OPINIÃO
23/09/2014 16:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Por que eu volto, Dilma

É claro que vamos continuar tendo nossas diferenças. É claro que você vai errar, como eu também vou. Mas, recorrendo àquele chavão popular, "só erra quem faz".

Sala de Imprensa Dilma13/Flickr
Dilma Rousseff participa de sabatina do Uol, Folha, SBT e Jovem Pan. Brasília - DF, 28/07/2014. Foto: Ichiro Guerra

Querida Dil,

Faz já uns meses que escrevi aquela carta triste, sentida, melancólica, na qual anunciava nosso rompimento. Foi quando achei que você exagerou na aproximação com certos grupos religiosos e senti que um valor tão importante para mim e para a república, a laicidade, estava sendo relegado a segundo plano. Na ocasião, porém, ninguém podia imaginar que um avião cairia sobre nossas cabeças.

Ninguém sonharia que, ironicamente, a pessoa com maiores chances de ocupar o seu lugar seria alguém com laços reais, sinceros e convictos com a política que eu mais abomino e, pior, com ares de "novidade". O que há de novo numa política que, orientada por dogmas religiosos, segue os velhos preconceitos e nega direitos fundamentais a grupos já tão desrespeitados, como a comunidade LGBT e as mulheres de modo geral?

Em todo caso, se eu dissesse que voltei apenas por causa disso, não estaria sendo sincero. Mas também não vou mentir: como você já deve saber, flertei sim com a Luciana durante esse período em que fiquei confuso. E não posso dizer que não foi bom. Mas confesso que isso me ajudou muito a fortalecer a convicção de que, embora os sonhos sejam imprescindíveis, não se pode avaliar por completo alguém que não enfrentou as dificuldades que, juntos, já tivemos de enfrentar.

Fora isso, talvez eu não devesse confessar, mas também andei ouvindo alguns amigos. Você já deve até ter recebido a carta que acabamos elaborando, "Professores com Dilma" - que, inclusive, ainda está recebendo assinaturas de apoio. A minha está lá.

O resumo é que, considerando esse cenário nada simples, acabei conseguindo reconhecer que, se o conservadorismo não foi enfrentado com a voracidade que eu sonhava, também não seria honesto negar que, de modo inédito na nossa história, foram implementados avanços sociais inquestionáveis.

Fui obrigado a considerar que você enfrentou sim aqueles que querem o Brasil da desigualdade, para quem é inadmissível que tenham sido reduzidas algumas distâncias sociais (fenômeno cuja tradução mais simbólica vem no linguajar daquela gente pequena, que vive dizendo que "aeroporto virou rodoviária").

Fui obrigado a ponderar que você enfrentou sim aqueles que querem o Brasil do atraso, para quem é inaceitável ter uma presidenta que queira reverter efeitos do racismo institucional - um dos motivos pelos quais tanto te admiro. Poucas pessoas têm a sua coragem para contrariar os que, por um lado, fingem reconhecer a igualdade genética entre os povos, mas, por outro, não admitem que os séculos de omissão do Estado são a única explicação plausível para que pretos e pardos sejam maioria entre as vítimas da violência, mas minoria nas festas de formatura.

Fui obrigado a admitir que você enfrentou sim aqueles que querem o Brasil da intolerância, para quem você não deveria "perder tempo" defendendo abertamente a criminalização da homofobia. Se os mais hipócritas "defensores da família" - gente que consegue tratar os sentimentos de amor e fraternidade como inferiores aos dogmas cegamente defendidos por grupos fundamentalistas - estão contra você, não faria nenhum sentido eu não estar a seu lado.

É claro que vamos continuar tendo nossas diferenças. É claro que você vai errar, como eu também vou. Mas, recorrendo àquele chavão popular, "só erra quem faz". Por isso eu volto, Dilma. Para ajudar a fazer. Sabendo que a caminhada é longa e dura. Mas caminharemos, companheira.

Me despeço, deixando o afeto que todo gesto político deveria ter.

Sigamos juntos.

H.B.

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