OPINIÃO
08/08/2014 16:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Cozinhar é o máximo

Arquivo pessoal

Uns gostam do azul, outros do amarelo e pouquíssimas coisas são tão incríveis e maravilhosas que sempre encantam. Comer é uma delas. Uns gostam mais, outros menos, uns comem de tudo, outros nem tanto, uns preferem frutas e legumes, outros carnes, outros peixes, mas todos comem. Acho que até quem jura de pés juntos que não dá a mínima pra comer e fala que viveria de vitaminas e pílulas de astronauta, já sentiu prazer quando comeu alguma coisa ou comeu e sentiu a sensação gostosa de associar a comida à lembrança de alguém ou de um momento da vida, como o prato que a mãe fazia, o bolo que ia na lancheira. Acho que só comida e fotografia conseguem ressuscitar bons momentos da vida.

Come-se pra parar em pé e por saúde, mas come-se por prazer, porque comida é tudo de bom, porque comer é um super motivo pra juntar pessoas queridas e passar horas inesquecíveis ao redor da mesa, porque tudo isso é o máximo, é maravilhoso.

Só que comida não surge de passe de mágica, alguém precisa escolher a receita, comprar os ingredientes, preparar e servir.

Tem gente que nunca parou pra pensar no assunto, pois sempre teve a comida pronta no prato, tem gente que até chegou a dar uma espiada na cozinha, mas não se aventurou a entrar, tem gente que até entrou e tentou, mas desistiu por falta de alguém pra ensinar ou por medo de errar, ou porque as primeiras receitas que preparou não deram muito certo. Mas ainda bem que há um bom tanto de gente que valoriza - e muito - o ato de pensar na comida, de preparar o alimento no dia-a-dia ou nos momentos mais especiais, que descobriu que cozinhar é bom e que se diverte só em pensar de chamar a família e os amigos pra comer em casa.

Se a criança diz que detesta alface, que é mato e comida de coelho, a gente não fala que só depois de experimentar dá pra dizer que gosta ou não gosta? Pois é, com a cozinha é igualzinho e é mais do que hora de tentar mostrar àqueles que não foram mordidos pela "mosca da cozinha" que cozinhar é tão incrível que pode deixar a rotina muito mais emocionante e que, só experimentando, dá pra passar a gostar, a adorar, ou a dizer que não gosta e pronto.

Nas minhas aulas, perdi a conta dos alunos que chegavam dizendo que não sabiam quebrar um ovo, que nunca tinham entrado na cozinha, que tinham uma caixa de panelas ainda fechada ou que nem o gás do fogão estava ligado, todos jurando que levavam jeito pro fogão. Eu perguntava o motivo da vinda à aula e mãe dizia que veio por insistência dos filhos que se cansaram de comer comida congelada pronta e preferiam comer na casa da avó ou dos amigos; os que moravam sozinhos ou os casais dizendo que se cansaram de comer congelados ou só fora de casa e seria melhor aprender a fazer alguma coisa, ou queriam aprender a preparar um prato incrível pra impressionar amigos etc e tal; gente que adora a cozinha ou adora receber em casa e quer aprender mais ou simplesmente quer aprender pra se divertir; e aquele que dizia que "ganhou a aula de presente", não teve como recusar e foi, certo de que seria "perda de tempo". O fato é que, passado um tempo, quase todos criavam coragem, deixavam de achar que tinham "duas mãos esquerdas" (ou direitas no caso dos canhotos), percebiam que não havia monstro de sete ou de dez cabeças, acabavam se encantando e passavam a querer a aprender sempre mais. Fisgados.

Com os leitores é igualzinho: quem já gostava de cozinhar e de tanto experimentar passou a amar; aquele que nunca havia cruzado a porta da cozinha, encarou e adorou; e até quem nunca havia lido uma receita, mas ganhou o livro de presente, resolver abrir, ficou com vontade de experimentar e descobriu um mundo novo.

Adoro tanto cozinhar que fico radiante quando consigo fazer com que as pessoas descubram que é simples fazer com que a rotina "chata" de cozinhar e pensar na comida de todo dia vire deliciosa. É verdade, nunca é tarde pra começar e, mesmo sem ter quebrado um ovo, dá pra arriscar e preparar um bolo e depois a refeição completa.

