OPINIÃO
24/07/2014 15:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Friozinho, araucárias e pinhões

Depois da overdose de Copa do Mundo, sumi com marido e filhas pelo sul do Brasil. Um funcionário do hotel chegou com uma cesta de pinhões crus, espalhou tudo sobre uma grande panela de ferro para que eles assassem sobre o fogaréu. Lembrei da farofa.

Depois da overdose de Copa do Mundo, sumi com marido e filhas pelo sul do Brasil. Queria uma viagem leve, tranquila, pra descansar mesmo, viajando de carro, parando dois ou três dias em lugares charmosos e descontraídos e, principalmente, com a natureza exuberante ao redor. Foi exatamente isso que aconteceu. O campo é encantador, as colônias dos imigrantes italianos e alemães são interessantes e cheias de casas lindas, o aconchego do friozinho é bom e sempre tem mais uma coisa gostosa pra comer, ainda que só pra experimentar. É um prato cheio pra quem, como eu, gosta de comida rústica e artesanal, com muitos queijos, embutidos, vinhos e sucos de uva, geleias, pães, cucas e biscoitos, sopeiras com capeletti divinos em brodos saborosíssimos, galetos ultra saborosos. Tudo fica ainda mais emocionante quando a natureza entrega quase pronto, a quem passa por perto, algo simples e bom demais pra comer, e é exatamente isso que acontece com as araucárias e os pinhões.

No primeiro dia da viagem, ainda no Paraná, vendo os primeiros bosques de araucária e passando por uma cidade que se chama Pinhão, senti a "primeira vontade" de comer pinhão. Os dias foram se passando, os bosques de araucária foram aumentando e a vontade de comer pinhão também. Na Serra Gaúcha, a vontade de comer pinhão já era bem grande, olhava os pinheiros e sonhava com pinhões cozidos macios pra comer aos poucos ou com arroz com pinhão, farofa com pinhão, paçoca de pinhão, bolinho de pinhão e outras receitas apetitosas.

Até que chegou o meu dia do pinhão. A partir de Nova Petrópolis e a caminho de Cambará do sul, a estrada cortava bosques intermináveis de araucária e, de tempo em tempo, beirando o caminho, uma fumaça saindo de uma chaminé meio improvisada avisava que a barraca vendia sacos de pinhão cozido e bem quente, pronto pra comer na hora, no carro mesmo. No meio da tarde, cheguei ao Parador da Montanha, um hotel maravilhoso e que fica perto dos canyons de Itambezinho e da Fortaleza. No final da tarde, veio o convite pra contemplar o pôr-do-sol num banco circular ao redor de um fogo de chão, que, por si só, já era o máximo. Pra minha surpresa e pra completar o dia pinhão, um funcionário do hotel chegou com uma cesta de pinhões crus, espalhou tudo sobre uma grande panela de ferro para que eles assassem sobre o fogaréu. Por uns 40 minutos, alguém se levantava e, com uma pá que lembrava um rastelo, dava uma mexida nos pinhões pra que eles assassem por igual. Quando os pinhões douravam por fora, era só pegar um deles, colocar sobre uma tábua, dar uma martelada pra quebrar a casca e comer. Matei a vontade, comi tantos pinhões que, no jantar, não consegui comer quase nada.

Já em São Paulo, mas ainda no clima pinhão, comprei um pacote no supermercado. Cozinhei tudo, descasquei os pinhões com um apetrecho que facilita muito o trabalho e usei metade pra uma sopa de pinhão e o restante pra uma farofa, pois amo farofa.

Quer a receitinha de uma farofa de pinhão bem de roça? Dá pra umas 4 pessoas e vai bem com arroz e feijão. Doure uns 200 g de bacon em cubinhos até ficar bem crocante e seque bem (descarte a gordura). Numa frigideira grande, doure uma cebola picada nuns 50 g de manteiga, depois junte o pinhão e espere aquecer. Acrescente umas 2 xícaras de farinha de milho biju, um pouco de sal, o bacon e misture até ficar crocante, acerte o sal, junte salsinha picada e pronto.

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