OPINIÃO
05/03/2014 15:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Era uma vez uma romanzeira...

Era uma vez uma romanzeira que cresceu e cresceu, deu frutos aos montes, abasteceu a cozinha com sementes suculentas, até que, num dia de verão, depois de deixar que colhessem seus frutos tentadores, que foram lindamente fotografados quase que como uma despedida, ficou tão aterrorizada com os raios e trovões de uma tempestade apavorante que caiu e morreu.

Incrível, não é? Mas foi exatamente isso que aconteceu na minha casa. A romanzeira nasceu no jardim ao lado da sala de jantar e ficou tão grande que passei a colher os frutos lá do alto simplesmente esticando o braço pela janela do meu quarto. Todo ano, eu colhia as romãs bem vermelhas e maduras, algumas até começando a rachar, soltava as sementes rosadas e brilhantes, como pedras preciosas, usava como suco, pra incrementar saladas e pra preparar xarope. Numa manhã linda de dezembro, fiquei radiante quando enchi uma gamela com romãs colhidas bem cedo e, mais feliz ainda, quando o Romulo Fialdini - o "meu fotógrafo mais querido" - chegou em casa pra fotografar vários pratos, ficou encantado com elas e tirou uma foto. Na mesma noite, caiu uma tempestade medonha, com raios, trovões e um vento tão forte que a romanzeira amanheceu no chão, com as raízes pra fora e terra pra tudo o quanto é lado. Liguei chorando pro Romulo, que me mandou a foto pra que eu nunca me esquecesse das romãs. Com elas, fiz um xarope maravilhoso, que usei gota a gota pra que não acabasse logo.

roma

Pensando bem, tive romanzeiras nas três casas em que morei depois que me casei. Sempre ouvi dizer que elas davam sorte, mas plantei porque gosto das flores alaranjadas e delicadas e da fruta linda e saborosa. Na verdade, eu me apaixonei pra valer pelas tais pedrinhas preciosas numa viagem ao Egito, principalmente quando visitei Alexandria e comi romãs ultradoces pela rua. Foi nessa época que aprendi a abrir uma romã rolando a fruta inteira sobre uma superfície lisa e apertando bem, depois abrindo e separando as sementes das partes esbranquiçadas e que amargam qualquer preparação. Também aprendi que o melhor jeito pra extrair o suco ainda é o tradicional: colocar as sementes no centro de um pano limpo, juntar as pontas pra fazer uma trouxa e espremer com força até o suco de cor estonteante terminar. Os refrescos que tomei no Egito eram mega refrescantes, a salada fatoush da minha querida Leila Kuczynski, do Arábia, me mostrou que as sementes de romã realmente não entram na receita só pra embelezar, elas dão sabor e textura ao prato, e num livro antigo de uma senhora da Turquia aprendi a preparar um xarope nota 10 e com ele faço molhos, pastas e coloque no recheio de esfilhas. Se eu já tinha esses bons motivos pra gostar das romãs, ganhei mais um quando li Sombras da Romanzeira, do Tariq Ali, um romance sensacional que se passa em Granada (vale a pena ler).

Há algum tempo, aprendi um jeito ainda mais simples de soltar as sementes: corto a romã ao meio, como laranja, seguro uma metade com o lado cortado pra baixo e bater na casca com uma colher de pau pra soltar as sementes, que caem na tigela, depois desviro a casca pra soltar as sementes que sobrarem e descarto as partes brancas. Pra extrair o suco, continuo fiel ao método da trouxa de pano (como o rosado do pano não sai, guardo um velhinho só pra isso). Pra beber, basta gelar, nem adoçar précisa, de tão doces que são. Pro xarope, coloco bastante suco numa panelinha e deixo reduzir até encorpar e cobrir o dorso de uma colher, como se fosse groselha, então junto um pouco de açúcar e de suco de limão pra conservar, deixo ferver por uns minutos e guardo na geladeira. Também já usei as cascas da romã pra tingir tecidos de algodão, que ficam bem amarelos, muito bonitos.

Pelo que se sabe, a romanzeira - Punica granatum - é natural da região da Ásia Menor e Irã e, há milênios, já era considerada uma árvore sagrada, ligada ao amor e à fecundidade, tanto que os egípcios usavam nos seus cultos, os gregos associavam a fruta à deusa Afrodite e os romanos continuaram na mesma linha. Na Bíblia, a romã também aparece e os judeus usam romãs nos rituais de passagem do ano, pois acreditam que ela ajuda a fazer com que o ano que chega seja melhor do que o que termina. E há quem jure que 3 sementinhas na carteira não deixam dinheiro não faltar.

A romã tem várias propriedades medicinais, ajuda a controlar o colesterol e a pressão arterial, alívia sintomas de artrite, diminui diarréia, auxilia o trabalho de parto.

E quais as melhores romãs do mundo? Pergunta difícil... Além das brasileiras, que são bem boas, eu já comi européias espanholas e francesas provençais e egípcias excelentes, mas sei que há italianas, gregas, turcas, sírias, libanesas, além das iranianas, iraquianas e das afegãs, consideradas as melhores por muita gente. Enfim, boas romãs não faltam.

Quer uma receitinha?

A pasta de frutas secas com gostinho de romã está dentre as minhas favoritas e vai bem com pão sírio e salada verde: Numa frigideira seca, aqueça 1/2 xícara de chá de nozes, 1/3 de xícara de chá de pistache sem casca já torrado e umas 2 colheres (sopa) de pinoli, espere perfumar e coloque numa tigela. Junte 1 xícara de pão torrado esfarelado, 1 pimentão vermelho em cubinhos, 1 cebola picada, 1/3 de xícara de chá de uva-passa, 1 dente de alho picadinho, o suco de meio limão, 1 colher de sopa de extrato de tomate, 3 colheres de sopa de xarope de romã, sal e a pitadas de pimenta-síria. Aos poucos, regue com azeite de oliva e misture até virar uma farofa bem molhada. Acerte o sal, junte um bom tanto de salsinha e hortelã picadas, cubra e deixe na geladeira por umas 2 horas, ou guarde na geladeira por até 3 dias.