OPINIÃO
10/11/2014 13:50 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

Enem: de prova desconhecida a acontecimento inclusivo

Fotos GOVBA/Flickr
Simulado do Enem no Colégio Estadual Mestre Paulo dos Anjos, no Bairro da Paz Foto: Carol Garcia/GOVBA

Este foi, provavelmente, meu quarto ou quinto Enem. Lembro-me que no primeiro deles havia apenas 63 questões e não muita utilidade. Apenas me ajudou a complementar a nota no vestibular da Fuvest para a Universidade de São Paulo. Nada mais. Aquela foi a última edição no antigo formato. Foi em 2008, desde então, como bom professor de Cursinho que fui, tenho-o feito todos os anos, a maioria deles em Guarulhos. Este foi o primeiro que fiz no Nordeste, em Caucaia.

Lembro-me que, no começo, o Enem era algo do qual pouco falávamos na escola. As inscrições ainda eram feitas em uma ficha amarela, penso eu, não era inscrição virtual. Não sabíamos ao certo qual a importância dele e o dia da prova era apenas um dia de prova. Pensávamos no Enem como um provão pra quem conclui o Ensino Médio. Era, pra nós, algum tipo de excesso do Governo para fazer parecer importante o término da escola e para acessar o ProUni. Naquele tempo eu jamais sonhei com ProUni. Minha meta era a Universidade Pública. Afinal, aquele lugar me pertencia também, não apenas aos filhos dos ricos, mas também a mim, jovem da periferia de Guarulhos.

Este final de semana fiz o Enem 2014. Não há nele nem sombra do que foi nos idos do meu primeiro Enem e fico a pensar se há nele alguma relação com aquele Enem desconhecido de 1998. Aquele que mal sabiam o que era. Que não passava na televisão e para o qual ninguém se preparava. Este fim de semana percebi: o Enem agora não é apenas uma prova, é um acontecimento nacional.

Milhões de estudantes em todo o país lotando os ônibus. Congestionando o trânsito, saindo de casa para fazer a Prova. O exame que determina o ingresso em uma Universidade Federal, em algumas estaduais, o ProUni, uma vaga na Universidade de Coimbra, o certificado de Conclusão do Ensino Médio.

Um acontecimento capaz de reunir, para a mesma prova, pessoas de idades, etnias, rendas, gêneros, orientações sexuais distintas. Muito diferente do que é o vestibular da Fuvest, por exemplo, onde vemos uma imensa brancura amarelada, dos filhos da classe média. No Enem não. Vemos um universo de cores, idades e credos.

O Enem é um acontecimento, não apenas pelo imenso número de pessoas que movimenta, mas pela possibilidade de inclusão social que proporciona. Aqui no Ceará, diferente do que vi em São Paulo, havia muitas mães, senhoras simples, de fala bastante regional e popular a levar o filho, gente que mora na periferia mesmo. Mães que olham para o filho e para aquele dia como o momento em que alguém de sua família poderá acessar Ensino Superior.

E a prova? Havia nela lá suas dificuldades, afinal, prova alguma é " fácil": há tensão, há o catastrofismo corrente de " essa prova pode definir minha vida", mas o conteúdo é um primor. Não se trata de prova conteudista, para cabeças habituadas a decorar livros, mastigar linhas e engolir parágrafos. Não! Trata-se de prova para cabeças que pensam por si.

Dividida em quatro grande blocos (Ciências Humanas e suas tecnologias; Ciências da Natureza e sua tecnologias; Linguagens, Códigos e suas tecnologias; Matemática e suas tecnologias) permite ao vestibulando, ao estudante que faz a prova, que relacione os diversos conteúdos que aprendeu de forma fragmentada na escola. Em uma mesma questão lá estão a filosofia e história, a sociologia e a geografia. O Enem tem se mostrado o berço da interdisciplinariedade, o berço de uma educação não fragmentada. Uma educação que não é fordista, mas rizomática, repleta de passagens, de possibilidades, de interpretações.

Meus sinceros votos são de que um dia, todas as universidades brasileiras usem o Enem como forma de acesso. Isso poria fim a pérfida indústria de " cursinhos" que cobram do aluno para à moda de Hefestus, com um machado, enfiar conhecimento na cabeça dos alunos. O Enem pode representar uma pressão para a modificação da educação básica. Ele é a pressão para uma educação interdisciplinar, não fragmentada e que, ao invés de criar enciclopédias, crie pontes, ensine a caminhar pelos labirintos e heterotopias da história.

Faço votos também para que as cidades tomem dimensão do que é o Enem. Não se trata, senhores prefeitos, simplesmente de uma prova, mas de um acontecimento como nenhum outro em cada cidade brasileira. É preciso aumentar as frotas de ônibus. Preparar corredores nos horários que antecedem o início das provas e que sucedem seu fim. Aquele é um momento por si mesmo estressante. O ônibus lotado, o medo do atraso, o trânsito são fatores que contribuem para piorar os resultados dos estudantes. É preciso e possível planejar.

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