito sobre a maconha.

Debater propostas? Analisar friamente dados do governo e rebater com críticas reais sobre a condução do país? Tratar com seriedade o trecho da constituição que fala sobre "estado laico"? Jamais...

Alguns dias e dois turnos depois, o certame daquela época fora vencido por Dilma. Nossa presidentA vinha com o estigma de ser a "primeira mulher presidente do Brasil e, portanto, precisava do nosso apoio".

Em 2012, atendendo as demandas dos aliados que a elegeram, Rousseff nomeou Marcelo Crivella, hoje candidato ao governo do Rio de janeiro, para o Ministério da Pesca e Aquicultura. Crivella além de deputado pelo nanico PRB, é sobrinho do Bispo Edir Macedo, também conhecido como fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Record.

Ainda em 2012, o PSC (partido do Pastor Everaldo, atual candidato conservador à presidência da república) se reuniu com a Ministra Ideli Salvatti (PT - SC) para manter dominando uma importante secretaria dentro do Ministério das Cidades, como vocês podem ler mais sobre nesta reportagem do Valor Econômico. O PSC, para quem não sabe, é o partido do Dep. Federal Marco Feliciano, que ganhou repercussão internacional após assumir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, depois de uma grande "negociata" entre o PT e o partido dele... Nada contra um partido "cristão" assumir qualquer comissão, mas colocar um notório homofóbico como presidente dela é no mínimo tripudiar com todos nós, certo?

Chegamos finalmente a 2013, ano em que o povo foi às ruas, primeiro gritar contra o Feliciano e segundo para "protestar contra tudo isso que está aí". Discussões a parte sobre os rumos daquele mês de junho, fomos bombardeados durante muito tempo sobre a necessidade de aprovação Projeto de lei da Câmara 122 de 2006 (popularmente conhecido como PL 122) que propõe a criminalização dos preconceitos motivados pela orientação sexual e pela identidade de gênero, equiparando-os aos demais preconceitos que já são citados na Lei 7716/89.

Através de uma manobra política iniciada primeiro pela bancada evangélica, que logo em seguida recebeu o apoio (não declarado) da bancada do PT, o projeto foi arquivado e jogado para dentro da reforma do judiciário (que tramita há mais de uma década no congresso e não existe nem sombra ou interesse de aprová-la). Você pode ler sobre a indignação do movimento LGBT frente ao arquivamento do PL 122 neste link da Revista Fórum e ainda no site da mesma revista, ver como mesmo dentro do PT existia resistência (manobra?) na aprovação do projeto .

Junte-se a esse balde de água fria toda a campanha de difamação promovida por igrejas e conservadores de todo o Brasil em cima do projeto. "É a ditadura gayzista sendo implantada" ou "É o fim da liberdade de expressão" eram as coisas mais ouvidas e lidas Brasil a fora.

Além dessa cronologia dos fatos aqui em cima, temos outras ações da nossa presidentA, mostrando todo seu carinho e apreço pela comunidade LGBT brasileira (sic):

1 - Veto ao "kit anti-homofobia" criado pelo Ministério da Educação na gestão Haddad e que seria distribuído em todas as escolas públicas do Brasil. O Kit fazia parte de um programa anti-bullying e foi descartado, não só por causa da baixa qualidade do conteúdo apresentado (alegação primordial dada pelo governo), mas também por conta dessa declaração aqui da Dilma:

Foco na frase laica: "o futuro a Deus pertence".

2 - Suspensão da veiculação de campanha Anti-HIV/AIDS do Ministério da Saúde (comandado à época por Alexandre Padilha, atual candidato do PT ao governo de SP e que patina com 7% das intenções de voto segundo o IBOPE) voltado para o público LGBT (notou-se um aumento significativo nos últimos anos de casos de HIV/AIDS entre gays masculinos e a campanha era voltada justamente para educar e prevenir dentro desse grupo) e posterior demissão do diretor do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Dirceu Greco. O motivo da demissão foi a junção de duas campanhas vetadas pelo ministro (e pela presidenta): A de prevensão da AIDS entre LGBTs e a campanha "Sou Feliz Sendo Prostituta".

Os dias se passaram e as eleições de 2014 já estão se vislumbrando no nosso horizonte. Reviravoltas acontecem. Candidatos desaparecem. Outros são alçados aos leões e chegamos ao momento em que nos encontramos...

Todo este prólogo foi escrito para explicar porque eu NÃO ACREDITO nas palavras da candidata DILMA VANA ROUSSEFF quando ela fala que "criminalização da homofobia é uma necessidade urgente e latente da sociedade. Vamos defender". Com qual envergadura moral ou em que histórico ou circunstância ela se ampara para falar tais palavras? Quais os exemplos bons apontados em seu governo que fazem com que a comunidade LGBT brasileira (todos os brasileiros?) possam crer nela? 4 anos, mais de 1.000 pessoas ASSASSINADAS apenas por serem homossexuais entre tantos outros exemplos mais, não foram suficientes para que a presidentA pudesse fazer algo antes desse momento em que aparece encurralada pela adversária principal? Faça-me o favor.

A criminalização da homofobia é o aborto de 2014. É a cortina de fumaça de hoje. Dessa vez jogada pela candidata da situação em cima da sua principal adversaria (que recuou sim, no apoio que declarou ao PLC 122 e ao casamento gay), afim de esconder as mazelas do seu governo: Economia em recessão, Petrobrás falida e metida em um escândalo cavalar, obras incabadas do PAC entre tantas outras coisas...

Candidatas, discutam suas propostas. Discutam o país que vocês querem administrar e como querem administrar. O povo está cansado e farto de tanto proselitismo religioso e subterfúgios. Vocês tem que apresentar propostas e o que querem fazer! Eu não quero ser o fiel da balança desta eleição, não quero ser usado para justificar a falta de propostas em seus planos de governo e ser a fuga pela direita de ambas.

Não queremos uma nova guinada conservadora nesta eleição, não queremos uma nova cortina de fumaça jogada por marqueteiros que só visam o lucro e ganhar seus milhões mal declarados ao TSE... PAREM!

E para a comunidade LGBT deixo um último recado em forma de vídeo. Vídeo este criado pelo @Rafucko e com qual encerro este longo texto:

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