OPINIÃO
06/10/2014 18:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

O segundo turno e os inimigos do PT

21/07/2010 - Candidata do PT, Dilma Rousseff, dá entrevista ao programa 3 a 1, da TV Brasil. 

Em entrevista, Dilma afirmou ser contra a censura: "É inadmissível a censura à imprensa. Sou rigorosamente contrária a isso".

Sem citar nomes, disse ainda que considera censura a prática de algumas pessoas ligarem para diretores de jornais e pedirem para punir profissionais. "Alguém usar sua posição para telefonar para diretor de jornal e pedir para punir jornalista é censura", respondeu Dilma ao jornalista Valdo Cruz.

Sobre os programas sociais do governo Lula, afirmou que o combate à pobreza permitiu que o país saísse bem da crise do ano passado.

(com informações da Agência Brasil)

(Foto: Roberto Stuckert Filho.)

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21/07/2010 - Candidata do PT, Dilma Rousseff, dá entrevista ao programa 3 a 1, da TV Brasil. Em entrevista, Dilma afirmou ser contra a censura: &quot;É inadmissível a censura à imprensa. Sou rigorosamente contrária a isso&quot;. Sem citar nomes, disse ainda que considera censura a prática de algumas pessoas ligarem para diretores de jornais e pedirem para punir profissionais. &quot;Alguém usar sua posição para telefonar para diretor de jornal e pedir para punir jornalista é censura&quot;, respondeu Dilma ao jornalista Valdo Cruz. Sobre os programas sociais do governo Lula, afirmou que o combate à pobreza permitiu que o país saísse bem da crise do ano passado. (com informações da Agência Brasil) (Foto: Roberto Stuckert Filho.) Assista ao vídeo: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=gvF2fgNH2d4" rel="nofollow">www.youtube.com/watch?v=gvF2fgNH2d4</a> <b>Notícias sobre política, economia, internacional, cidadania, entre outros assuntos. Acompanhe diariamente a Rede Brasil Atual : <a href="http://www.redebrasilatual.com.br" rel="nofollow">www.redebrasilatual.com.br</a> </b>

Toda vez que declarei votar no PT, eu me senti em um daqueles filmes em que acusam o protagonista de ser o grande criminoso e o infeliz luta o tempo todo para provar sua inocência. Alguns, claro, vão grunhir alegando que sim, que o Brasil vai mal pela "maré vermelha" que assola o país. Outros, curiosamente, vão "concordar discordando", dizendo que de "vermelho" o PT já não tem nada e que o Brasil não avança por causa disso. Ainda assim, em respeito aos leitores, prefiro começar assumindo que, neste texto, assume-se um lado na disputa presidencial. A propósito, é bom dizer: todo texto tem seu lado, embora isso nem sempre isso seja assumido. A imparcialidade, esse nome bonito, é apenas uma mentira bem contada.

Voltando ao antipetismo: essa paradoxal convergência, em que certos esquerdistas e muitos bolsonaretes se unem como irmãos, tende a turvar a vista de quem olha desavisado não apenas para as eleições, mas para todo o processo político do Brasil pós-ditadura militar. Quem vive sua primeira ou segunda eleição neste 2014, se não buscar fontes de informação para além dos grandes meios ou das simplificações da "timeline", tende a acreditar que o Brasil era, antes do PT, um paraíso de Deus na terra.

Uns juram que, antes da primeira vitória de Lulinha Paz e Amor, o Brasil era um país livre da corrupção, com saúde e educação públicas de alto nível e acessíveis a todos e com uma carga tributária livre, leve e solta. Outros acham ainda que, além disso tudo, estivemos na iminência de transformações profundas, a um passo de descriminalizar as drogas, implementar o direito ao aborto e estabelecer o controle econômico dos meios de comunicação, metas não atingidas por puro desleixo do "sapo barbudo". É duro ter de assumir, amigos, mas não, isso nunca foi o Brasil.

Levando isso tudo em conta, um segundo turno em que se reestabelece a já velha polarização PT vs. PSDB pode ser muito bom para a discussão política nacional, por possibilitar que fiquem mais à vista as importantes diferenças que distinguem não apenas os partidos, mas os campos políticos que fazem essa disputa. Nesse sentido, é bastante recomendável analisar com minúcia quem eram no passado e quem são hoje os maiores inimigos do Partido dos Trabalhadores, oportunidade que certamente nos será novamente dada nesta segunda etapa do pleito.

Um exemplo simbólico para nos ajudar a aclarar essa névoa é o famoso debate entre Collor e Lula na Rede Globo, em 1989. Em recente entrevista, Boni, então diretor da rede, afirmou que os embates entre os candidatos estavam, na sua visão, "muito desiguais", pois Lula era "o povo" e Collor "a autoridade". Para "equilibrar" a disputa, evitando uma desastrosa vitória do "povo", a própria Rede Globo elaborou um cenário forjado, incluindo falsas denúncias contra o candidato do PT. O mais assustador: nada disso é sigiloso e nada disso causa espanto. A fonte dessa informação é uma entrevista concedida pelo próprio Boni à Globo News, cujo link deixo aqui para quem tiver curiosidade de ver.

