OPINIÃO
22/05/2014 14:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A greve nos transportes e os deformadores de opinião

Nesse cenário complexo, não tive a sorte de presenciar um debate franco, em que essas distintas - mas complementares - variáveis tivessem sido simultaneamente consideradas. Como cada lado tem defendido sua posição sem se preocupar em refutar as razões do oponente, cria-se a impressão de que cada um está preocupado em impor a "verdade" mais conveniente, não em tentar compreender este momento.

FELIPE RAU/ESTADÃO CONTEÚDO

Nos últimos dias, a cidade de São Paulo viveu, se não o caos propriamente dito, um alardeado clima de caos. Em meio a esse cenário bastante turbulento, confesso que tem me causado surpresa - e talvez até uma dose de inveja - a rapidez com que diferentes olhares progressistas conseguiram formar incontestáveis opiniões sobre a paralisação dos ônibus na capital.

De um lado, simpatizantes ou mesmo defensores do governo federal (capitaneado, nos limites da realidade brasileira, por uma presidenta de esquerda) se apressam em deslegitimar a greve dos motoristas e cobradores de ônibus, possivelmente temendo o efeito eleitoral do levante - que os jornais mais vendidos relacionam diretamente à figura do prefeito Fernando Haddad (PT). O argumento fundamental: como, em assembleia, a categoria tinha decidido aceitar o reajuste proposto, essa paralisação é liderada por grupos ilegítimos cujos interesses são suspeitos.

De outro lado, setores que se veem mais à esquerda defendem a greve seguindo um princípio incondicional. O raciocínio - simples, mas não necessariamente equivocado - é o seguinte: como todo trabalhador é um explorado pelo capital, toda greve para reivindicar melhores condições é justa. Uni-vos e amém!

No meio dessas certezas propagadas por ambos os lados, o que me resta são complicadas questões. A primeira é que, mesmo havendo motivos para deslegitimar as lideranças do levante, não é tão simples analisar a adesão dos trabalhadores. Não é absurdo pensar, por exemplo, que a atitude individual de cada motorista e de cada cobrador tenha relações fortes com o legado deixado pelas Jornadas de Junho - as quais, não nos esqueçamos, tinham a redução das tarifas do transporte coletivo como foco.

Nas manifestações do ano passado, ficou evidente que o impulso individual dos manifestantes estava acima de uma possível relação umbilical com as lideranças. Quem duvida de que muitos foram às ruas sem sequer saber o significado da sigla MPL? O sentimento de insatisfação coletiva talvez tenha sido a maior força atuando naquele momento e, possivelmente, a adesão de motoristas e cobradores a uma greve não liderada pelo sindicato seja, sim, resultado desse "espírito de época". Deslegitimar isso é deslegitimar um novo modo de participação política que, se bem conduzido, pode pressionar o poder público e promover os avanços sociais tão sonhados pelos partidários da esquerda.

Ainda assim, sem deixar de reconhecer as greves como um legítimo direito constitucional (uma conquista da democracia), é ingenuidade não levantar ao menos a hipótese de que oportunistas tenham mesmo se aproveitado da situação. Não só porque há muitos anos de fala em "máfia dos transportes" em São Paulo, mas sobretudo porque a paralisação foi feita sem aviso, o que é uma estratégia bem estranha.

Como as greves são um meio e não um fim, o comum é decretar "estado de greve", uma espécie de ameaça. Algo como "Se não formos atendidos até o pôr-do-sol, o bicho vai pegar!" Sem essa ameaça, não se criou a possibilidade, ainda que remota, de que motoristas e cobradores descontentes tivessem suas reivindicações atendidas sem a necessidade de tamanho desgaste. Dessa maneira, parece possível sim que a intenção de paralisar a cidade e criar condições para que a palavra "caos" estampasse os noticiários esteve acima dos interesses da classe trabalhadora. Com que finalidade? Não há resposta unívoca, existem apenas suposições.

Nesse cenário complexo, não tive a sorte de presenciar um debate franco, em que essas distintas - mas complementares - variáveis tivessem sido simultaneamente consideradas. Como cada lado tem defendido sua posição sem se preocupar em refutar as razões do oponente, cria-se a impressão de que cada um está preocupado em impor a "verdade" mais conveniente, não em tentar compreender este momento. E isso não é necessariamente resultado de má-fé: um fator que não se pode ignorar é o quanto ficamos todos subordinados ao tempo da internet, que nos possibilita ter acesso à informação em tempo real e nos exige estarmos conectados e atuantes o tempo todo. Nesse ritmo, é realmente difícil não recorrer a fórmulas prontas, então corremos o risco de estar sempre presos àquela velha opinião formada sobre tudo.

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