OPINIÃO
25/11/2014 23:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

Escola, gênero e sexualidade: um desafio do qual não podemos fugir

O que foi minha vivência na escola? Como se socializa um rapaz lido como gay, afeminado e gordo na escola? O que ela tinha a me dizer sobre isso? Como me socializei? Com este texto pretendo refletir um pouco sobre minha vivência, com algumas reflexões de caráter mais teórico.

PeopleImages.com via Getty Images

O que foi minha vivência na escola? Como se socializa um rapaz lido como gay, afeminado e gordo na escola? O que ela tinha a me dizer sobre isso? Como me socializei? Com este texto pretendo refletir um pouco sobre minha vivência, com algumas reflexões de caráter mais teórico. O fundamental é saber: "Como estão lidando com as questões da sexualidade nas escolas?".

A escola jamais foi apenas o lugar onde aprendemos os conteúdos formais de ensino: português, matemática, história, geografia. A escola, tal qual a conhecemos, possui uma história, que é, necessariamente a história de uma instituição disciplinadora, de controle dócil, de produção de subjetividades. A escola é um dispositivo de poder. Alimenta discursos, dispõe e media relações de interação social. Está além do prédio que conhecemos, além de suas grades, se bem que estes prédios dizem muito sobre ela.

Salas trancadas, corredores com grades, horários para ir ao banheiro, inspetores que passam pelos corredores a fim de manter certa ordem. Uma rígida organização burocrática-hierárquica, e os sujeitos a seres disciplinados. Essa bem poderia ser a descrição de um presídio, de um asilo, de um manicômio. Mas não, é a descrição de uma escola pública ( não sei como são as particulares, imagino que da mesma maneira, porém com mais sofisticação em seus processos de docilização e controle).

É comum ouvir falar sobre a crise das escolas. É comum ouvir falar sobre a necessidade de valorização dos professores. É comum ouvir falar sobre bullying, sobre modificações curriculares. São todos temas frequentes. Durante as décadas de 70 e 80 muito se pensou sobre as relações de gênero dentro da escola. Sobre as distinções de tratamento menino-menina. Essas distinções são problemáticas ao carregarem consigo, ainda que disfarçadas sob o conceito de gênero, o essencialismo das relações sexo-gênero.

Ou seja, ao pensar as relações de gênero na escola pensava-se sempre, que os meninos seriam aqueles com pênis e se interessariam pelas meninas, e as meninas aquelas com vaginas que se interessariam pelos meninos. No pensar sobre as relações de gênero na escola, questões como a transexualidade e a homossexualidade são apagadas.

Não há um discurso oficial da escola sobre o tema. A diversidade é silenciada. A identidade do garoto gay, sobretudo a minha, foi marcada pelos risos, pelas chacotas, pelo bullying homofóbico, que tantas vezes me fizeram desejar não ir à escola, me fizeram desviar meus caminhos, me fizeram não ir ao recreio, não participar da "atividade física", ou não me pronunciar em sala de aula, afinal, minha voz fina e trejeitos causavam sempre estrondoso riso.

Mas ninguém possui apenas um marcador identitário. Os sujeitos não são apenas isso ou aquilo. Eu não fui apenas o menino gay. Havia um outro rapaz gay em minha sala de aula no Ensino Fundamental. Não me lembro o nome. Ele era mais pobre que eu, mais tímido, mais magro, e não era um dos "nerds" da sala de aula, e era negro.

O rapaz era diariamente perseguido. Ofendido. Davam-lhe tapas na cabeça. Riam-se dele o tempo todo. Me lembro de ter ouvido sua voz uma ou duas vezes em anos estudando junto. Ele tinha, como eu, amizade com as meninas. Eramos os gays, mas ele, muito mais marcado e perseguido do que eu.

Os professores, em sua maioria, pareciam não perceber. Ensinavam seus conteúdos e iam embora. Penso que talvez tenham esquecido que a escola possui muitas funções e que a relação professor-aluno não é uma relação apenas de hierarquia.

Os alunos são sujeitos que encontram na escola, geralmente, os primeiros espaços de socialização, relações afetivas e pertencimento de suas vidas. Na escola aprendem muito sobre como lidar com o outro, sobre como relacionar-se com o diferente. O gay, a lésbica, a menina trans, neste caso, são os não-sujeitos. Não se fala sobre eles. Não se ensina sobre nós. O discurso escolar haje como se não existíssemos, e por não existirmos a violência contra nós passa como se não tivesse ocorrido.

Faço aos professores que tive, e aos que são colegas de trabalho hoje, que repensem sempre suas práticas pedagógicas e sua tarefa. Que violências ocorrem em sua sala de aula e vocês não se dão conta? Quantos alunos de vocês, assim como eu, em período escola, poderão tentar suicídio? Como as "brincadeiras" tem afetado seus alunos? Sua linguagem? Piadas? São sexistas? Quando ensina sobre a África menciona que em muitos países de lá a homossexualidade é proibida? E em 4 países, como Uganda, punida com pena de morte?

Quando falam sobre "Dom Casmurro", professores de português, mencionam algum dos estudos sobre as possibilidades de relações homoafetivas entre Bentinho e Escobar? Como analisado pelo pesquisador e escritor Clauber Rocha?

Lembro que na 8ª série uma professora me deu um conto do Oscar Wilde para ler. Apenas hoje sei que ele era homossexual. Será que isso não era importante para seus alunos homossexuais?

É uma questão emergencial para as escolas pensarem as questões acerca de gênero e transexualidade. Fazemos parte da história, da literatura, do cinema. É importante para o empoderamento dos alunos que sentem-se como eu me sentia: uma abjeção.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS GAY NO BRASIL POST:

Galeria de Fotos Os 10 piores países do mundo para gays Veja Fotos