OPINIÃO
22/01/2015 19:15 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Jaqueiras cheirosas

O maior problema de adorar jaca? Como a freguesia não é muita e elas costumam ser imensas (há jaca de dois, cinco, 10, 20, 30 quilos, e há que diga que já viu até de 50 ...), é complicado - e gulodice - comprar ou colher e abrir uma inteira pra uma pessoa só.

Quando eu tinha oito anos, fui conhecer a fazenda da família no interior da Paraíba, em Araruna, perto de Campina Grande. A viagem foi divertida, meus pais, meu avô, acho que um tio e o meu bisavô "Nô Lima", todos num jipe, minha irmã e eu nos banquinhos da traseira com duas galinhas.

Eu me lembro da casa com uma varanda grande, do vovô Nô arreando um cavalo, da bacia cheia de cajus que viraram cajuada assim que a gente desceu do jipe e de uma fruta imensa, de casca grossa e enrugada na mesa da cozinha. Quando eu olhei pra fruta, alguém logo disse que a gente estava na terra das "jaqueiras cheirosas", que davam montes de jacas dependuradas em cipós grossos que saiam direto dos troncos, que as jacas eram muito, mas muito doces, que de tão grandes alimentavam a família inteira. Que dava pra abrir cortando ao meio com uma faca, ou puxando com as mãos, e, então, era só soltar os bagos amarelos e comer, cuspindo o caroço. Que aquela era uma jaca mole, mas que também havia jaca manteiga e jaca dura, mais firme, um tanto menos doce, mas com muito leite grudento (achei isso tão engraçado que ela explicou que pra não ficar com a mão colada na jara era preciso lambuzar as mãos de óleo).

Coloquei um bago na boca, que escorregou pela língua, então mordi e senti um puxa puxa e o caroço que se soltou com facilidade, daí cuspi o caroço e segui mastigando aquela pedaço suculento de uma fruta com gosto marcante, doce, delicioso e perfumado, até que engoli, achei aquilo maravilhoso e comi mais um e mais um e mais um até a minha mãe dizer que era melhor parar pra conseguir jantar (dizer "chega" pra uma coisa assim tão boa é duro).

Fui fisgada pela jaca pra sempre e, desde aquele tempo, tento explicar aos desconfiados que jaca é tudo de bom e que só experimentando para entender, mas a tarefa é dura, as pessoas têm uma rejeição impressionante e do nada, dizem que detestam sem ter comido um pedacinho sequer.

O maior problema de adorar jaca? Como a freguesia não é muita e elas costumam ser imensas (há jaca de dois, cinco, 10, 20, 30 quilos, e há que diga que já viu até de 50 ...), é complicado - e gulodice - comprar ou colher e abrir uma inteira pra uma pessoa só (meu marido come uma meia dúzia de bagos, minhas filhas dizem que o cheiro é horrível e "odeiam", mas nem experimentaram). Quando como, sempre penso na tia Wanda, irmã da minha avó Betty, que amava jaca. Quando vejo uma jaca na feira, peço um baguinho pra matar um tico da vontade e compro um pedaço, deixo na geladeira e como aos poucos a "preciosidade".

A festa acontece na praia, em Toque-Toque Pequeno, São Sebastião, com as jaqueiras altas e frondosas, com folhas lindas e que, com o calor tropical, crescem felizes e dão jacas aos montes (a sombra da árvore é tentadora, não dá pra esticar uma rede, pegar um livro e arriscar uma jacada na cabeça).

No verão, tem tanta jaca que muitas despencam e se espatifam no chão e ninguém se importa, sobra jaca. Na porta de casa, há uma jaqueira enorme, que está sempre carregada e eu me esbaldo, escolho as menores bem maduras, macias, mas ainda firmes, não se desmanchando, abro, solto os bagos, coloco tudo num pote na geladeira e passo o dia beliscando e tomando suco de jaca (bato no liquidificador com gelo, água ou leite), faço sorvete, picolé ou coloco uns bagos sem caroço no freezer e como como se fosse um sorvete de pura fruta.

A casca grossa vai pro lixo, mas os caroços não devem ser desperdiçados: como fazem os caiçaras, cozinho os caroços numa panela com bastante água e sal por uns 40 minutos, até que estejam bem macios (eles se desmancham como feijão quando a gente esmaga com os dedos), escorro, esfrego cada caroço com as pontas dos dedos pra soltar a pele, que se desprende e estufa quando ele amacia, e uso como pinhão ou batata. Dá pra fazer purê, ou passar na manteiga, dá pra usar na massa de pão, como se fosse mandioca ou batata, dá pra fritar, dá pra colocar na farofa (um caiçara me disse que fazem farofa com ovas de peixe e caroço de jaca) e, como na Índia, fazer ensopados saborosíssimos com curry, leite de coco e pimenta.

Tem gente que usa jaca verde pra refogar e fritar, mas eu prefiro jaca madura, que vira moqueca, doce em calda, em pasta ou cristalizado (lindo é delicioso), vira chutney (comi um inesquecível com um pedaço de pão num restaurante indiano em Liverpool, na Inglaterra) e, nuns 20 minutos, enche um pote com uma geléia brilhante, pastosa e saborosa. Quer a receitinha da geleia? Numa panela média, coloque 1 xícara de água e 1 ½ xícara de açúcar e aqueça, mexendo só até dissolver, então junte umas 4 xícaras de bagos de jaca sem caroço (aperte o bago com as pontas dos dedos pra retirar o caroço) e mantenha no fogo por uns 20 minutos, até jaca amolecer, brilhar e a calda encorpar. Se quiser uma geleia mais pastosa, mexa pra ajudar a desmanchar os pedaços (se o doce estiver secando antes dos pedaços se desmancharem, junte um pouco de água). Passe a geleia pra um pote e guarde na geladeira por até duas semanas.

Pra quem quer saber mais? O nome dela é Anthocarpus integrifolia, é nativa da Índia, mas há quem diga que também aparecia na Oceania, em malaio é chakka, veio parar no Brasil com os portugueses e foi se espalhando de um tal jeito que hoje aparece em tudo o quanto é lugar quente do litoral e do interior, gostou tanto dessa terra que dá a impressão de ser "daqui". A fruta é rica em cálcio, fósforo, cobre, ferro e iodo, fibras, anti-oixdantes, carboidratos, vitaminas A, C e do complexo B.

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