OPINIÃO
07/01/2015 18:56 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

Esquerdo-machos: eles existem!

Esquerdo-machos são homens de esquerda que mantêm em seu núcleo, organização e grupos virtuais uma postura machista e negacionista, não se assumem como machistas, não olham o silenciamento que produzem. E, principalmente, não consideram as pautas de luta contra o machismo e a homotransfobia como importantes.

Houve um tempo que pensei que esquerdo-machos não existiam. Pensava que eram uma espécie de mito ou um ser muito raro de se encontrar. Descobri essa semana que não: eles existem e muitos estão munidos de diplomas de cientistas sociais, historiadores, biólogos e tantos outros títulos que usam para silenciar e dar carteirada em mulheres e pessoas trans.

Esquerdo-machos são homens de esquerda que mantêm, em seu núcleo, organização, grupos virtuais uma postura machista e negacionista, não se assumem como machistas, não olham o silenciamento que produzem. E, principalmente, não consideram as pautas de luta contra o machismo e a homotransfobia como importantes. Para eles são questões secundárias, que devem ser tratadas nos termos deles, no tempo deles e depois das questões de classe, compreendida por eles em sentido estritamente econômico.

Os esquerdo-machos estão sempre, em muitos grupos envolvidos em discussões com feministas de esquerda. Gostam de cultuar e objetificar mulheres que acham "lindas", vestidos com suas barbas e roupas em tom pastel, tratam mulheres feministas que reclamam de suas atitudes como "loucas, radicais, exageradas, histéricas". Com ironia criaram páginas virtuais para ofender as mulheres feministas.

Eu, particularmente (que fique claro que esta é uma postura particular) não vejo problemas em homens que lutam contra o machismo, em homens que se proclamem feministas, ou pró-feministas, pra mim se trata de uma questão retórica, uma simples partícula sufixal posta antes da palavra, mas que na prática não muda nada. O homem, que se pretende pró-feminista, deve começar olhando para si mesmo e tomando consciência dos privilégios que possui e da maneira como usa o poder patriarcal que, querendo ou não, a sociedade lhe confere para silenciar mulheres.

A forma como os descobri foi realmente triste para mim. Foi na base da transfobia. Um homem, em um grupo virtual de esquerda, exibe a foto da bunda de uma mulher trans que as enviou em sua caixa de mensagens. O faz acrescido de uma piada sobre estupro, o faz a partir da genitalização do gênero e de duas afirmações centrais: 1-) Sou heterossexual; 2-) Parece que todas as travestis querem " dar" pra mim, e elas me assediam. A foto que ele expôs estava com o nome coberto. Mas ainda assim era uma mulher trans, uma pessoa como eu, que estava com sua intimidade exibida em um grupo imenso da internet.

Como ativista que sou, denunciei a publicação e iniciei um debate com o esquerdo-macho. Para minha surpresa os moderadores da página consideraram minha denúncia "exagerada", afinal, ele nem mostrou o nome da garota. Como se aquela bunda fosse um órgão voador, solto, sem uma dona, sem uma razão de tê-la enviado.

Outros homens o defenderam, mulheres também, as mesmas que consideram feministas pessoas "radicais", ou que afirmam que "feminismo de internet é modinha". Este é o coro dos esquerdo-machos. Deslegitimar a luta das feministas, permitindo piadas transfóbicas, permitindo exposição, ridicularização de mulheres, e fazendo com que nós, pessoas trans, sejamos farsantes de gênero, nos tratam como se fôssemos um homem fantasiado de mulher, o que é mentira e fruto de imensa incompreensão do que é gênero e de como ele se constrói no horizonte da performatividade.

Estes esquerdo-machos são geralmente homens que sofreram com o "escracho" de mulheres na internet. O que é este escracho? É quando elas agridem verbalmente, ridicularizam, o homem e seu totipotente pênis. Eles se sentem ofendidos, e, apesar de todos os anos de estudo que apresentam, não percebem que o escracho é uma ferramenta de luta. As vezes não é o diálogo que nós queremos. As vezes queremos apenas conversar entre nós. Nada além disso.

Jamais vi ou ouvi um homem de esquerda dizer que os trabalhadores em greve precisam ser mais "dóceis", jamais os ouvi dizer que o patrão não era um inimigo. Jamais! Mas quando se trata do feminismo, temos de ser dóceis, abertas ao diálogo. Exigem de nós a docilidade que os machistas da direita conservadora exigem de suas esposas.

Em seu livro A Revolução Molecular, Félix Guattari nos fala sobre estes tipos. Ele esclarece: são todos grupelhos, que internalizam as estruturas e organizações opressoras da sociedade. Que, fingindo buscar libertação, se prendem a regulação máxima do ser, propõem a revolução nos termos deles, com as causas deles e brigam com os grupos que pensam diferente.

Frequentemente os esquerdo-machos nos acusam de dividir a esquerda, porque queremos simplesmente que as pautas feministas sejam ouvidas, e queremos espaços de diálogo que sejam apenas nossos. A vivência de uma mulher é diferente da vivência de um homem. Em sua famosa entrevista de 25 anos de "O Segundo Sexo", Simone de Beauvoir nos conta como se descobre feminista a partir da reflexão sobre si mesma, e sobre a importância de existirem espaços femininos para que sejam discutidas as questões femininas, questões com as quais os homens não tem de lidar ao longo de suas vidas, e sobre as quais não precisam opinar, além do que, a fala do homem, enunciada de um lugar de poder, pode constranger as mulheres simplesmente por ser a fala de um homem.

Infelizmente, esquerdo-machos existem. E devo dizer aos senhores, que sem feminismo, sem transfeminismo, sem ativismo LGBT sua revolução será apenas um engodo. Um patriarcado socialista que pouco vale. O combate a pobreza, a redução das desigualdade são também transpassadas pelas questões de gênero e sexualidade.

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