OPINIÃO
02/06/2014 12:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

É coxinha, mas é meu amigo

A grande questão é que, ao mostrarem sua ignorância política, nossos coxinhas queridos deixam claro o real embasamento da sua revolta: o mais puro ódio de classe.

Lisa Romerein via Getty Images

A popularização das redes sociais trouxe - além de inegáveis vantagens - novos dilemas com que nos confrontamos a cada atualização da timeline. Destacamos aqui uma questão bem complicada: como refutar aquele simpático colega de trabalho, aquele amigo de longa data ou mesmo aquele parente querido quando, em sua atuação facebookiana, ele se mostrou um baita de um "coxinha"?

É evidente que caberia a pergunta inversa, algo como "o que fazer ao descobrir que aquele ente querido não passa de um petralha?" - para ficarmos no campo dos termos caricatos. Parafraseando Machado de Assis, contudo, diria eu que "duas considerações me levaram a adotar diferente método": a primeira é que este não é um texto imparcial (na verdade, nenhum texto é, alguns no máximo fingem ser); a outra é que parece haver um "boom" de perfis conservadores nas redes sociais, produzindo em escala industrial mensagens contra o Bolsa Família, contra a "ameaça comunista" ou contra qualquer outra ideia que coloque em xeque os históricos privilégios "compartilhados" há séculos por reacionários de todo tipo.

Nesse novo cenário, conheço muita gente que diz "não vale a pena se estressar", "eles não vão mudar de opinião", "política não se discute" e essas coisas de sempre. No entanto, venho defendendo que não devemos ser coniventes com o discurso conservador. Isso porque o maior problema das mensagens reacionárias não é apenas serem contra programas sociais (mesmo que eles mal façam cócegas nas estruturas de privilégio de um dos países mais desiguais do mundo) ou coisa do tipo. A grande questão é que, ao mostrarem sua ignorância política (seja confundindo executivo com legislativo, seja desconsiderando a atuação do grande capital no incentivo à corrupção), nossos coxinhas queridos deixam claro o real embasamento da sua revolta: o mais puro ódio de classe.

Diante da ebulição política que vivemos, resultado de uma crescente busca por direitos básicos (educação, saúde, transporte, moradia, etc.), fazer vista grossa a esse ódio de classe é ser conivente com ele. E o "silêncio dos bons" é fundamental para que as coisas não mudem. "Mas é minha tia", alguns vão dizer. "Vou arranjar problemas na família", dizem outros. São respostas de gente que, embora se julgue progressista, insiste em viver naquele velho Brasil das relações cordiais - nos termos de Sérgio Buarque de Holanda -, no qual as questões privadas sempre se colocam acima das questões públicas.

Se, por azar, seu tio é um desses patéticos direitistas que defendem absurdos como "o direito universal e sagrado de poder ter um banco" (ainda que a única relação dele com uma instituição financeira seja o limite estourado do cheque especial), é importante sim questioná-lo. Não só porque, em geral, essas figuras destilam seu elitismo (mesmo que estejam muito afastadas da elite) e seu ódio de classe sem se incomodar com quem pensa diferente, mas sobretudo porque são os questionamentos (de ambos os lados) que trarão maturidade à nossa participação política.

Por séculos, os conservadores viveram um mundo do discurso único, onde o único pensamento aceito e possível era o deles. Mas isso vem mudando, mesmo que muitos de nós, progressistas, nos calemos "para evitar confusão". É necessário, portanto, que mais gente supere a mera "discordância silenciosa", justamente porque precisamos separar o que é privado do que é público. Quando alguém posta uma mensagem política no seu Twitter ou Facebook, essa pessoa, conscientemente ou não, abre um canal para o debate. E é possível aproveitá-lo sem ser desrespeitoso, sem ser grosseiro, sem romper relações afetivas. Se me permitem uma dica, curtir uma foto fofa do reaça depois de questionar seus argumentos ingenuamente fascistas pode ser um recurso. É um modo de dizer "não é pessoal, cara". Seja como for, precisamos enfrentar essas situações. Afinal, já faz um tempo que estamos em um novo Brasil, onde política se discute sim.

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