OPINIÃO
03/05/2014 12:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Chefs mulheres, um assunto que dá pano pra manga

Nessa fase de buscar a igualdade de reconhecimento - pois igualdade de competência é fato -, além de festejar a posição alcançada pela chef a ou b em cada lista, há que se festejar a abertura de cada um desses espaços. Confesso que fiquei feliz com essas conquistas.

Mulheres são incríveis, elas se viram em mil e dão conta da vida, que envolve a família, que pode ter marido, filhos e pais, a casa, o bicho de estimação, a vida profissional e ainda acham um tempinho pra cuidar de si e ficar simplesmente à toa ou fazendo algo simples, como ler um livro e dormir. E isso tudo nas 24 horas inesticáveis de cada dia da vida. Pelo menos, de uns bons anos pra cá, muita coisa melhorou: as tarefas domésticas já são divididas de formas mais justas; já se foi o tempo em que se achava que a mulher que "só" cuidava da família e da casa "não trabalhava" e, com muito esforço pra chegar aos melhores padrões de profissionalização, um número impressionante de mulheres passou a ocupar espaços que antes eram 100% masculinos e impensáveis para pessoas consideradas frágeis, inseguras, delicadas demais e mil outros argumentos sem sentido. Além de mulheres dirigindo ônibus, dirigindo empresas de porte, surgiram as chefs de cozinha. E é a vida da chef de cozinha que é o x da questão nesse momento.

Um fato inegável e curioso: a cozinha da casa sempre esteve ligada às mulheres e o ofício de cuidar da alimentação da família vai além das panelas, pois envolve compras, planejamento do que se vai comer tanto no dia-a-dia, como quando há convidados e, muitas vezes, ainda é preciso servir meio que de maestro quando as tarefas exigem auxiliares. Por que, então, as mulheres que sempre deram conta desse dia-a-dia tão puxado simplesmente ficarem totalmente "de fora" das cozinhas profissionais? É mesmo curioso, mas assim aconteceu por muito tempo mesmo.

Nos últimos 25 anos o cenário começou a mudar. Mulheres competentíssimas, cheias de garra e incansáveis, começaram a abrir espaços e assumir cozinhas profissionais. Foi fácil? De jeito algum. Não bastava querer, era preciso mostrar conhecimento, competência, garra e perseverança, era preciso conseguir conquistar equipes formadas por cozinheiros e auxiliares que nunca haviam sido comandados por mulheres e que viam a situação com desconfiança e descrença. Era preciso provar muito pra realmente liderar a brigada pra fazer a cozinha funcionar da melhor forma possível e chegar aos resultados mais incríveis, conquistar a clientela, a crítica e, assim, viver em paz.

Por mais que se adore cozinhar, que se tenha muito prazer em preparar pratos maravilhosos etc e tal, é preciso amar demais o ofício pra sobreviver à rotina exaustiva da cozinha profissional. O trabalho físico é grande (carregar uma panela pesada e enorme é ok, e não há problema algum em pedir ajuda), são horas a fio em pé, horas e horas fora de casa e trabalhando nos horários em que a família, provavelmente, está descansando. Mas o trabalho intelectual e as responsabilidades pesam ainda mais: não é nada simples liderar a equipe, pensar em tudo, definir cardápios, criar e experimentar receitas, concretizar tudo em pratos lindos e saborosos, lutar pra manter a qualidade, continuar inovando sempre e, acima de tudo, sin perder la ternura.

Aí vem a pergunta: se uma mulher faz tudo isso de forma brilhante, encanta clientes e críticos, por que é tão difícil ter reconhecimento ao menos igual ao que é dado ao chef do sexo masculino? Por mais absurdo que seja, num mundo teoricamente mais justo, em que mulheres ocupam posições altíssimas nas mais variadas áreas, na cozinha profissional o reconhecimento do trabalho de uma mulher é bem mais difícil de acontecer e de "aparecer".

Não acho que mulheres tenham que ter "tratamentos especiais", só acho que os tratamentos não podem ser diferentes. Não é um tanto estranho que, num mundo teoricamente tão moderno e avançado, aqueles que elegem e formulam as listas dos 50 melhores restaurantes do mundo ou dos 50 melhores chefs do mundo só se lembrem de incluir 2 ou 3 nomes femininos? Se competência e brilho não faltam, só uma barreira pesada e muito arraigada de tradições masculinas pode falar mais alto e "fazer de conta" que as super chefs mulheres que estão pelo mundo não têm nada de sensacional pra mostrar ou que não se comparam aos chefs homens. Por exemplo, por que na França ainda se diz que o homem é chef de cuisine e a mulher, que faz exatamente a mesma coisa, é chamada de cuisinière? Não seria porque a maioria dos chefs (que ainda é masculina) continua achando que ser chef implica em liderar e, como mulheres não lideram, elas continuariam sendo "cozinheiras"?

Sempre acreditei, e continuo acreditando, que prestigiar coisas como o dia da mulher é absurdo, que o importante é lutar pela igualdade na vida e no trabalho, nas oportunidades e, portanto, no reconhecimento do que for bem feito. Exatamente por isso, acho que é preciso comemorar tanto essas aparições, ainda que ultratímidas, de mulheres nas tais listas de "best" x ou y. Nessa fase de buscar a igualdade de reconhecimento - pois igualdade de competência é fato -, além de festejar a posição alcançada pela chef a ou b em cada lista, há que se festejar a abertura de cada um desses espaços. Confesso que fiquei feliz com essas conquistas. E fiquei ainda mais feliz quando, há poucos dias, soube da escolha da querida e superchef brasileira Helena Rizzo como a melhor chef mulher do mundo. Que máximo! Mas, de repente, escutei: "é ridículo pensar em escolher uma melhor chef mulher, seria então correto eleger o melhor chef homem?" Será que escolhas assim não incentivam ainda mais as diferenças?

Sinceramente, ainda acho que chegará o dia em que não será preciso realizar escolhas especiais pra prestigiar chefs mulheres que se destacam de forma brilhante. Quando a presença de mulheres nas tais listas "best" forem tão naturais quanto quaisquer outras, os reconhecimentos serão também tão naturais que ninguém mais se lembrará de ressaltar que são mulheres ou homens. Por enquanto, porém, é hora de comemorar cada conquista e não de criticar. Vale comemorar, e muito, que a melhor chef é muito brasileira e que, no Brasil, há pelo menos mais uma dúzia de chefs mulheres nota 10 e que alcançaram posições de dar inveja a muitos homens...