Meus conselhos. Comece olhando livros, revistas, sites e blogs com fotos lindas de comida e assim que encontrar o prato que lhe der água na boca, ouse e diga que será "ele" (comece fazendo só pra você, convidados pra depois). Anote tudo e vá às compras como se fosse uma viagem diferente, querendo conhecer tudo e vontade de se divertir. O que vale é tentar comprar os melhores ingredientes que o seu bolso permitir, pois toda receita começa com os ingredientes e ela terá todas as chances de ficar ótima se eles forem bons e com ingredientes ruins até a melhor receita do mundo ficará sofrível. Pense na receita como inspiração, mas tenha espírito aberto e calma pra trocar a banana da torta por morango, pois todas as bananas estão verdes e uma fortuna e os morangos estão lindos e com super preço.

Pense que embora os ingredientes "globalizados" sejam tentadores (o peixe fresco ou a fruta delicada vindos de avião do outro lado do planeta ou o legume de pleno verão desembarcando no lugar em que todos estão tiritando de frio), eles, além de caros, fazem com que a gente deixe de saber de onde vem cada coisa, ou como ela cresceu, parece que tudo fica sempre igual. Não que isso seja horrível, ou que não seja bom matar aquela vontadezinha de comer mexerica em alto verão, mas não dá pra negar que essas facilidades tiram um tanto dos encantos de comer aquela coisa super especial de um lugar no próprio lugar, ou de sonhar com as mangas doces e suculentas que vêm com o verão, ou com os aspargos saborosos da primavera, ou com as mandiocas deliciosas e macias dos meses sem "r", ou com as temporadas do peixe preferido. Eu adoro esperar pelo tempo de cada produto e viver com os ingredientes que vêm de perto, deixando os demais só pra de vez em quando. Sem pestanejar, troco o pé de alface comum e sem identidade pelo que vem de uma plantação responsável, nascido e crescido de um jeito natural, que seja nutritivo e não contenha aquelas coisas esquisitas que a gente nem sabe direito o que são, ainda que o preço seja um tiquinho maior (se for o caso, prefiro comer uma salada menor...). Detesto as cenouras plasticamente perfeitas e fico com as cenouras das hortas de verdade, de tamanhos mais irregulares, às vezes até tortinhas, mas com gosto, cor e textura de cenoura. Não compro mesmo os ovos branquelos, sem gosto e sem consistência daquelas pobres galinhas que vivem trancadas e comem rações horrorosas, só uso ovos de galinhas felizes, que vivem soltas e comem milho e minhocas, alguns tão grandes que lembram os de pata e outros tão pequenos que mais parecem ser de codorna, mas todos lindos, saborosos e nutritivos (frite um de cada só pra comparar). Pó fritar um ovo pra ver a diferença). Por isso, eu sempre fico com ingredientes de produções menores e cuidadosas e, se der, orgânicos.

Comprados os ingredientes, é só entrar na cozinha, preparar a receita seguindo as instruções tim-tim-por-tim-tim e depois comer feliz. Mesmo que os primeiros resultados não sejam exatamente os esperados, que uma coisa saia meio torta ou dê uma douradinha mais forte, não se aflija, isso acontece com qualquer um e todos entenderão, acredite que tudo vai melhorar com a prática. Em pouco tempo, o jantar com uma salada, um prato principal com um acompanhamento já ganha uma sobremesa e por aí vai. Chega a hora em que surge a coragem de preparar um jantar pra mais gente, ou de fazer os petiscos, o pão, o bolo, a massa fresca, o sorvete, alguns potes de geleia com os montes de morangos divinos da estação e até a ricota, basta começar pra descobrir que tudo ficará ainda muito melhor. A ricota é bem fácil, um bom começo: aqueça 1 litro de leite até surgirem bolhinhas nas laterais, retire do fogo antes de ferver, misture umas 6 colheres de sopa de vinagre de vinho branco ou de maçã e 1 colher de chá de sal, mexa por uns 30 segundos, cubra com um pano e deixe descansar fora da geladeira por meia hora, até o leite talhar, depois coloque a coalhada numa peneira grande forrada com um pano limpo, deixe escorrer por umas 2 horas sem apertar, passa pra uma tigela e sirva (se ela não acabar na hora, dá pra guardar na geladeira por até 3 dias).

Mais uma coisa: se não puder ter uma horta pra valer, plante algumas ervas e até um pé de alface nuns vasinhos que podem ficar na janela e a colheita, mesmo que pena, deixará a sua receita ainda melhor.

Aproveite a sua cozinha, cozinhe muito, arrume a mesa, ainda que de um jeito simples e descontraído, mesmo que seja pra comer sem companhia. Faça da refeição um momento e tanto, vale a pena. Se ainda der tempo, corra pra cozinha agora mesmo e prepare o almoço ou o jantar.

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