Opinião

Teoria do Privilégio Relativo

No Brasil de hoje, é alarmante o número de assalariados e pequenos empresários que acreditam sinceramente ser parte da elite. Acham que têm mais "status social".

Preâmbulos da teoria:

No Brasil de hoje, é alarmante o número de assalariados e pequenos empresários que acreditam sinceramente ser parte da elite. Alguns, num misto de orgulho e revolta, levam a sério a jocosa alcunha "elite branca", chegando até a ficar indignados e a fazer campanha para reclamar seus direitos de gente abastada.

Nem que seja por espírito humanitário, convém alertar essas pessoas de que estão sendo enganadas. Aqui, darei nome ao seu principal algoz: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, conhecido por IBGE.

Segundo o Instituto, 9% da população fazem parte do "topo da pirâmide", a chamada "classe alta". Pensando na proporção, faz sentido - afinal, 9% é uma ínfima minoria. Já pensando na renda mínima necessária para, estatisticamente, adentrar esse grupo, fica evidente o absurdo: com renda familiar mensal de 15 salários mínimos (pouco menos de 11 mil mensais), já estariam então abertas as portas do mundo VIP. Não é bem o que acontece...

O fato de as 15 famílias mais ricas do Brasil (umas 60 pessoas?) deterem 5% do PIB nacional já indica que existe uma assustadora concentração de renda mesmo entre essa "classe alta" definida pelo IBGE. Em termos práticos: a família do gerente geral do banco, mesmo quando se bate a meta, não anda no jatinho da família do banqueiro Safra (2ª no ranking de bilionários brasileiros, de acordo com a Forbes); a família do corretor de imóveis, por melhor que seja a comissão, não mora em mansões como as da família Camargo Correa (5ª na lista); a família do pequeno exportador, esteja como estiver o câmbio, não obtém os resultados da família Maggi, os "reis da soja" (7ª da lista).

Por mais que a alguns lhes doa, esta é a vida...

Teoria do Privilégio Relativo:

Dada sua distância em relação à verdadeira elite, um número significativo de integrantes da suposta classe alta, para dar sentido à fantasia sugerida pelo instituto de pesquisa, apegam-se a tudo que lhes possa diferenciar das classes mais "baixas".

Assim, os que fazem questão da distinção mas não dispõem de todos os luxos que o dinheiro pode comprar precisam comparar-se aos menos afortunados e superá-los, pois só assim se autentica a condição de privilegiados. Nesse sentido, quanto menos a classe mais baixa tiver acesso a indicadores de "status social", melhor.

Em termos mais mundanos, portanto, a Teoria do Privilégio Relativo (TPR) se apoia no bom e velho "eu tenho, você não tem".

Aplicações:

A teoria ajuda a explicar, por exemplo, a abundância de fotos pretensamente glamorosas nas redes sociais. Afinal, de que valeria passar horas em sites de compra coletiva, garimpando o melhor pacote para Punta Cana, se os relaxados pés na areia não pudessem ser exibidos no Instagram? Ou qual seria a vantagem de jantar no restaurante "badalado" do momento se, além da taxa de serviço, a conta não incluísse a possibilidade de ostentar, nas redes sociais, aquele momento íntimo, chique e quase exclusivo?

Também pode se aplicar a teoria na análise de casos em que assalariados e pequenos empresários assumem um discurso extremo de defesa do grande capital. Pouco versados em história e geografia, chegam a acreditar que a redução das drásticas desigualdades brasileiras está diretamente ligada à distribuição de seus rendimentos mensais ou à expropriação de seus imóveis financiados. Na sua ingenuidade, defendem com unhas e dentes a propriedade privada, como se de fato houvesse alguma ameaça contra ela.

A teoria se aplica ainda a casos mais moderados, como o daqueles indivíduos que se rebelam contra o frequente incômodo de dividir "seu" avião com pessoas menos requintadas. Estes, para a sorte de todos, não têm (ainda) o discurso contaminado pelos "colunistas do medo" - que enxergam (ou fingem enxergar) Marx à espreita em cada esquina e, com isso, ganham uma legião de lunáticos seguidores.

À guisa de conclusão:

A teoria pode parecer complexa, mas é possível ilustrá-la com um famoso seriado mexicano, produzido na década de 70. Nele, um uniforme de marinheiro constantemente asseado, um sanduíche de presunto sempre à mão e o pagamento regularmente em dia do aluguel eram suficientes para que um conhecido personagem, seguindo orientações de sua presunçosa mãe, agredisse um vizinho mais pobre, aos gritos de "Gentalha! Gentalha!". A Teoria do Privilégio Relativo explica: os mais pretensiosos precisam fingir que não ocupamos todos o mesmo pátio.

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