OPINIÃO
11/08/2014 00:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Carta aberta a Dilma pela laicidade

A gota d'água veio, implacavelmente, das suas próprias redes sociais: nos últimos dias, sua campanha optou por rifar a laicidade de nosso Estado, ostentando uma abertura temerosa na busca por votos.

EVARISTO SA via Getty Images
Brazil's President Dilma Rousseff, candidate of the Workers' Party (PT) for October's presidential election, waves after a press conference at Alvorada Palace in Brasilia, on August 10, 2014. Rousseff will face Senator Aecio Neves, candidate for the Brazilian Social Democratic Party (PSDB) and Former Pernambuco state governor Eduardo Campos, candidate for the Brazilian Socialist Party (PSB). AFP PHOTO/EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Cara Dilma,

Se eu escrevesse para dar boas notícias, talvez conviesse o suspense e o mistério, pois a aflição da espera seria compensada pelo regozijo da boa nova. Como o que tenho cá comigo é uma notícia triste, serei breve: não posso mais continuar com você.

Sendo brusco desse jeito, pode parecer que guardo mágoas e rancores. E talvez guarde mesmo. Mas não importa. A questão é que, pela primeira vez, apesar de tantas dificuldades que enfrentamos em nossa relação, sinto-me realmente traído.

Já esclareço que não está em jogo nenhum desses escândalos forjados, que a grande mídia insiste tramar diante de qualquer política pública suavemente avermelhada. A isso, graças a deus, você sabe que cultivei certa imunidade.

A gota d'água, creia, veio, implacavelmente, das suas próprias redes sociais: nos últimos dias, sua campanha optou por rifar a laicidade de nosso Estado, ostentando uma abertura temerosa na busca por votos.

Dilma, quando li sua frase que começava com "o Estado brasileiro é laico, MAS", recebi uma espécie de golpe final. Na hora, me lembrei de frases como "eu não sou machista, mas...", "eu não sou homofobico, mas..." ou "eu não sou racista, mas".

Por mais que o mundo tenha mudado muito em relação à época em que a luta armada era uma das poucas alternativas disponíveis, alguns temas, companheira Dilma, ainda não nos deixam muita margem para concessões (para não dizer margem nenhuma). E tenho certa convicção de que a laicidade é um deles.

Você sabe que a questão aqui não é religiosa. Apesar de tantos sinais que deus já nos deu de sua inexistência, eu ainda não fui capaz de me converter ao ateísmo. Ainda assim, pelo bem da democracia, deixo de lado minha fé e prefiro seguir as leis que efetivamente possibilitam a tolerância e a vida em comunidade.

Porque a fé é cega, mas a vida democrática exige visão ampla. Porque a fé impõe dogmas, e a vida democrática requer análise e reflexão. Porque a fé emana do indivíduo, e a democracia emana do cidadão.

Por isso, Dilma, acho melhor que cada um de nós dois siga o seu caminho. Isso não quer dizer que "dei pra maldizer o nosso lar/ pra sujar teu nome/ e te humilhar e me vingar/ a qualquer preço", como diz a canção do Chico.

Não vou esquecer que, no auge das Manifestações de Junho, você foi corajosa o suficiente para apontar a necessidade de uma reforma política, pauta prontamente abafada pelos setores aos quais a mudança não interessa. Não vou deixar de defender programas de esquerda que seu governo implementou e vem implementando (mesmo que tímida e emergencialmente), além das políticas que foram mantidas do governo anterior.

Não vou desconsiderar sua busca por tornar nosso país menos alinhado ao ridículo imperialismo de Washington, enfrentando para isso muitos vira-latas brasileiros que latem ferozmente contra você.

Continuarei contra aqueles que a desrespeitaram nos estádios. Continuarei aplaudindo seus acertos. Mas não posso mentir: minha vontade agora era ver uma guinada à esquerda no eleitorado.

Ficaria muito feliz em ver um levante republicano e democrático que, em favor da laicidade, fizesse sua campanha naufragar. Seria um recado a todos os governantes: "não mistureis política e religião" - ou, como diz uma frase de que eu gosto, "religião na política é má-fé". Mas, nós dois sabemos, não é o que vai acontecer: a aproximação com o fundamentalismo religioso vai impulsionar sua votação e você vai ser reeleita, com a graça de deus.

No fim, Dilma, embora eu que esteja aqui anunciando nosso término, quem acabou com nossa relação foi você, quando preferiu ir com eles. Espero que entenda, não tive escolha.

Guardo saudades.

Um beijo.

Henrique.

Obs.: fico com o disco do Pixinguinha sim, o resto é seu.

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