OPINIÃO
14/07/2014 13:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Meritocracia e futebol

Resumir o sucesso da equipe a um "planejamento bem feito" é tirar do futebol o que ele tem de mais emocionante: a possibilidade de que nem sempre vença o melhor.

Pool via Getty Images
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JULY 13: Lukas Podolski of Germany poses with the World Cup trophy in front of a projection displaying 4 world cup winning stars, as he celebrates with teammates at a party, after winning the 2014 FIFA World Cup Brazil Final match against Argentina, at Sheraton Hotel on July 13, 2014 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Markus Gilliar - Pool/Getty Images)

Confesso que sei bem pouco de futebol. Contudo, as lições do meu Corinthians e do grande Nelson Rodrigues me ensinaram o principal: o futebol é o reino do imponderável. Como explicar, por exemplo, que em tempos de Bayer, Barcelona, Real Madrid e Chelsea, o goleiro Cássio fechasse o gol e o time do Parque São Jorge se tornasse campeão do mundo? É óbvio que não se trata de total acaso - se não torcedores do simpático São Bento de Sorocaba também sonhariam a sério com um "Projeto Tóquio" -, mas algo de imponderável há. Sempre há.

Nesse sentido, fico triste não com a vitória alemã, mas com a interpretação que se vem dando a ela. Por mais que seja louvável toda a preparação que se fez naquele país para este mundial, resumir o sucesso da equipe a um "planejamento bem feito" é tirar do futebol o que ele tem de mais emocionante: a possibilidade de que nem sempre vença o melhor.

E se, naquela atrasada malfeita do zagueiro germânico, Higuaín, cara a cara com o goleiro, tivesse acertado o chute? O imponderável preferiu que ele perdesse um gol feito... E se, no último lance, naquela cobrança de falta, Lionel Messi - que dizem ser o melhor do mundo - tivesse acertado um chute à moda de David Luiz? O imponderável não quis...

O ponto é que, quando falamos de futebol, de culinária, de economia, dos astros e das estrelas, na verdade estamos sempre falando de nós mesmos. E mostrando mais de nós do que normalmente pensamos. É por isso que fico chocado quando vejo elogios ao governo alemão por ter investido na formação futebolística de seu povo, sugerindo que devemos adotar o mesmo modelo aqui.

Os que advogam isso seriam certamente os mesmos que, esquizofrenicamente, protestariam contra a medida, dizendo - e com razão - que o governo não deve se preocupar com a seleção de futebol, mas com educação, com saúde, com muito orgulho, com muito amor.

Essa esquizofrenia, a meu modesto ver, resulta do nosso capenga culto à meritocracia. Muitos querem acreditar que qualquer outra seleção - Gana, Costa Rica, Argélia, Brasil, etc. - poderia ter "se esforçado" tanto quanto a Alemanha e ter obtido o mesmo êxito. Como se o país que se "organizou para ganhar a Copa" não desfrutasse de um estado de bem-estar social que lhe permitisse certos luxos. Como querer ganhar a Copa, por exemplo.

Vivemos uma cultura ignara que desvincula o indivíduo do contexto histórico em que ele se insere, e isso se manifesta em nossa louvação histérica ao planejamento alemão. Falamos desse planejamento como se estivéssemos tratando de um modelo possível a todos. Falamos como se aqui no Brasil o Estado pudesse tomar o futebol como prioridade, deslocando para o esporte bretão forças que devem ser empregadas - como dizíamos há poucas semanas - nas nossas reais prioridades.

O resumo é que temos todo o cuidado do mundo para elogiar a seleção da Alemanha, seu planejamento, sua organização, em suma, "seu mérito", sem jamais considerar que, já em 1961, aquele país resolveu enfrentar as desigualdades sociais e instituiu um programa de transferência de renda. Ver a história pela metade é fundamental. Só assim podemos elogiar o futebol germânico sem abrir mão de nosso tradicional esquema tático: meritocracia na defesa, culto ao privilégio no meio e, no ataque, a certeza de que Bolsa Família é esmola para gente acomodada e vagabunda.

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