OPINIÃO
13/06/2014 15:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A copa das tropas

O saldo? É que vai ter Copa. Mas vai ter luta.

Getty Images
A man holds a placard that reads 'Cup for Whom?' next to riot police during a demonstration against the 2014 FIFA World Cup in Belo Horizonte, Brazil on June 10, 2014. AFP PHOTO / Juan Mabromata (Photo credit should read JUAN MABROMATA/AFP/Getty Images)

A Copa do Mundo no Brasil já está marcada como a "Copa das Tropas". Não só pela atuação de forças militares na repressão a protestos da população, mas sobretudo pelo embate, supostamente ideológico, entre grupos que tentam dar ao evento esportivo o significado mais conveniente a seus interesses - sejam estes confessáveis ou não.

Do lado dos movimentos sociais, a recente entrevista concedida por Guilherme Boulos - um dos líderes do MTST - ao canal Fluxo traz, muito possivelmente, a visão progressista mais madura possível sobre o tema. Para ele, há sim o risco de que, mal conduzida, manifestações contra a Copa sirvam para na verdade fortalecer o discurso mais perigoso que vimos nas Jornadas de Junho, o discurso despolitizado dos que, ingênuos diante do jogo político, limitam-se a cantar o hino nacional e a gritar "sem partido", servindo como massa de manobra para o fortalecimento do nosso pior conservadorismo.

O líder do MTST considera ainda que, a despeito disso, a Copa do Mundo tem um peso simbólico capaz de, neste momento de agitação política, potencializar a pressão sobre o Estado, para que se adotem políticas públicas mais à esquerda. Nesse sentido, a recente sinalização de que recursos do "Minha Casa, Minha Vida" poderão ser geridos diretamente pelo movimento social, sem intermédio de grandes construtoras, aparece como importante vitória das manifestações por moradia feitas nesse contexto que vivemos.

Outra tropa que muito tem se pronunciado sobre o evento é a do "Imagina na Copa". Ao contrário do MTST, não se trata de um grupo organizado em prol de alguma causa, mas sim de uma classe média que, tradicionalmente, sente certa vergonha de ver-se como parte de uma coletividade à qual nunca quis pertencer. Indignados com os pequenos avanços sociais dos últimos anos, estão nessa frente os que dizem que no Brasil "tem bolsa pra tudo" - embora estejamos muito distantes do estado de bem-estar social da Europa com que essas mesmas pessoas tanto sonham.

Para este grupo, o "Não vai ter Copa" tem um significado muito distinto do que lhe atribuem os movimentos sociais: enquanto estes veem na "hashtag de ordem" um grito contra os avanços do capital, aqueles não têm condições de enxergar nela um palmo além do simplista "Fora PT".

Em sua limitada visão de mundo, essa classe média mais conservadora acha que toda a precariedade dos serviços públicos é fruto de políticas do governo federal implementadas nos últimos 12 anos (até mesmo quando se trata de serviços como a educação básica, que é gerida em nível municipal e estadual). Para eles, é impossível entender que o drama da gestão pública no país se deve em primeiro lugar ao modo como as grandes empresas aqui instaladas se apropriam regularmente dos recursos do Estado, com uma voracidade de fazer qualquer FIFA sentir inveja.

Em meio a esse caldeirão, o fato é que, às vésperas de seu início, a Copa de Mundo ainda não criou o tradicional sentimento de união nacional, que poderia ser direcionado inclusive para que a sociedade civil, organizada, pautasse os governos com vistas à implementação das políticas públicas de que precisamos. Em vez disso, o que se criou foi um certo clima de constrangimento: mesmo os que apoiam o evento e já estão de churrasco marcado, têm um certo pudor em manifestar sua empolgação, menos verde que amarela.

Ainda assim, arrisco afirmar que a "Copa das Tropas" deixa um grande legado, que não é algo material, visível, palpável, mas algo muitíssimo mais precioso: trata-se da consolidação desta sociedade mais interessada na política, ainda que nosso precário acesso à educação e à informação interfiram na nossa capacidade de julgamento. O saldo? É que vai ter Copa. Mas vai ter luta.

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