OPINIÃO
23/02/2015 21:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

Trans-diálogos: Faculdade de Medicina da UFC promove discussão sobre despatologização das identidades trans

Qual não foi minha surpresa quando recebi um convite do Centro Acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Ceará, para mediar um grupo de discussões sobre Transexualidade e demandas LGBT para os calouros e alguns alunos de outros semestres do Curso. Prontamente aceitei o convite. Como ativista, que tem lutado arduamente pela despatologização das identidades trans, não pude deixar de ver, naquele convite, a oportunidade de construir um diálogo com um campo historicamente fechado para discussões como essa.

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Qual não foi minha surpresa quando, na semana passada, recebi um convite do Centro Acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Ceará, para mediar um grupo de discussões sobre Transexualidade e demandas LGBT para os calouros e alguns alunos de outros semestres do Curso. Prontamente aceitei o convite. Como ativista, que tem lutado arduamente pela despatologização das identidades trans, não pude deixar de ver, naquele convite, a oportunidade de construir um diálogo com um campo historicamente fechado para discussões como essa.

Com o coração apertado e temendo todos os possíveis argumentos patologizantes, enfrentei, no último sábado, 21, uma forte chuva e fui até o Centro Acadêmico. Reuniram-se dezenas de pessoas para debater o tema. Havia conservadores, mas a maioria dos estudantes queriam realmente entender sobre a temática da transexualidade e das orientações sexuais desviantes da heteronorma.

O diálogo foi realmente fascinante. Foram abordadas dezenas de questões, problematizados argumentos neurológicos, genéticos, da psicologia evolutiva, e, até mesmo argumentos da teologia.

Conseguimos construir, com o diálogo, a necessidade de se produzir um deslocamento do olhar, partindo do conceito de natureza, padrão, e pensando como estes conceitos se operam e constituem a partir de um sistema de interpretação sexo-semiótico dos marcadores biológicos.

Os estudantes de medicina conseguiram compreender que taxonomizar e catalogar a identidade do outro é problemático, frente à possibilidade de auto-determinação dos sujeitos. Abordamos as questões relativas ao nome social, ao determinismo biológico, a desumanização oriunda de processos tecnicistas.

Deste encontro, o Centro Acadêmico de Medicina da UFC, o Grupo de Estudos sobre Transexualidade Janaína Dutra da Prefeitura de Fortaleza e a Frente LGBT de Fortaleza, planejam construir um Seminário sobre a Despatologização das Identidades Trans dentro da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.

O encontro produziu janelas de oportunidade de ampliar as discussões e conduzir as pautas da transgeneridade até espaços altamente normativos de exercício do poder biopolítico.