OPINIÃO
29/09/2015 00:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Quantos lados tem uma crise?

O atual governo Dilma está longe de ter meu apoio. Porém, qualquer manifestação golpista terá o meu mais profundo e convicto repúdio. O momento exige reflexão, debate e democracia.

REUTERS/Ueslei Marcelino

Quando o PT venceu pela primeira vez a disputa presidencial, vivemos um momento bonito da nossa história, no qual "a esperança venceu o medo" -- como dizia o mais poético slogan que uma campanha política já teve.

Olhando para trás, não é tão simples negar que a esperança tenha mesmo se fortalecido -- com todas as limitações que um País de tradição e mentalidade escravagista como o nosso impõe.

Costumo dizer que não há melhor prova de que o País mudou do que o sentimento de impotência manifestado por cães raivosos que pedem a volta dos militares, a eleição de Bolsonaro ou qualquer outro desses devaneios de quem teve escola e não recebeu educação.

Tivesse o País se mantido o mesmo, haveria tanta gente querendo a volta daquele antigo Brasil, em que os patrões simulavam agregar a empregada à família e a empregada era obrigada a fingir que acreditava (vejam Que horas ela volta?, por favor!)?

Não digo que, por isso, devemos beijar a mão de Lula ou Dilma e atribuir todos os avanços aos governos petistas. Muita gente lutou e luta por essas transformações.

Faço esse começo quase nostálgico para lembrar que, agora, a história é completamente outra. A eleição de Dilma, em 2014, não foi a vitória da esperança.

Em 2014, quem venceu foi o medo. A luz já tinha apagado, a festa já tinha acabado, o otimismo já tinha sumido.

Mas havia o medo de Marina, o medo de Aécio, o medo de Armínio Fraga... Muitos que votamos com esperança em 2002, ficamos sem alternativa que não o medo, nosso irmão e companheiro.

No entanto, se em 2002 a esperança rendeu frutos, em 2014 o medo nos livrou de muito pouco: as mesmas medidas de "austeridade" tão temidas por quem fez campanha contra Aécio voltam com toda força à agenda.

Mais uma vez, são os trabalhadores que perdem direitos para sustentar rentistas.

Quem votou Dilma e acompanha com algum interesse o cenário político tem a dura sensação de que ganhou e não levou.

E pior: quem não votou Dilma e vê a agenda do outro candidato sendo posta em prática também não se sente representado e tem todo um aparato midiático a legitimar o já cristalizado "ódio ao PT".

Nesse cenário todo confuso, assumir uma posição responsável e à esquerda é uma tarefa tão complexa quanto necessária.

Analisando o "estelionato eleitoral" de que muitos fomos vítimas, parece impossível assinar a hashtag #FicaDilma, recentemente divulgada por grupos governistas.

Não parece razoável esperar que eleitores de 2014 abracem com a mesma comoção o "coração valente", cujo maior ato de bravura talvez tenha sido entregar a chave do cofre a Joaquim Levy, desafiando justamente os que contavam com a valentia do projeto eleito.

Ao mesmo tempo, porém, a constante hipótese de deposição da presidenta (levantada ainda no segundo turno das eleições!) corrobora não só uma série de ideias distorcidas sobre a política nacional, como também as piores práticas responsáveis por nosso atraso.

O impeachment de Dilma seria a vitória da indignação seletiva, da falta de distinção entre os poderes, da ignorância plena sobre as esferas de atuação (municipal, estadual, federal) e, talvez a mais preocupante de todas, a vitória da manipulação midiática sobre a população brasileira.

Em suma, mesmo tentando analisar o contexto atual em uma perspectiva mais ampla, o atual governo Dilma está longe, muito longe de ter meu apoio.

No entanto, qualquer manifestação golpista terá o meu mais profundo e convicto repúdio.

O momento exige separar essas esferas da discussão, pois a neblina que toma conta do debate só interessa a quem prefere trocar o debate pela confusão, a reflexão pelo panelaço, a democracia pela força.

O avanço deles é a verdadeira crise. Se não observarmos isso, eles passarão sim.

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