OPINIÃO
12/05/2014 15:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

"Não quero ser racista"

Não surpreende que vários jovens brancos da universidade não saibam como lidar com a percepção de que são racistas, até porque, para muitos deles, a relação com pessoas negras provavelmente se limitava ao "bom dia" (quando muito!) ao porteiro do condomínio.

Arquivo pessoal

Stephanie Ribeiro. Uma jovem negra, que sempre estudou em escola pública, até conseguir uma bolsa governamental bastante concorrida para estudar arquitetura, curso ainda elitizado, numa tradicional universidade de Campinas. Se terminássemos aqui, teríamos o final feliz de uma dessas narrativas cinematográficas de garra e superação. No mundo real, porém, a história de Stephanie está só no começo.

Única mulher negra dos 200 alunos em seu curso, o tratamento que Stephanie vem recebendo da pontifícia universidade supostamente católica é reflexo do despreparo de muitos cursos superiores do Brasil - sobretudo daqueles frequentados predominantemente pelos filhos da elite, cuja infância e adolescência costumam ser passadas numa bolha à parte da realidade. Sem assumir qualquer compromisso com questões relativas à diversidade (fenômeno até pouco tempo inexistente nesses espaços sociais), as instituições tendem a ser omissas diante dos conflitos decorrentes da inclusão promovida pelo Prouni.

No caso de Stephanie, a estudante relata - em um corajoso texto publicado na página Blogueiras Negras - a reação da universidade quando a jovem denunciou ofensas pichadas em seu armário: "Não podemos fazer nada", foi a resposta que lhe deram.

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Comentando o pensamento de certos alunos "bem nascidos", a estudante de arquitetura noticia também algumas pérolas. Uma delas é este comentário de uma colega de curso: "Não quero ser racista, mas já perceberam como negros normalmente fedem mais que brancos, tem um cheiro mais forte". Em seguida, para demonstrar sua pretensa cordialidade, acrescentou: "Mas você, Ste, é diferente, é cheirosa".

Ao dizer "não quero ser racista", a então colega de Stephanie resume o que pensa a maioria deles. Muitos, como ela, preferem achar que o racista é o outro, o que faz xingamentos diretos, passíveis de todos os rigores da lei. Os casos cotidianos de inferiorização, os comentários "inofensivos", as "piadas" de preto, isso tudo, para muitos deles, é bobagem. Eles querem poder continuar com seu discurso impregnado de preconceito, mas sem receber a pecha de racista. Se os seus privilégios sempre lhes permitiram ficar apenas com o que a vida traz de bom, por que agiriam diferente nesse caso?

O grande problema, portanto, é que Stephanie está mostrando o que muitos no seu ambiente teoricamente acadêmico não querem ver. Vivemos sob influência de um forte discurso segundo o qual o racismo não existe, então, ao denunciar o preconceito racial, a valente Stephanie atrapalha o tranquilo sono de muitos oportunistas que certamente andaram comendo a banana do Neymar.

Não surpreende, portanto, que vários jovens brancos da universidade não saibam como lidar com a percepção de que são racistas, até porque, para muitos deles, a relação com pessoas negras provavelmente se limitava ao "bom dia" (quando muito!) ao porteiro do condomínio. Trata-se, creiam, de tema novo na realidade de muitos deles. E, em um país que gosta de lidar hipocritamente com seus preconceitos, vê-los escancarados realmente é um abalo. Abalo com o qual, se tiverem um mínimo de civilidade, esses jovens deverão lidar, afinal, a vivência universitária deve servir inclusive para isso, para que o cidadão se construa das experiências proporcionadas por esse universo. Essa oportunidade, aliás, toda a comunidade da PUC-Campinas deve à bolsista Stephanie.

Causa preocupação, porém, a atitude da instituição. Segundo relato da própria Stephanie, o diretor da universidade, acompanhado pelo diretor do núcleo em que ela estuda, ameaçam instaurar uma sindicância. Para verificar se a universidade está pronta para lidar com a questão racial? Não. Para, possivelmente, punir Stephanie. O diretor geral se mostra preocupado com a repercussão da notícia, que chateou os outros alunos, seus pais e alguns professores. De acordo com o relato da estudante, ele considerou as acusações muito graves - e são mesmo -, mas, como todo bom opressor, colocou a denúncia da vítima sob suspeita, alegando que "somos todos humanos" - como se essa grande descoberta dele negasse a existência do racismo. Para "resolver a questão", a solução proposta é reunir os alunos incomodados, os pais deles, os advogados da universidade e a jovem Stephanie, ao que nada indica, para uma conversa entre amigos.

Nesse episódio, portanto, a PUC-Campinas acaba demonstrando muito de sua visão sobre o mundo, o que certamente se reflete em sua concepção acadêmica (algo a ser considerado pelos que pretendem concorrer a uma vaga em seu vestibular). Conforme relato da estudante de arquitetura Stephanie, a instituição perde uma excelente oportunidade de promover um debate aberto sobre diversidade e preconceito, preferindo intimidar a aluna e abafar a discussão, repetindo a mesma violência que os racistas no poder empregaram ao longo de nossa história. É triste dizer, mas não há selfie com banana que possa minimizar isso. Precisamos fazer mais.

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Fonte: Ipea, 2013