OPINIÃO
02/05/2014 16:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Ronaldo, o fenômeno cordial

Ao contrário do que seria fundamental a uma participação efetivamente cidadã no universo político, Ronaldo faz questão de destacar a relação privada que se trava entre ambos: na imagem, estão os dois na sala de estar do craque; na legenda, ele afirma que estava prestes a ver uma partida de futebol com aquele que chamou de "meu grande amigo".

Hoje, ao ver a fotografia em que o craque Ronaldo aparece à direita de Aécio Neves, revelando seu apoio pela candidatura do tucano, foi impossível a mim não lembrar o clássico Raízes do Brasil, do estudioso Sérgio Buarque de Holanda. Na obra, o intelectual - que, diga-se de passagem, não gostava muito de ser lembrado como "o pai do Chico" - discute sua famosa hipótese sobre o caráter do brasileiro. Para ele, o modo como lidamos com as questões públicas é resultado de sermos o que ele chamou de "o homem cordial". À luz dessa ideia, a foto de Ronaldo e Aécio parece revelar muito mais sobre nós do que em princípio se poderia pensar.

No sentido que assume na expressão, "cordial" não é sinônimo de "bonzinho" ou "educadinho". Evocando as raízes latinas da palavra, Sérgio Buarque explora o sentido de "cordialis" (ou seja, "relativo ao coração") para defender que os indivíduos de nossa cultura teriam dificuldades de estabelecer laços sociais diferentes daqueles criados no universo familiar. O que pode ser um perigo, afinal, nas palavras do próprio Buarque, "só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se torna cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade".

Não é essa transgressão da ordem familiar em favor da cidadania que se observa na foto e na legenda. Ao contrário do que seria fundamental a uma participação efetivamente cidadã no universo político, Ronaldo faz questão de destacar a relação privada que se trava entre ambos: na imagem, estão os dois na sala de estar do craque; na legenda, ele afirma que estava prestes a ver uma partida de futebol com aquele que chamou de "meu grande amigo", sem acrescer outro motivo para defender que se trate do "futuro presidente do Brasil" - expressão usada pelo artilheiro. Trocando em miúdos, Ronaldo não foi pessoalmente a um espaço público manifestar sua preferência política (ao contrário dos manifestantes que questionam a Copa do Mundo tão defendida pelo boleiro) e nem sugeriu motivos republicanos para justificar seu apoio a Aécio.

Antes que me entendam mal, porém, é necessário destacar: Ronaldo pode ser amigo de quem quiser, assistir ao jogo que melhor lhe convier e votar no candidato em que acreditar. Tudo isso é mais que legítimo. E, além disso, se me coubesse julgar a publicação da foto e da legenda, diria que o eterno R9 fez muito bem. Paradoxalmente, foi ao divulgar a foto de caráter íntimo que Ronaldo mostrou ao público seu modo privado de fazer política. Se não o fizesse, como poderíamos tomar posição sobre sua atitude e debater a legitimidade - ou a falta dela - em seu apoio?

Ao fim e ao cabo, quando figuras públicas assumem sua posição, acabam contribuindo diretamente com o debate político. Quantas pessoas não estão neste exato momento dialogando sobre a sucessão presidencial influenciadas pela foto do artilheiro de todas as Copas? Aliás, não custa lembrar que no espaço de uma semana dois craques da bola - e parceiros - estamparam o noticiário político do país. Concordando ou não com suas posições, as atitudes de Neymar - na questionável campanha publicitária que nos chama a todos de macacos - e de Ronaldo mostram que estamos em um novo Brasil, onde política se discute sim. O próximo passo, claro, é melhorar o nível da discussão e da ação política. Quem sabe, nos próximos anos, nossos centroavantes saiam de suas salas como fizera o saudoso Dr. Sócrates, figura atuante nos palanques pelas Diretas Já.