OPINIÃO
06/07/2014 11:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O acontecimento mais triste da semana

Ao contrário dos demais do time, Neymar não se limita a ser um jogador: Neymar é uma celebridade. Conhecemos seu pai, conhecemos seu filho, conhecemos sua namorada. Conhecemos seus sonhos, seus projetos e sua intimidade. Queiramos ou não.

Reprodução/YouTube

Um critério que me parece bastante objetivo para qualificar um acontecimento como alegre ou triste (se é que é possível tratar essas coisas com objetividade) é verificar a amplitude da felicidade ou da tristeza que ele causou. Nesse sentido, não hesito em dizer que a contusão do atacante Neymar e sua dramática despedida do mundial tenha sido o acontecimento mais triste da semana.

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- 'Nós vamos ser campeões', diz Neymar, fora da Copa

Alguns vão vociferar contra essa ideia, lembrando o acidente que deixou uma pessoa morta em BH, ou mesmo as constantes mazelas do Brasil, um dos países mais desiguais do planeta onde, infelizmente, a pobreza, o racismo e o machismo (talvez nesta ordem) ainda matam.

Porém muitos dos que evocarem esses eventos para se contrapor à minha tese não a terão, em verdade, compreendido.

Ao contrário dos demais do time, Neymar não se limita a ser um jogador: Neymar é uma celebridade. Conhecemos seu pai, conhecemos seu filho, conhecemos sua namorada. Conhecemos seus sonhos, seus projetos e sua intimidade. Queiramos ou não.

O resultado desse processo é que, treinado para ser onipresente entre nós e empenhado nessa missão, Neymar vira ente querido. E, sendo o craque da seleção, isso se potencializa, já que sua meta maior - ganhar o campeonato num Maracanã lotado - é a meta de todo um país.

Diante disso, em um outro momento, parece coerente cobrarmos uma maior democratização dos meios de comunicação, para que outras narrativas sejam vistas. Para nos limitarmos ao universo da Copa, comoção parecida com a que vemos no caso Neymar teria tomado o país no caso do exoesqueleto, caso conhecêssemos a trajetória do neurocienstista Miguel Nicolelis tão bem quanto conhecemos a do namorado da Marquezine. Contudo, como essas narrativas não têm interessado aos grandes veículos de imprensa (talvez por estarem muito comprometidos com os patrocinadores da seleção), a comoção pela pouca projeção dada ao projeto de Nicolelis se restringe a universos muito menores - e acaba, segundo meu critério, sendo "menos triste".

O resumo é que, num momento de sangue mais frio, podemos reivindicar uma mídia que não transforme o menino Neymar no ser onipresente cujo sofrimento comove a todos, quase sem exceção. No entanto, soa estranho negar a existência do drama de um rapaz de 22 anos que foi covardemente afastado de seu sonho (como tantos são, eu sei), e ser indiferente a isso, é bom dizer, não revela um alto grau de "politização". Revela apenas insensibilidade mesmo. Não acho que ninguém deva se orgulhar de ser assim...

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