OPINIÃO
28/05/2014 09:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A cobertura da cobertura

ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO

Poucos se dão conta, mas as eleições deste ano já estão marcadas por um fenômeno inédito: o uso de páginas pagas em redes sociais. Aparentemente apartidários, seus administradores são regiamente financiados por partidos, seja para promover candidaturas, seja para atacar adversários. A maioria dos eleitores, entretanto, ainda alheios a essa guerra bem pouco virtual, acaba se tornando alvo fácil de um modo superficial e perigoso de se fazer política.

Um episódio recente desse triste enredo foi noticiado semana passada: o perfil Dilma Bolada teria sido assediado por uma agência de publicidade que presta serviços a campanhas do PSDB. O fato é esse. As interpretações possíveis são muitas. Em São Paulo, um importante jornal parece, de modo sutil, ter assumido um lado ao relatar o ocorrido a seus leitores e, ao fazê-lo, ter perdido uma importante oportunidade de lançar luz sobre esse terreno ainda sombrio. Pelo menos é isso o que sugere a crítica feita pela pelo tumblr A Bolha de S. Paulo.

Reproduzo abaixo o texto deles - que fala por si. Deixo um alerta, porém, para os menos avisados: o texto pode conter fortes doses de ironia. Cuidado!

Todo mundo tem segredos. Com a gente aqui da Bolha, não poderia ser diferente. No entanto, para reforçar nossa relação de confiança e estima com os amados leitores, vamos revelar algo confidencial: a gente lê páginas petralhas no Facebook...

Mas não se assustem: a gente continua do lado dos Admiradores da Sheheranazi e do TV Sem-volta, como bons coxinhas que somos. A gente só lê perfis que se dizem "progressistas" (como se dar bolsa pra pobre fosse progresso...) para saber os absurdos que essa gentinha anda falando.

Dia desses, ficamos passados! O perfil Dilma Bolada publicou uma conversa entre seu administrador e uma agência de publicidade, a qual tentou "comprar" a página para, segundo palavras do aliciador, "aproveitar o personagem para mudar opiniões".

De um lado, entendemos: quem vota no PT não deve precisar de nada muito sofisticado para "mudar de opinião". De outro, chilicamos: não basta todo o empenho do povo que vive na bolha, da Sheheranazi, da TV Tucanolta e de todos os jornais mais vendidos de S. Paulo? Mesmo com tudo o que fazemos, nossos amados políticos conservadores ainda precisam aliciar petralhas para ter chances nas eleições?

Ainda assim, superando qualquer melindre e demonstrando a imparcialidade necessária para defender nossos interesses, o jornal mais vendido de S. Paulo divulgou o ocorrido da maneira mais correta possível. O título: "Dilma Bolada negociou passe com tucanos". Ótimo! Segundo o que ensinam em qualquer 7ª série mequetrefe, o sujeito da frase é quem pratica a ação. Sendo assim, se a frase fosse "Tucanos negociam passe de Dilma Bolada", ia dar muito na cara o desespero da nossa turma. Colocando "Dilma Bolada negociou", qualquer leitor meia boca pensa logo: "Que oferecida! Por que ela foi negociar com tucanos! Ponha-se no seu lugar!"

Num deslize, é preciso apontar, a notícia começa seu segundo parágrafo assim: "As negociações foram iniciadas por meio de uma agência especializada em gerenciar perfis famosos na rede". Mas até aí, Inês tava mortinha e enterrada: o título é tudo, bebê! Fica todo mundo achando que a Bolada foi atrás deles e pronto. Fora a gente aqui, quem mais tem saco de ler a notícia inteira e ainda ficar procurando pêlo em ovo?

No terceiro parágrafo, destacamos um momento de brilhantismo: a notícia diz que Jeferson Monteiro, criador do perfil avermelhado, tratou com "o especialista em redes sociais que presta serviços para o PSDB - mas não é formalmente vinculado à campanha, Pedro Guadalupe". Genial! Por um lado, menciona-se de relance o partido favorito da Bolha como o mandante do aliciamento sujo, dando ares de imparcialidade à notícia. Por outro, toma-se o cuidado de dizer que o aliciador não é "formalmente" vinculado à campanha (deixando só implícito que sim, ele tem ao menos um vínculo informal com a turma que há mais de 20 anos vem promovendo o progresso de S. Paulo, um estado muito bem administrado).

Por fim, podemos afirmar que, mais uma vez, o jornal mais vendido de S. Paulo deixa evidente algo que estamos dizendo faz já um tempo: informar é humano, mas manipular, manipular meus amigos, é divino!

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