Considerando essa passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, é impossível não analisar com espanto a abertura do Jornal da Globo em 02/10 deste ano: assim que acabado o debate entre os presidenciáveis, os apresentadores do telejornal, adotando um tom de voz intimidativo, narraram um flash de velozes notas negativas sobre o Brasil atual. Expor freneticamente um rol de mazelas, logo após um debate em que Dilma seria o grande alvo, marca bem a posição da emissora. Ainda que possam dizer que o jornal se limitou a mostrar "a realidade", adianto que, caso fossem exibidos dados da realidade favoráveis ao atual governo, certamente muitos clamariam por mais "imparcialidade".

Volto a lembrar: todos os textos têm lado. E a grande mídia, tal como em 1989, esmera-se em propagar o "antipetismo". A acusação de que o PT "mudou de lado", como se vê, vem mais de seus novos adversários que dos antigos inimigos. Estes, ciosos de seus interesses, seguem reconhecendo o PT como um partido de esquerda e o atacam por isso. Na verdade, o partido da atual presidenta é vítima de um "antiesquerdismo", que só não atinge (ainda) diretamente partidos como PSOL e PSTU por eles ainda não incomodarem o suficiente. Embora se possa dizer que, no Rio de Janeiro, Marcelo Freixo já tenha sido alvo disso, há que se pesar que o deputado - figura que inspirou o personagem Fraga em Tropa de Elite 2 - tem uma visibilidade muito além do seu partido, motivo pelo qual Freixo, e não diretamente o PSOL, fora alvejado no episódio da militante Sininho.

Alguns, repetindo um mantra moderno, vão vociferar: "os bancos nunca lucraram tanto quanto nos governos petistas". Espero não estragar o dia de ninguém, mas o nome dado a isso não é petismo, é capitalismo. No sistema capitalista, bancos lucram bastante - muitas vezes explorando economias periféricas. Ainda assim, há que se observar que o mercado financeiro não se mostra satisfeito com o PT. Pelo contrário, Neca Setúbal, ligada desde o sobrenome ao banco Itaú, estava à frente da campanha de Marina Silva e o banco Santander enviou, em julho deste ano, a famigerada carta a seus clientes "ricos", na qual sugeria ser negativa a reeleição de Dilma Rousseff.

Isso significa que os bancos são ingratos com o PT? Analisar o comportamento do grande capital em função de sentimentos como "gratidão", "respeito", "humanidade" é, para dizer o mínimo, ingênuo. Os bancos lucraram muito, mas sabem que, fosse a presidência ocupada por outros grupos, poderiam lucrar ainda mais.

No belíssimo artigo "Rentismo, fissuras no bloco no poder e as eleições presidenciais", o economista Rodrigo Alves Teixeira lembra que, em 2002, o multimilionário especulador George Soros declarou que, se Lula fosse eleito, seria o caos. O "mercado" temia que, de imediato, houvesse alguns enfrentamentos que só foram possíveis mais tarde. À época, a economia brasileira dependia sobremaneira do volátil capital especulativo, que ameaçava deixar o país (e às vezes deixava) diante de qualquer sinalização de mudança na política econômica, cuja linha mestra determinava gastar mais com pagamento de juros a rentistas do que com programas de infraestrutura (como o PAC) ou sociais (como o Minha Casa, Minha Vida e o sempre lembrado Bolsa Família). Para o "mercado", o dinheiro investido nesses programas poderia ter outro destino. Ainda que os grandes bancos tenham lucrado bastante ao participar do financiamento de grandes obras, para eles seria mais vantajoso um Brasil em que o BNDES e os bancos públicos atuassem menos e o spread bancário lhes fosse mais favorável.

Nesse cenário, não impressiona que a classe média mais conservadora e menos informada seja vítima da grande mídia - cujo papel mais visível é defender os interesses dos grupos ávidos por maior "austeridade econômica" - e se inflame contra a candidatura de Dilma Rousseff. Espanta, porém, a postura de uma parcela mais crítica da esquerda que, sem ponderar os fatores aqui apontados, limita-se a apontar o "fracasso" do PT na implementação de políticas capazes de realizar o sonho de igualdade e justiça social.

Ao eleitorado como um todo, parece muitas vezes faltar a consciência analítica necessária para distribuir com maior justiça as responsabilidades de cada ator no jogo político. Além disso, tem faltado à sociedade civil reconhecer-se como ator cotidiano nesse processo, tendo em vista que o pleno acesso aos direitos previstos na Carta de 1988 não serão conquistados pela mera participação bienal nas eleições. Pautas progressistas ferem grandes interesses, interesses de grupos cuja atuação se faz de modo orgânico e diuturno.

Se a disputa presidencial no segundo turno pode vir a deixar um importante legado, arrisco dizer que ele surgirá da tão criticada polarização PT vs. PSDB. Como será o primeiro episódio pós Jornadas de Junho em que ambos os polos se enfrentarão nacionalmente, é de se esperar que os programas e projetos fiquem mais claros. Com o maior interesse de boa parte da população sobre temas políticos, será mais difícil que algum dos jornais mais vendidos estampe em sua capa a foto de um presidenciável beijando a imagem de uma santa (como ocorreu no segundo turno em 2010), abandonando assim questões mais complexas, como os projetos para a condução da economia.

Em suma, talvez até por otimismo, tenho a esperança de que o segundo turno sirva para se aprofundar o debate das propostas, de modo a deixar mais claro em que os dois projetos de país apresentados se diferem. Se isso acontecer de fato, recorro ao velho chavão que diz "que vença o melhor" - ainda que, como declarei de início, eu tenha meus favoritos.

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